Entrevista sobre jornalismo na Bahia

“O ENSINO PRIVADO É MANIPULADO
POR EMPRESÁRIOS INESCRUPULOSOS”

Como está o mercado de trabalho para jornalistas, hoje?

As informações sobre o mercado de trabalho para jornalistas, na Bahia, são ainda bastante escassas. Uma pesquisa sobre o perfil do jornalismo baiano, coordenada por mim e que conta com a participação dos meus ex-alunos, Fábio Abreu, Ingrid Dragone e Cinara Marback, deverá trazer informações mais concretas sobre isto, mas os dados ainda estão para ser avaliados e divulgados. Pode-se dizer, no entanto, que, se já havia um percentual de desistência, há vinte e quatro anos, quando me formei, atualmente o número de profissionais que não serão absorvidos pelo mercado é, sem dúvida, muito maior.

Um grande percentual dos alunos formados pelas faculdades de jornalismo hoje existentes no estado não continuará na profissão. O que não é propriamente uma novidade: em todas as profissões, há sempre um percentual de desistência. O problema é que o número de faculdades de jornalismo aumentou muito nos últimos anos e a oferta de trabalho, na grande imprensa, continua praticamente a mesma, ou menor, considerando-se o enxugamento que tem havido nas redações. Mas existe uma oferta de empregos maior em outros segmentos, como os das assessorias de imprensa e, inclusive, numa área ainda incipiente que é a das Ongs e também a da comunicação digital, que vem crescendo e promete muito.

Acredito que quem tiver vocação, talento e persistência certamente conseguirá o seu espaço, seja num jornal diário, seja numa emissora de TV, seja numa assessoria de imprensa ou abrindo sua própria empresa de comunicação.

O que você acha das novas faculdades particulares? Acredita realmente no potencial disponibilizado por essas instituições?

Acredito no potencial técnico e material, mas tenho grandes dúvidas do ponto de vista pedagógico, num sentido mais amplo, de incentivo à visão crítica e à liberdade do pensamento, que são cultivados num ambiente acadêmico arejado e comprometido com a coletividade. Devemos lembrar, nesse sentido, a advertência do professor Milton Santos, para quem a aproximação das empresas com a universidade “é a coisa mais perversa que existe”, é “a morte do pensamento”. Isto porque a universidade pública é o último segmento de resistência ao domínio do Mercado.

Existem faculdades particulares sérias e eficientes, mas há, nelas, uma distorção básica, que é o comprometimento prioritário com o lucro, deixando o ensino em segundo plano. Isto ocorre aqui, em Salvador, onde se verificam algumas experiências desastrosas, em vários níveis, inclusive no desrespeito a direitos trabalhistas elementares dos professores e funcionários, e, conseqüentemente, dos alunos. Se uma instituição de ensino não respeita o seu corpo docente, o que se pode esperar dela? Um exemplo gritante disto é o empenho dessas faculdades para que seus cursos possam ser reconhecidos pelo MEC. No entanto, quando o curso é reconhecido, desmontam toda a estrutura que foi construída, a duras penas, demitindo os professores mestres e doutores e colocando muitas vezes professores iniciantes e/ou despreparados no lugar daqueles. Não dá para entender como o MEC não prevê uma pena severa para esses casos.

O fato é que o ensino privado está bastante suscetível hoje à ação de pessoas inescrupulosas, que dirigem faculdades como se tratassem de fábricas de sabonete, na melhor das hipóteses. E os governos, o que fazem? Muito pouco! O que configura cumplicidade ou omissão. O envolvimento de educadores do MEC com muitas instituições da iniciativa privada nos fazem pensar no alerta feito pelo professor Milton Santos – o que é grande motivo de preocupação. Mas, vale dizer, por outro lado, que há, nessas instituições, professores, coordenadores de cursos e mesmo diretores competentes e responsáveis, mas que são impotentes nas decisões em nível macro. Graças ao empenho de um ou outro diretor esclarecido, dos professores e de um bom investimento em termos de equipamentos, muito maior, às vezes, do que nas universidades públicas, há a possibilidade de o aluno, se quiser e se esforçar, conseguir uma boa formação profissional. Temos vários exemplos de ex-alunos da FTC que já estão atuando no mercado de trabalho, com talento, reconhecimento e prestígio.


