Gigante das letras – Mundo literário celebra hoje os 100 anos do escritor Rubem Braga, pai da crônica brasileira moderna

gigantedasletrasEis as melhores coisas do mundo: “esbarrar” com comidas de infância, ler pela primeira vez um poema de qualidade, tomar banho excelente num bom hotel, vestir roupa confortável e sair pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas… E acontecerem. Assim enumerava, em 1988, o escritor Rubem Braga (1913-1990), considerado o inventor da crônica moderna brasileira (em 60 anos, foram mais de 15 mil delas).Impressiona, no entanto, não a quantidade de textos, mas a leveza poética, a maneira delicada e afetuosa como ele se aproximava dos detalhes e do gosto popular, lançando mão da linguagem coloquial e do bom humor. Eram histórias de infância, de deslumbramento frente à natureza, às mulheres, à vida. A contundente simplicidade das crônicas breves e prazerosas tornou o autor gigante. Não à toa, ele figura entre os mais consagrados da literatura brasileira.Caso não houvesse morrido, em 1990, devido a um câncer de laringe, completaria hoje cem anos. Talvez cem anos de solidão, como sugeriu recentemente o escritor João Moraes, conterrâneo de Braga, nascido em Cachoeiro do Itapemirim, Espiríto Santo. “Essa sua prosaica e modorrenta solidão literária que, afinal, nem era tão desacompanhada assim”, escreveu João Moraes, referindo-se aos amigos do autor, como Neruda, Caymmi, Fernando Sabino.Este último, aliás, certa vez pediu a Rubem Braga uma definição de si mesmo, e recebeu a seguinte resposta, digna de alguém que desde muito cedo abraçou a atividade jornalística: “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem que dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento”.

Na avaliação do pesquisador Anco Márcio Tenório, professor de literatura da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), as frases do autor capixaba são curtas, muitas vezes telegráficas, entremeadas por outra frase mais longa. “Em Rubem Braga, o instantâneo da crônica é apreendido por um estilo que também é rápido”, diz. Assim, o escritor trouxe para os jornais as conquistas estilísticas do modernismo dos anos 1920.

Outra face

Sobre as temáticas mais recorrentes, o acadêmico baiano Carlos Ribeiro, autor de Caçador de ventos e melancolias – Um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga (2001), destaca a existência de faceta menos conhecida do cronista. Embora o comum seja exaltarmos o lado lírico e poético, diz o pesquisador, há muito mais para ser estudado, uma vez que das suas 15 mil crônicas, foram publicadas 400.

“Os textos de Braga eram em sua maioria contundentes, denunciavam o autoritarismo de Getúlio Vargas, a arbitrariedade policial, agressões ao meio ambiente. Ele confrontou indústrias poluentes, por exemplo”, revela Carlos Ribeiro, doutor em literatura pela UFBA. Ainda este ano o estudioso planeja lançar o Rubem Braga: um escritor combativo – A outra face do cronista lírico, onde disseca o assunto.

Saiba mais

Para marcar o centenário de nascimento de Rubem Braga, o grupo editorial Record, que publica toda a obra do autor, lança quatro títulos entre fevereiro e março.

Retratos parisienses:
31 crônicas (1949-1952)
(José Olympio, lançamento)

Na segunda metade do século 20, Rubem Braga era correspondente do Correio da Manhã na Europa, onde se encontrou com imortais das artes e do pensamento universal, como o filósofo Jean-Paul Sartre, os pintores Henri Matisse e Pablo Picasso e o escritor Alberto Moravia. Assim surgiram 31 entrevistas que misturam reportagem, crônica e divagações líricas, que agora são publicadas pela primeira vez em livro.

O menino e o tuim
(Galerinha, lançamento)

Rubem Braga conta a influência que um bicho de estimação, como um passarinho, tem na vida de uma criança. Com linguagem sensível e poética, capta a emoção de uma amizade pura e sincera e outras experiências transformadoras da infância.

Na cobertura de Rubem Braga
(José Olympio, reedição),
de José Castello

Em sua cobertura em Ipanema, rodeado por árvores e hortas, Rubem Braga mantinha uma vida diferente em meio à urbanidade do Rio de Janeiro. Neste livro, o jornalista e escritor José Castello reúne depoimentos e fotos de escritores e intelectuais como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Antônio Callado e Vinicius de Moraes para reconstruir a vida e a obra deste grande mestre.

Rubem Braga, o lavrador de Ipanema
Editora Record, lançamento

Seleção de 14 crônicas de amor à natureza escritas entre os anos de 1930 e 1980. Rubem Braga foi um dos primeiros jornalistas a escrever sobre questões ambientais e a combater a destruição da natureza. Embora tenha passado maior parte de sua vida na cidade grande, vivendo da atividade de cronista, encontrou no terraço do edifício da rua Barão da Torre, no Rio de Janeiro, espaço para se tornar-se o “lavrador de Ipanema”, como o apelidou o amigo Paulo Mendes Campos, plantando um sem número de espécies de plantas e árvores frutíferas.

Fonte: InterJornal

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