Labirintos da Metrópole

ALEILTON FONSECA *

22/07/00 – A Tarde Cultural

 

O visitante noturno, uma coletânea de 21 contos, confirma Carlos Ribeiro como um dos mais ativos nomes da “geração” 80. Trata-se de um autor atento às transformações do mundo contemporâneo, cuja percepção crítica vem se constituindo na pedra de toque de sua escrita. Escritor premiado e jornalista atuante, as suas habilidades se somam e se interpenetram nos textos, mostrando coesão e equilíbrio entre o pensamento e a intenção estética.

A realidade urbana em processo é a matéria-prima deste autor. Mas ele não se contenta com a simples transposição do real para a ficção. Recolhe as sugestões da realidade imediata e quebra sua lógica para expandir os sentidos ficcionais através da abordagem, dos diálogos e da linguagem. A feição e a atmosfera de seus contos se definem pelo ponto de vista do narrador, às vezes participante ativo, às vezes observador dos fatos. A forma de conduzir a história determina o tratamento temático e se torna fundamental para o leitor compreender as intenções e os efeitos dos enredos.

Alguns contos assumem um viés irônico, supra-real, fantástico ou sobrenatural. Num deles, após um acidente dois amigos carregam a mão decepada de um morto como um troféu macabro, com uma naturalidade que causa horror. Em outro, o medo de um gorila e a tensão acumulada pelo protagonista conduzem a trama para um final surpreendente. Em As vozes no corredor, um misterioso coro brota das paredes para atormentar a vida de uma família de hábitos estranhos. Em A visita do diabo, um personagem tem um inusitado encontro com um espectro, movendo-se entre o real fantástico e a alucinação.

O conto-título, O visitante noturno, concentra o clima e a temática dominante da coletânea. Seu enredo cruza as sugestões realistas – a solidão, a insegurança urbana, o medo do desconhecido – com as tensões que afetam o estado psicológico dos indivíduos. O conto não elucida o mistério e suas conseqüências, deixando ao leitor imaginar interpretações segundo seus próprios receios e convicções.

Neura e O assalto são perpassados por um olhar delirante, seja pela tensão do cotidiano estressante, seja pela agonia de uma vítima fatal. Aí o leitor é desafiado a refletir e encontrar perspectivas de apreensão da realidade para além do olhar convencional.

Em O encontro o narrador tem uma percepção onírica. Ele retorna ao tempo da infância, ao lado do pai, mas com consciência de seu estado de adulto e de seu tempo presente. O sonho funciona como passagem que leva o protagonista a contracenar consigo mesmo, em diferentes dimensões temporais que se superpõem e se interpenetram. Essa viagem representa a busca simbólica do pai que, morto precocemente num acidente, constitui agora uma lembrança incompleta que o narrador não deixa se apagar. Projeta-se no sonho a imagem paterna perdida no passado e viva na memória, mas esse encontro é interrompido pelo ruído presente de um motor de avião.

De modo diverso, Vozes do tempo e outros contos de recordação apresentam narradores que refletem sobre situações, viagens e vivências que fazem parte do seu ser e de sua personalidade. Recordar é trazer de novo ao coração, reativar as referências afetivas, alimentando anseios, ideais e desejos. São momentos de reflexão sobre o passado e de afirmação de valores que não podem se perder.

Essa vertente encontra maior força expressiva em O caçador de raridades, narrativa carregada de realidade e lirismo. Um caçador de animais silvestres para o mercado negro entra em crise, se questiona e vive uma transição da atitude predadora para a consciência preservacionista. Quando captura a ararinha azul tão rara, ele a restitui ao céu do sertão e, ao mesmo tempo, se liberta do esquema destruidor a que estava preso. O conto traduz um profundo sentimento ecológico e humanitário diante da natureza e seus seres.

Mesmo nos contos que elevam o real às raias do absurdo, do fantástico e do sobrenatural, Carlos Ribeiro preserva um fio de verossimilhança que ilumina a leitura e a compreensão do enredo, porque tem algo substantivo a comunicar para além da operação textual em si. Sua ficção se nutre da vivência e da experiência do homem, do escritor e do jornalista. Nisso ele constrói uma base, afirma um saber e define um critério que dão unidade a seus textos, definindo o seu estilo.

O visitante noturno desperta interesse pela forma como o narrador trata os assuntos e conduz os diálogos. Carlos Ribeiro exprime a perplexidade da vida moderna e manifesta o seu espanto diante dos labirintos da metrópole, onde os valores autênticos se perdem ou se diluem. Há nele uma saudade existencial – sem saudosismos – de uma época mais inocente, um mundo de sujeitos e afetos que se perderam no tempo.

Há sempre um horizonte em seus enredos: a busca da essência do ser, a recuperação do tempo vivido, a indagação e o desnudamento das aparências. Os personagens transitam num mundo que muda rapidamente, mas que se pode fixar, recortar e recuperar pela voz e pelo desejo da escrita. Esse aspecto fundamental constitui um dos critérios de reconhecimento e de análise crítica do livro.

O autor tem imaginação e sabe definir a narrativa curta de forma consistente. Sua prosa estabelece um diálogo com a existência e a realidade, numa busca de sentidos pessoais, transcendentes e universais. Suas indagações e perplexidades não se tecem somente em cima de fatos e aspectos objetivos da realidade, mas também se aprofundam no questionamento da vida, em busca das imagens de uma existência possível, apesar das amarras e limites do mundo real. Sua trajetória é, portanto, a de todos aqueles que preservam sua subjetividade apesar dos automatismos compulsórios. Aqueles que são vozes e ouvidos no meio da multidão e, mesmo perdidos no mundo de pernas, máquinas e cifras, jamais extraviaram-se de si mesmos.

* Aleilton Fonseca é escritor, doutor em Letras pela USP e membro da Academia de Letras da Bahia.

 

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