No momento em que o jornalista for passar por uma seleção para um emprego, a instituição de ensino em que foi obtida sua formação superior é avaliada? De que maneira?

Não existe uma avaliação, mas sim uma exigência de que o curso seja reconhecido pelo MEC. Ou seja, de que o diploma expedido por ela tenha validade legal. E há também o prestígio da instituição, o peso da sua tradição. Uma universidade pública federal, como a Ufba, por exemplo, tem uma força maior que sem dúvida alguma pesa muito mais no currículo do que muitas dessas faculdades particulares que se multiplicam por aqui, de forma indiscriminada. Inclusive porque a seleção para entrar numa instituição como aquela é mais rigorosa, além da exigência ser maior para cursá-la. Mas vale ressaltar que a queda do nível cultural dos alunos, em toda parte é, hoje, um fenômeno generalizado.

Qual o obstáculo mais difícil para uma pessoa que vai ingressar na profissão?

É não levá-la a sério. Ou seja, não preparar-se devidamente para ela, estudando, praticando, desenvolvendo uma base cultural mais sólida, assumindo a vocação. Ou, pior, se a pessoa não tiver a vocação, se escolheu o ofício apenas porque não achou outro melhor ou porque acha bonito ser repórter de TV, por exemplo. É grande o número de jovens que chegam às faculdades de jornalismo querendo ser um William Bonner e uma Fátima Bernardes, às vezes sem ter uma noção elementar do que é a profissão. O glamour da profissão é um canto de sereia. Existem as dificuldades objetivas, do mercado de trabalho, mas se a pessoa estudar e trabalhar seriamente, com certeza poderá realizar-se na profissão.

Que fatores acrescentam “bagagem” ao jornalista?

A prática profissional, sobretudo. Saber inglês hoje é importante em qualquer área. Afinal de contas vivemos no tal mundo globalizado. É sempre bom participar de cursos, seminários e congressos que possibilitem uma atualização. Acho importante também que se faça uma pós-graduação (mestrado e doutorado), pois a vida acadêmica é um segmento muito importante. No meu caso, por exemplo, o mestrado em Letras me ajudou no sentido de me referenciar como especialista na área de Literatura. E não tenham dúvidas de que aprendo muito, também, com vocês, alunos. Ensinar é uma forma de nos atualizarmos constantemente.

Em que áreas um jornalista pode atuar depois de formado, além de empresas jornalísticas e assessorias de imprensa?

Existe um mercado em expansão que é o das Organizações Não Governamentais, que vem empregando jornalistas. Temos alguns exemplos aqui em Salvador, como a Rede Cipó, que tem contratado profissionais jovens, recém-saídos das faculdades. A comunicação empresarial é outro filão que vem se desenvolvendo gradualmente. Em alguns casos, o trabalho do jornalista tem se aproximado bastante de outras áreas, a exemplo do marketing e das relações públicas. E há o jornalismo digital, bastante promissor.

Vale lembrar que a profissão envolve diversas funções, além das mais conhecidas, de repórter, editor, copidesque e chefe de reportagem. Dentro da redação de um jornal, o jornalista pode ser revisor, pauteiro, subeditor, fotógrafo, cartunista, diagramador, editorialista etc. Em TV e rádio, pode ser repórter, cinegrafista, pauteiro, produtor, locutor. Como repórter pode atuar de forma independente, como free-lance ou em organizações menores, a exemplo de jornais de bairro, Ongs, assessorias de imprensa. Pode também se especializar numa determinada área, escrevendo artigos, crônicas e ensaios para jornais e revistas. Para isto, aliás, não precisa necessariamente passar por uma faculdade de jornalismo.

Um profissional de jornalismo, no exercício de sua função, pode atuar em várias editorias dentro de uma redação? Ou ele precisa escolher e se fixar numa só área?

Geralmente ele atua numa editoria, podendo passar sucessivamente para outras. Antigamente (acho que isto mudou um pouco hoje), o jornalista começava a atuar, como “foca”, quase sempre na editoria de polícia, passando depois para a Geral, até chegar a segmentos mais especializados, como os de política, cultura e economia. Mas, mesmo que ele atue numa editoria específica, nada impede que ele faça matérias para outras editorias, se necessário. Alguns jornais, atualmente, colocam o repórter (de texto e de fotografia) para atuar em sistema de rodízio dentro das redações.


