Há pouca grandeza em nossa literatura

Entrevista concedida a estudantes de jornalismo
da Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC, em 2005
 

O que o influenciou a escrever?
Leituras, experiências marcantes que me obrigaram a buscar uma forma de expressão mais elaborada.

O que o agrada mais, a prosa ou a poesia?
A prosa, embora ache a poesia uma forma de expressão mais refinada. Gosto muito do romance, do conto, do ensaio, da biografia.

Como você vê o cenário literário hoje, a literatura que se faz hoje?
Com muitos talentos, mas com pouca grandeza. Dá a impressão, certamente falsa, pois os fenômenos são sempre cíclicos, de que a era dos grandes escritores acabou. Acho que, com o baque sofrido pela utopia socialista, passamos a viver uma época de transição – uma época morna, marcada pelo cinismo, pelo desencanto, pela acomodação. O ideal romântico e também surrealista de que Vida e Obra são uma só coisa parece ter caído em descrédito. Poucos autores, neste mundo globalizado e midiatizado (ou midiotizado) acham hoje que vale a pena lançar-se de peito aberto na vida, como fizeram Rimbaud, Jack London, George Orwell, Ernest Hemingway, John Steimbeck. Os escritores, na maioria dos casos, segundo me parece, trocaram a experiência direta pela mediada por veículos de comunicação, como a internet; a realidade pelo simulacro.

Qual a dificuldade de publicar no Brasil?
A dificuldade de publicar é bem menor do que era, por exemplo, nos anos 70/80, quando comecei a escrever. Entretanto, publicar por uma grande editora, ter uma boa divulgação e distribuição do livro é que são elas. O centro do palco literário está sendo ocupado, cada dia mais, não exatamente por escritores, mas por celebridades da mídia. Os escritores de verdade, se ainda podemos usar este termo numa época de extrema relativização, comem pelas beiradas. Mas, se têm talento, nada poderá impedi-los de construir sua obra.

Você tem um livro preferido, que é o xodó ou que tem uma história peculiar?
Não. Acho que todos eles têm uma história peculiar e marcaram fortemente uma fase da minha vida. Inclusive os que ainda estão inéditos.

No ensaio sobre o cronista Rubem Braga, a professora Mirella Márcia Longo comenta que você “escreve com leveza e nitidez”. O jornalismo ajudou ou influenciou a sua forma de escrever?
Sem dúvida. Toda a minha escrita é fortemente marcada pela minha experiência de jornalista. Mesmo aquela (refiro-me ao romance O chamado da noite) que procura recusar esta leveza e nitidez, com o uso de frases longas e tortuosas. Para mim, as duas práticas (a jornalística e a literária) mantêm sempre um diálogo constante. A diferença maior, acho eu, é que a atividade jornalística é mais racional, mais condicionada ao factual, e, portanto, mais limitada. Na literatura coloco mais o meu sentimento e as minhas fantasias, o que me dá maior prazer e satisfação pessoal e intelectual.

Você atua nas duas áreas hoje (jornalismo e literatura)? Qual delas lhe agrada mais?
Sou professor de jornalismo e escrevo ocasionalmente resenhas literárias e uma ou outra matéria ou entrevista, quando me pedem e acho que vale a pena. Não tenho, portanto, mais uma prática jornalística constante. Quanto à literatura, escrevo sempre, mas sem nenhuma disciplina. Tenho vários livros começados que escrevo quando sinto vontade ou aquele impulso interior ao qual podemos dar o nome de inspiração.

Pra você, qual a principal diferença ou semelhança entre o jornalismo e a literatura?
O jornalismo visa, essencialmente, informar; a literatura, transmitir uma experiência. Mas há momentos em que um e outro se encontram de forma brilhante. Se você já leu O povo do abismo, de Jack London, ou À sangue frio, de Truman Capote, ou mesmo o nosso monumento literário que é o ensaio-romance-reportagem Os sertões, de Euclides da Cunha, sabe do que estou falando. Há muitos outros exemplos. Mas acho que, quando o peso maior do texto está na sua dimensão estética, ele passa a ser literatura, e tudo o mais fica em segundo plano.

O que ainda o impulsiona a escrever?
Não sei. Acho que a necessidade de compartilhar experiências. Se eu fosse um pouco mais sábio, talvez não precisasse escrever. A grande vantagem de ser um escritor é que, por mais dolorosas que sejam as suas experiências de vida, elas poderão resultar numa obra e ser compartilhada em um nível mais alto, que é o da experiência estética. Na literatura, mais do que em qualquer outra coisa, vale o conhecido verso do Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

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