“Lirismo vem sendo subestimado”

FÁTIMA DANNEMANN*

13/09/97 – A Tarde Cultural

Depois de dois livros de contos e vários quilômetros de trekking em paraísos ecológicos do país, o jornalista Carlos Ribeiro resolveu enveredar pelo lirismo e transformar seus sonhos e lembranças em uma história mais ampla. Assim surgiu O chamado da noite, primeiro romance de sua autoria, que chega às livrarias pela editora Sette Letras. Tudo começou quando a escritora Nélida Piñon sentiu que os contos de Carlos tinham certo jeito de romance.Ele resolveu tentar a nova experiência, que poderá ser conferida no próximo dia 23, quando o livro será lançado, em noite de autógrafos, a partir das 18 horas, na Livraria Civilização Brasileira do Shopping Barra.

Carlos Ribeiro nasceu no bairro de Monte Serrat, em 19 de agosto de 1958 e, além de jornalista formado pela UFBA é autor dos livros de contos Já vai longe o tempo das baleias, lançado pela Coleção dos Novos, em 1981, e O homem e o labirinto, lançado pela BDA em 95, foi também pioneiro na realização de caminhadas ecológicas, trekking, dedicando-se à documentação e à divulgação de regiões naturais, realizando viagens à Antártida, Amazônia e outros parques ecológicos sobre os quais escreveu reportagens para revistas do Brasil e do exterior.

Vencedor do concurso de contos promovido pela Academia de Letras da Bahia (ALB), Carlos Ribeiro fala de sua estréia como romancista na entrevista que se segue.

FÁTIMA DANNEMANN- Depois de lançar dois livros de contos, por que veio um romance?

Carlos Ribeiro- Eu já tinha dois livros de contos publicados e sempre tive mais familiaridade com textos curtos. Mas, ultimamente, venho sentindo a necessidade de romper esses limites do conto, para expressar minha própria vivência e visão de mundo. O livro, na verdade, está mais para novela. Neste livro há, na realidade, uma certa fusão de gêneros, de forma que estão presentes elementos tanto do conto, quanto da crônica, da poesia e do romance.

FÁTIMA DANNEMANN- Qual o enfoque do livro?

CR – O livro enfoca um momento de minha própria geração e, como fui bastante influenciado pelo cinema, tem muito de imagem, muitas citações de filmes, muitos cortes que lembram o cinema. É um texto ágil que busca a leveza, um dos elementos que têm sido apontados, uma tendência da literatura do próximo milênio.

FÁTIMA DANNEMANN- Na orelha do romance, Lígia Telles diz que O Chamado da Noite “desponta como um aceno ao leitor para ingressar em território povoado de sonhos, lembranças e fantasias”. Como você traduz tudo isto?

CR – Os personagens do romance são seres oníricos, personagens fictícios, como elementos de um sonho. Ao mesmo tempo, acrescento à história diversos elementos de minha própria vivência, as passeatas universitárias do final da década de 70, a perseguição política dos anos de ditadura, a alienação de toda uma geração, mas tudo isso em um tom leve e até humorístico.

FÁTIMA DANNEMANN- Ser escritor, na Bahia, onde existem poucas editoras, produzir e editar livros deve ser problemático…

CR – O maior problema não é publicar, mas ter a obra distribuída. O compromisso das editoras para com o livro publicado tem se esgotado no lançamento. A saída, já que não existe um mercado editorial mais forte, é procurar editoras do sul do país, como a Sette Letras, que tem prestígio no mercado, já publicou dois livros concorrentes ao Prêmio Nestlé, e valoriza o autor, abrindo as portas para escritores menos conhecidos nacionalmente.

FÁTIMA DANNEMANN- E as editoras baianas, qual o seu papel?

CR – A BDA, a Edufba e outras têm tido um papel muito importante na produção de livros na Bahia, mas falta um trabalho mais forte de distribuição e promoção do autor.

FÁTIMA DANNEMANN- Com a informática, tem-se acentuado o número de produções independentes, gente que edita e imprime o livro praticamente sem sair de casa…

CR – Isto, na verdade, é a reciclagem da literatura marginal, que existe desde os anos 70, quando livros inteiros eram feitos no mimeógrafo. Mas, ainda assim, é preciso ter todo o esforço de marketing para promover o autor e fazer com que o livro chegue às livrarias. Se não houver a editora, de nada adianta. É preciso fortalecer o mercado editorial e dar à atividade uma visão empresarial mais forte.

FÁTIMA DANNEMANN- Voltando a O chamado da noite, o que você destaca no romance?

CR – O aspecto lírico, que é muito forte. O lirismo vem sendo subestimado. Hoje há uma supervalorização da literatura neo-naturalista, dos romances que retratam a violência urbana, que ocupam mais espaço na mídia. Acho que podemos mostrar a realidade social, mas cultivar o lirismo. O romance tem as duas vertentes, a narrativa e a lírica. É um livro subjetivo com o texto enxuto. Tem muito da metalinguagem, onde o narrador questiona e discute sua própria criação. No último capítulo, o personagem-narrador fica preso no arquivo de um computador e uma mulher assume o seu lugar.

FÁTIMA DANNEMANN- Quando as expedições ecológicas ainda não estavam em moda, você já se dedicava a elas visitando a Antártica e outros pontos, como estão suas atividades neste campo?

CR – Estou dando um tempo, no momento. Estou fazendo o Mestrado em Literatura, e tive um problema no joelho que está me impedindo de fazer caminhadas longas como eu gosto. Mas pretendo retomar as expedições logo que for possível.

*Fátima Dannemann é jornalista

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