Por que a faculdade não incentiva os alunos a fazerem estágio em jornalismo? Desde que comecei a estagiar me deparei com o preconceito de alguns professores que me diziam: “Você trabalha como repórter? Como, se você não é formado?”

A faculdade não pode fazer isto pelo simples fato de que o estágio em jornalismo é ilegal. Refiro-me ao estágio não supervisionado, não direcionado para o aperfeiçoamento profissional do aluno. É, inclusive, uma prática que vem sendo denunciada e combatida (fracamente, diga-se de passagem) pelo Sindicato dos Jornalistas, considerando-se que, apesar de ilegal, vem sendo praticada por muitas empresas. Em alguns casos, como os de algumas emissoras de rádio, contratando os estagiários como radialistas.

Muitas instituições também utilizam o trabalho de pessoas não formadas nas áreas de assessoria de imprensa, mas sempre utilizando algum subterfúgio que as livrem de um processo pelo sindicato. A questão é complexa: se, por um lado, é interessante ao estudante estagiar, como forma de aprender a profissão na prática e também de conseguir algum dinheiro que possibilite, inclusive, um reforço no pagamento dos seus estudos, por outro prejudica bastante a profissão, na medida em que muitos empresários preferem “contratar” os serviços de estagiários, pagando muito abaixo do piso salarial de um profissional. E, quando o aluno se forma, ele simplesmente o demite para contratar outro estagiário – o que prejudica ainda mais o mercado de trabalho já tão problemático.

O Sinjorba (Sindicato dos Jornalistas da Bahia) e algumas faculdades, segundo ouvi, estão estudando a possibilidade de estágio não remunerado, orientado pelos professores, a partir do 5º semestre. Estágio este que possibilite o aprendizado prático dos estudantes no mercado de trabalho, sem submetê-lo à exploração de patrões inescrupulosos. Enquanto isto, o único recurso legal permitido às escolas é a utilização do jornal.


A Bahia tem espaço para o jornalismo investigativo?

Sem dúvida que sim. O que falta é interesse dos jornais de investir nessa área. O jornalismo investigativo custa caro, porque exige manter um ou mais profissionais durante vários dias, semanas ou até meses numa mesma pauta. E “custa caro”, também, na medida em que, muitas vezes, pode ir mais a fundo nas causas dos acontecimentos do que interessa aos donos dos jornais.

A princípio, toda a atividade jornalística é investigativa, já que implica no levantamento de dados e informações. Mas, com o tempo, o conceito de “investigação” passou a ser associado a denúncias de fatos e acontecimentos irregulares (escândalos políticos, por exemplo) ou mesmo a crimes. Atividades, portanto, que exigem um grau maior de coragem e persistência dos repórteres. Mas, de uma forma geral, a atuação desse tipo de profissional é muito escassa e precária aqui em Salvador, embora o campo seja enorme.

Na verdade, é muito grande a quantidade de informações (às vezes escabrosas) que circulam nas redações, em relação ao que se veicula nos jornais. O jornalista sempre sabe mais do que publica. Mas a quem interessa, de fato, cavar essas informações? E com que respaldo, já que os donos dos meios de comunicação têm um comportamento ambíguo, quando não declaradamente comprometido com os poderosos de plantão e sua rede de relações na sociedade? Poucos têm coragem de “ir ao fundo da lagoa, onde está o jacaré”.


Qual a sua formação? Você acha necessário o diploma para o exercício da profissão jornalística?

Sou graduado em Comunicação com Habilitação em Jornalismo, pela Ufba (1977-1982) e pós-graduado em teoria da literatura pelo Instituto de Letras, também da Ufba. Fiz o mestrado e atualmente estou fazendo doutorado sobre o mesmo tema: a obra do cronista Rubem Braga. Quanto ao diploma, não acho que ele seja necessário para o bom exercício da profissão, mas creio que a sua não-exigência, nas atuais circunstâncias, poderia ter alguns resultados negativos: primeiro, saturando ainda mais o mercado. Imagine se, além do grande número de profissionais que serão formados, nos próximos anos, pelas faculdades, se somar toda e qualquer pessoa que se ache apta a ser jornalista? Segundo, por possibilitar aos donos das empresas reduzirem ainda mais os salários, tendo em vista a grande oferta de mão de obra. E em terceiro, enfraquecendo ainda mais a qualidade dos profissionais, que não terão o suporte dado pelas faculdades (refiro-me aqui às boas faculdades), tanto em termos da técnica quanto da ética jornalística. Claro que, a rigor, não são as faculdades de jornalismo que fazem um bom profissional, como se pode ver através dos inúmeros exemplos de grandes jornalistas que nunca passaram por uma faculdade. Mas, acho que vivemos hoje um momento diferente de há 30, 40 anos, um novo contexto que exige, diante da grande concorrência do mercado, uma melhor qualificação.

