Geração 90

Gerana Damulakis – A Tarde 05/12/2001

Ainda estamos em plena fartura de livros coletando contos e poesias. Além das antologias que querem registrar a produção literária do século, há as que historiam escolas ou gerações. É o caso do livro Geração 90 – Manuscritos de Computador, da Boitempo Editorial, reunião de contos organizada pelo escritor paulista Nelson de Oliveira, visando aos contistas que publicaram no final dos novecentos. Esses escritores teriam em comum elementos fortes que participaram da sua de sua infância, dentre eles, a televisão, e influenciaram suas criações.

Nelson de Oliveira encontra um ponto comum na ficção dos dezessete contistas: a “fixação pelas picuinhas do planeta Terra”. Se a década de 70 detonou a primeira explosão do conto no Brasil, conseqüentemente os escritores que fizeram parte daquele boom formam o ponto de partida para a ocorrência do chamado new boom da geração 90, como quer Nelson de Oliveira. Porém, ocorre que aqueles nomes consagrados, afora um outro falecido, como José J. Veiga com João Antônio, permanecem entre nós produzindo, tais como Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Hélio Pólvora. Disto se pode concluir quão desinteressante seria a produção de uma geração, como a geração 90, se tivesse dissolvido inteiramente as lições dos mestres do boom dos 70. Contudo, o que aconteceu foi uma tomada de caminho que o país parece ser a responsável pela existência da diferenciação tomada que existe no no fato de não ter havido está exatamente uma influência, mas apenas admiração e respeito do cotistas de agora pelos que publicam desde 70. Daí se poder rotulados neste momento com os números de uma outra geração, a de 90; do contrário, nada de novo estariam produzindo. Estariam, assim, conformados com a continuação, quando não com a cópia de um Roberto Drummond, por exemplo.

A geração 90 tem a liberdade nas telas de seus computadores e um compromisso com seu tempo. Outra particularidade que fica evidente na leitura do livro tem referência na elitização do gênero. O conto é escrito invariavelmente por jornalistas, publicitários, professores, enfim, por escritores que trabalham com a palavra na luta do dia-a-dia. O conto assim elitizado, ainda que use termos chulos, tem outra intenção que não a de chocar, mesmo porque nada mais choca e há uma incorporação total da linguagem cotidiana sem os preconceitos dos anos 70.

O único baiano que figura na antologia é o escritor Carlos Ribeiro, jornalista do Caderno 2 de A TARDE, autor de romances e livros de contos, como O Visitante Noturno, editado pela Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia, disponível, portanto, nas bibliotecas. Ganhador do concurso de contos da Academia de Letras da Bahia, em 1988, Carlos Ribeiro está no livro Geração 90 com o conto Imagens Urbanas, que parte de um hábito dos contistas: tecer histórias para os transeuntes que eles observam de suas moradas – este fato lembra o contista norte-americano O. Henry, sentado em frente de sua janela em Nova Iorque, criando conflitos para os passantes para colocá-los nos contos nova-iorquinos que o popularizaram. Carlos Ribeiro inova, estende sua observação a vários tipos num mesmo conto e acompanha-os para além de seu olhar imediato, construindo junto às angústias de cada um uma angústia maior, a do peso da cidade e seus desencontros: “A cidade pesa no seu espírito”, diz o contista no final. O leitor termina o conto e vai olhar pela janela. E vai pensar.

Montados na fixação pelo cotidiano, encontramos narrativas como Os Laços e os Nós, os Brancos e os Azuis, de Cíntia Moscovitch; O Ataque, de Luiz Ruffato; Céu Negro, de Rubens Figueiredo, autor do ótimo romance A Festa do Milênio; os contos curtos de Marçal Aquino, principalmente Carta, e o brilhante A Primeira Semana Depois do Fim, de Mauro Pinheiro. Ainda para ressaltar: o erótico A Mulher de Trinta e Oito (ou a alma em forma de bife), de Marcelo Mirisola, e o instante de O Maiô de Freira, de Cadão Volpato. O conto dos 90 mostra a dinâmica do gênero e mostra que o contista brasileiro não sentiu o boom dos anos 70 com um freio que poderia ter imobilizado os escritores futuros após o fenômeno. Está certo Nelson de Oliveira: o que se deu foi realmente um new boom independente do boom dos 70.

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