Fantástico Absoluto

HÉLIO PÓLVORA*

Livro: O Itinerário do Conto (Ilhéus: Editus)
O autor desta coletânea de contos não é um estreante, tampouco veterano nas letras. Venceu em 1988 o concurso de contos da Academia de Letras da Bahia e, dos três livros publicados antes deste, O chamado da noite merece destaque.

Nota-se, de fato, o toque de conhecedor, na maneira como arma as situações, na preocupação de adquirir voz própria, no afã de alcançar expressão criativa. Mas, sobretudo, no tom, na escolha do timbre. Carlos Ribeiro pratica um ficcionismo assemelhado ao do contista inglês W. W. Jacobs, autor de uma história famosa, “A Mão do Macaco”. A propósito dessa comparação, há aqui, em O visitante noturno, um conto intitulado “O Gorila” e um outro intitulado “A Mão”, ambos com algumas pinceladas de terror.

Outra referência, já que estamos a convocar nomes para tentar definir a ficção de Carlos Ribeiro, seria Jorge Luís Borges. É que o jovem contista baiano aprecia as urdiduras em forma de labirinto – aquelas urdiduras intrincadas bem ao gosto de Borges. Os relatos de O Visitante Noturno desprendem-se da realidade imediata, quando já não brotam suspensos, já na esfera do supra-real. Quase todos os contos aqui enfeixados podem ser inseridos na linha do fantástico – um fantástico absoluto, puro. Referimo-nos a uma super-realidade que finca raízes no real tal como o conhecemos pelos nossos grosseiros sentidos.

Falamos em possíveis “influências”, mas talvez nem existam. Talvez sejam apenas pontos de vista parecidos, resultantes de leituras, caráter, formação. Talvez Carlos Ribeiro se tenha inclinado, por temperamento, para uma determinada vertente ficcional. E então, caçador que é de singularidades, se pôs a cavar no veio do fantástico.

Seus contos são breves e se desenvolvem na busca de significados. Há sempre um ponto de chegada, ou pelo menos uma conclusão a tirar-se. “O Encontro”, “A Última Aventura de Richard Burton”, “As Vozes no Corredor”, “O Gorila”, “O Alce” e alguns outros são representativos da sua técnica de imaginar e narrar. Com um bom sentido dos limites da história curta, ele os realiza como quem escreve um sketch. Seus contos aparecem revestidos de uma aura de dramaticidade, densos, às vezes ferozes – e vale dizer que, após a leitura, o encanto prossegue, sinal de que o contista feriu a tecla certa.

Carlos Ribeiro vem queimando etapas, respondendo, ao lado de outros integrantes da geração dos anos 80, pela renovação da short story baiana.

*Hélio Pólvora é ficcionista, crítico literário, ensaísta e membro da Academia de Letras da Bahia.

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