Carlos, como foi o seu primeiro emprego na área? Você já estava formado? Se sentia preparado?

Eu nunca me senti preparado para fazer nada. Todo trabalho é um desafio novo e a resposta só vem mesmo quando o concluímos. Não me sentir preparado é uma forma de me manter alerta, de me aprimorar continuamente, de estar sempre me preparando. Meu primeiro emprego foi no Departamento de Literatura da Fundação Cultural da Bahia, quando eu era ainda estudante, mas antes disso – logo na primeira semana em que comecei a freqüentar a Faculdade de Jornalismo da Ufba –, estagiei como repórter de polícia na Rádio Sociedade e como repórter de Geral no Jornal da Bahia. Como era de se esperar, fui péssimo em ambos os trabalhos, pois não sabia escrever sequer um lide, mas senti o gostinho da profissão, de bater pernas pela cidade, de acompanhar de perto a vida de seus habitantes. A experiência, embora infrutífera do ponto de vista do aprendizado da profissão, foi valiosa como experiência humana – e como uma prévia do que me esperava. Depois, já quando estava perto de me formar, aceitei o desafio de fazer uma grande reportagem para a Revista Geográfica Universal sobre o artesanato do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Passei um mês viajando com o fotógrafo Luiz Cláudio Marigo e, depois de muitas dificuldades e muito sofrimento, consegui fazer uma matéria que, mais tarde, viria a servir como referência principal para um texto escrito para uma publicação por Fernando Sabino, que a elogiou bastante.


Que conselho você dá aos estudantes que pretendem trabalhar com meio ambiente ?

Ler bastante e começar a praticar, procurando entender e dominar uma linguagem que é especializada, sobretudo se você for fazer um trabalho de divulgação científica. Assim, aos poucos você forma um nome, tornando-se uma referência numa determinada área. É importante também ter bons contatos com periódicos especializados. No meu caso, o que ajudou bastante foi a minha amizade com o fotógrafo de natureza Luiz Claudio Marigo, que já fazia matérias para a Revista Geográfica. Foi através dele que tive acesso à publicação. O importante é perceber qual a sua tendência, qual a área que mais lhe atrai e, pouco a pouco, ir conquistando seu espaço nela.


Qual foi a experiência jornalística mais marcante que você vivenciou durante o período em que foi correspondente da Revista Geográfica Universal ?

Eu não fui correspondente da Geográfica, mas sim um repórter free lance que publicava de vez em quando na revista. Fiz matérias sobre regiões naturais, a exemplo dos parques nacionais das Emas, em Goiás, e da Chapada Diamantina, na Bahia; do Parque Natural do Caraça, em Minas, e da Estação Ecológica do Mamirauá, no Alto Amazonas. E, também, sobre o artesanato do Ceará e do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas. Mas, sem dúvida alguma, a experiência mais marcante foi mesmo a minha participação na expedição à Antártida, em 1986. Permaneci dois meses no Continente Gelado, acompanhando e divulgando o trabalho dos cientistas (ocenógrafos, geólogos, metereologistas e ornitólogos) e dos militares, na Estação Científica Engenheiro Wiltgen e num refúgio, na Península Antártica, além do navio Barão de Teffé, onde fiquei a maior parte do tempo. Foi muito interessante, também, as visitas às estações científicas da Rússia, China, Chile, Polônia e Estados Unidos.

Naquela época os recursos tecnológicos eram muito precários se comparados ao mundo tecno-digital de hoje. Como você fazia para enviar as matérias já que muitas vezes estava trabalhando em expedições ecológicas?

Geralmente eu as escrevia em casa, na minha pequena máquina de escrever, quando voltava das viagens. Só na Antártida foi que as enviei através do telex, que é um sistema hoje obsoleto diante das facilidades do computador e da internet. Tive que tomar um curso para saber utilizar o equipamento e era muito trabalhoso, porque eu tinha que… Mas, tinha o que mesmo? Sabe que nem lembro mais! A experiência parece fazer parte da pré-história da profissão – e pensar que faz apenas 20 anos que ocorreu!

Você já se referiu algumas vezes ao jornalismo sem muito incentivo, ao dizer que o trabalho é grande e o retorno financeiro não é satisfatório. A sua permanência na profissão seria por prazer do trabalho, por conformismo ou você não se encaixa no que diz?

Eu permaneço na profissão porque é esta a minha vocação, porque é isto o que eu sei fazer melhor e porque foi a isto que dediquei grande parte da minha vida. Gosto de escrever, sim, mas não necessariamente o que um editor me manda escrever e na hora que ele quer que eu escreva. Se fosse me dada a oportunidade de escolher, adoraria escrever romances e contos de aventura – de preferência encomendados, a peso de ouro, por grandes editoras nacionais e internacionais, numa varanda espaçosa de uma casa de praia, de frente para o mar, apreciando as baleias passarem no horizonte. [rs] Ainda não posso fazer isto, mas não me queixo, pois foi esta mesma profissão que me possibilitou percorrer – realizando reportagens para algumas revistas especializadas em natureza e divulgação científica, no Brasil e no exterior – algumas das mais belas paisagens naturais, a exemplo dos parques nacionais e reservas ecológicas de Abrolhos, Emas, Lençóis Maranhenses, Aparados da Serra, Chapada Damantina, Aiuaba, Caraça, Monte Pascoal, Mamirauá (Amazonas) e Antártida, onde meus olhos viram cenas testemunhadas por muito poucas pessoas. O jornalismo me possibilitou – e espero que ainda me possibilite – experiências valiosas que geralmente não são proporcionadas por outras profissões, de forma que não tenho do que me queixar.

Não concordo, entretanto, quando você diz que já me referi ao jornalismo “sem muito incentivo”. Mostrar a realidade da profissão para o aluno não é fazer com que ele perca o incentivo. O objetivo é o de abrir-lhe os olhos para que ele não seja pego desprevenido ou enganado por uma visão idealista e glamourosa da profissão, o que poderia lhe causar uma grande decepção mais tarde. Daí a insistência com que falo da importância de fazer uma pós-graduação para que ele possa complementar seu salário ensinando numa faculdade, como estou fazendo. O que é uma prova de que também me encaixo (esta palavra me faz sentir um tanto apertado) no que digo.


Mudando totalmente o foco… Gostaria de saber sua opinião sobre a questão da objetividade no jornalismo. Você acha que a chamada objetividade jornalística é um mito?

Pode-se dizer que é um mito, mas tendo em vista que existem, sim, abordagens mais ou menos objetivas. O que acontece é que muitas vezes se confunde a objetividade com o empobrecimento da linguagem, quando esta se desvencilha de seus recursos metafóricos. É uma besteira dizer, por exemplo, que uma mera notícia, construída com uma linguagem exclusivamente referencial, é necessariamente mais “objetiva” que um texto cujos recursos poéticos acrescentem o ponto de vista e a subjetividade do autor. Eu abordo essa questão no meu livro sobre Rubem Braga. Transcrevo, inclusive, trechos de reportagens dele, na Itália, durante a II Guerra Mundial, nos quais recursos poéticos tornam os textos, a meu ver, muito mais objetivos dos que os de uma mera descrição referencial. Mas trata-se de assunto complexo e dos mais importantes para compreendermos a questão da linguagem.

Não vejo encanto e acho que não tenho talento nem paciência para me dedicar ao jornalismo dos fatos diários, que corre atrás de notícias e produz matérias em série. Gostaria, portanto, de fazer algumas perguntas: que outras opções existem para mim e no que devo investir para ter acesso a elas? Quais as formas e as chances de integrar redações de revistas mensais? As revistas que não são essencialmente jornalísticas são escritas por jornalistas?

Não vejo muitas opções nesse sentido em Salvador. Que eu saiba, não existe nenhuma publicação desse gênero que, além de publicar textos especializados – por exemplo, nas áreas das artes, da literatura, da moda, do turismo, de economia ou de variedades –, pague bem por eles. Daí a necessidade de cavar espaços fora, em outros estados, o que é difícil, mas não é impossível, principalmente para quem tem um bom texto. Eu, de certa forma, passei por essa mesma dificuldade até descobrir que, ao contrário do que eu pensava, tinha algum talento também para o jornalismo diário – e que me dava prazer fazê-lo. Incrível, mas vim descobrir isto após 17 anos de profissão! Antes eu só publicava reportagens especiais, geralmente pautadas por mim mesmo (o que não deixa de ser uma opção para quem não goste da ralação do dia-a-dia).

No meu caso, tive o privilégio de publicar em revistas nacionais, como a Revista Geográfica Universal, Horizonte Geográfico e Ciência Hoje, e internacionais, como a Geomundo (EUA) e BBC Wildlife (Inglaterra), mas eram sempre publicações esporádicas, como free lance, e mal remuneradas, o que não me dava a mínima condição de viver disso. Mas vale lembrar que essa minha experiência ocorreu na era pré-internet, quando os contatos eram muito mais difíceis. O que recomendo é que você, em primeiro lugar, identifique qual a área que você gostará de atuar, pesquise as publicações especializadas nela, e entre em contato com os editores, propondo colaborações. É importante que, pouco a pouco, você associe o seu nome, como referência, a um determinado tema, de forma que as pessoas se lembrem de você quando quiserem um trabalho naquela área. A qualidade do seu trabalho fará o resto. E ainda há a possibilidade de você mesma criar sua publicação, que pode começar com um site ou um blog até tornar-se um veículo impresso.

Quanto à última pergunta, o que geralmente se exige é que toda publicação tenha um jornalista responsável, inclusive com o registro do DRT. Mas, quanto aos colaboradores, não há propriamente uma exigência de que sejam jornalistas. Por exemplo, um médico pode escrever artigos sobre medicina numa publicação especializada, o mesmo podendo acontecer nas áreas de direito, economia, literatura etc.

Com a má remuneração e com a desvalorização do trabalho jornalístico ainda dá para existir ética profissional nesse setor da comunicação social?

Não existe justificativa para a falta de ética. Mesmo porque a falta de ética, no sentido da disputa e da concorrência mais selvagens, ocorre em segmentos e categorias muito bem remuneradas. Se fosse assim, todo pobre seria antiético e os ricos éticos. Mas não há dúvida de que uma remuneração digna e a valorização da profissão, aliadas a princípios e valores morais sólidos contribuem para um ambiente profissional mais saudável. Mas o ponto principal da equação são esses valores – e não a remuneração propriamente dita.

O que considero fundamental é que comecemos a recuperar alguns valores que a nossa sociedade utilitária e mercantilista procura minimizar ou envolver numa rede de falsas verdades e meias verdades. E os próprios críticos dessa sociedade de consumo também contribuíram nesse processo, como se diz, “jogando a água suja da bacia fora com criança dentro”. Nos últimos trinta anos, muitos valores importantes foram jogados fora juntamente com suas caricaturas: a autoridade com o autoritarismo; a moral com o moralismo, e por aí vai. O que acho fundamental, hoje, é não somente lutar por uma boa qualidade de vida, mas também por uma cultura que não mais valorize a esperteza e a malandragem. Aquela tal Lei de Gerson, de que “o melhor é levar vantagem em tudo”.


Qual o principal critério a ser utilizado durante a escolha das matérias que podem vir a participar do jornal laboratório Paralelo 12?

O principal critério é sempre a relevância jornalística do fato ou acontecimento. Ou seja: que importância a informação tem para o leitor. No caso específico do Paralelo 12, damos especial relevância aos acontecimentos da cidade de Salvador que não estão sendo explorados pela mídia (jornais diários e TVs). Damos ênfase também ao que acontece de interessante nos bairros periféricos, bem como a iniciativas de grupos, pessoas, organizações etc., que trazem algo de novo. E, no caso de tratar de temas que já são abordados na mídia, procuramos fazê-lo por um ângulo diferente, que lance uma luz em questões que ainda não foram exploradas. Além disso, tratamos de questões que sejam de interesse do público universitário.

Em algum momento você pensou em desistir de ser estudante de jornalismo? Teve dificuldades em achar estágios, empregos ou em permanecer neles? Para a sua colocação profissional foi necessária alguma indicação?

Sim, em vários momentos pensei em desistir. Quando era estudante cheguei a largar a faculdade para viajar, com um amigo, sem destino, pelo interior do norte e nordeste do país. Chegamos até a Ilha de Marajó, no Pará, e retornamos por não termos mais como seguir adiante sem correr um sério risco de vida. Pensei em desistir do curso, em fazer história, psicologia, filosofia, em abrir um bar! E mesmo depois de formado, já veterano no ofício, passei por uma forte crise em relação à profissão, que por sinal já me tinha dado tantas experiências maravilhosas. Finalmente, em 1999, fiz mestrado em Letras, comecei a trabalhar no jornal A Tarde e concluí que serei jornalista até morrer, mesmo que não volte a trabalhar em jornal. Acho que ser jornalista não é apenas exercer uma profissão, mas uma forma de olhar o mundo. Quanto à sua outra pergunta, posso dizer que nunca tive dificuldade para arranjar emprego ou para me manter nele. O que tive foi dificuldade de arranjar um emprego que me desse uma remuneração à altura do que acho que um jornalista merece.


Quando vamos fazer matérias de “cultura”, temos que falar bem de uma banda que é muito ruim. Então, pra que existe jornalista de cultura?!

Não existe, em nenhum jornal, essa obrigatoriedade de se falar bem dessa ou daquela banda. O que pode acontecer é que os repórteres que atuem na área cultural não exerçam uma função mais crítica e promovam qualquer bobagem que apareça pela frente. Isto se dá, muitas vezes, por incompetência; outras, por conveniência, para não perder privilégios. Há muitos problemas desse tipo nas redações, cujos cadernos “B” deixaram de exercer uma função cultural para serem meros divulgadores de grupos e espetáculos, sem qualquer critério crítico ou ético.

Há também duas questões que devem ser ressaltadas: a primeira é que existem poucos repórteres preparados para exercer uma função crítica, o que exige uma grande responsabilidade e uma postura ética rigorosa. Hoje em dia, um jovem, recém-chegado às redações, recebe de mãos beijadas o poder de emitir opiniões decisivas sobre peças, filmes, livros e espetáculos de diversas naturezas, sem que tenha qualquer formação específica na área sobre a qual escreve. A segunda é que muitos confundem a crítica – que deve ser justa e criteriosa, jamais ofensiva ou humilhante – com uma atitude agressiva e covarde de desancar e destruir trabalhos que demandaram muito esforço para serem realizados.

É verdade que muitos jornalistas não querem se indispor com pessoas no meio em que atuam, principalmente numa cidade ainda provinciana, como Salvador, onde as pessoas freqüentam os mesmos lugares, conhecem as mesmas pessoas. Mas, por outro lado, penso que o jornalista deve exercer o poder que tem com muito cuidado, pois, inclusive, muitas vezes, como diz o ditado, o feitiço pode voltar contra o feiticeiro.

A TV Globo tem o hábito de utilizar, em suas matérias investigativas, jornalistas se passando por alguém interessado em usufruir algum negócio fraudulento, além do suporte de câmeras escondidas e tudo o mais, para fazer uma denúncia. Em seu livro [A arte de fazer um jornal diário], Noblat faz severas críticas a esse procedimento, alegando ser antiético. Mas em determinadas circunstâncias, ficaria difícil ou até mesmo impraticável se reunir dados que possam servir como provas, sem usar esses recursos. Cito o exemplo da máfia dos carros recuperados, que veio ao ar no Fantástico e que gerou constrangimento às seguradoras, pois muitas delas estavam envolvidas na fraude. O caso foi parar nos tribunais. A pergunta é: de que maneira um jornalista é profissional: no momento em que ele leva ao conhecimento da sociedade uma prática corrupta de determinado órgão, ou sendo politicamente correto quanto às possibilidades de obter as provas do crime? Não me refiro aos excessos. E ressaltando também que não sou tiete da TV Bobo.

Esta é uma questão bastante polêmica e não existe unanimidade em relação a esses procedimentos. Questionado por mim, numa palestra, sobre a utilização de câmera oculta em reportagens investigativas, o repórter Domingos Meireles, da TV Globo, colocou a seguinte questão: seria realmente ético não revelar um crime que lese dezenas ou centenas de pessoas por não querer usar a câmera oculta, quando não há outro meio de desmascarar os criminosos? Por outro lado, eu questiono: será que cabe mesmo à imprensa fazer um trabalho de investigação que deveria ser feito pela polícia?

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