Entrevista a Carlos Souza

novembro/2008

Como o Sr. na condição de escritor e crítico literário acompanhou a crise na Fundação Casa de Jorge Amado em 2007?

Com a expectativa de que o governo do Estado compreendesse o óbvio: que uma instituição como a FCJA não poderia ficar entregue à própria sorte. Compreendo e louvo a intenção do governo de estimular os órgãos culturais baianos a serem auto-suficientes, mas isto não pode acontecer de uma hora para a outra, com um simples decreto. Devido à sua própria identidade e às características específicas dos mecanismos de financiamento, instituições como a Casa de Jorge Amado e a Academia de Letras da Bahia não dispõem de canais de financiamento que custeiem despesas com funcionários e com a própria manutenção do patrimônio físico, além do fornecimento de água, energia elétrica, telefone etc. Daí a necessidade do Estado dar o apoio, pelo menos até que se encontrem soluções para essas questões.

A FCJA mantém o acervo do nosso mais importante romancista, um legado cultural da maior importância, como bem enfatizou João Ubaldo Ribeiro no seu veemente protesto contra a atitude do governo Wagner. Mas acho que o impasse acenou para uma postura importante: a de que sejam repensados os vínculos paternalistas que ligam instituições culturais ao Estado.

O que o Sr. acha da criação do memorial de Jorge Amado na casa onde ele morou no Rio Vermelho?

Concordo plenamente: a casa onde Jorge Amado e Zélia Gattai viveram parte de suas vidas é, por si só, um patrimônio cultural da maior importância. O memorial é uma conclusão lógica e eu diria, até, óbvia da necessidade de se preservá-lo.

O que representa Jorge Amado para a Bahia?

Jorge Amado foi, não apenas o romancista baiano mais importante do século XX, do ponto de vista do alcance de sua obra, mas um autor que criou, através de suas histórias e personagens, uma representação imaginária da Bahia que se sobrepôs à própria realidade. Sua força criadora se multiplicou e se expandiu para outras áreas: na música, no cinema, nas artes plásticas, na sociologia, na antropologia. A valorização da cultura negra e das classes populares, a ênfase na importância da miscigenação, tudo isto tem um valor muito grande, mesmo que sujeito a uma releitura com base em novos pressupostos. Sua obra, como toda obra, pode ser revista sob novos ângulos, mas seria um erro menosprezá-la ou negá-la.

Como a sociedade baiana pode contribuir para a preservação da memória de Jorge Amado?

Pressionando as autoridades no sentido de preservar e respeitar o seu legado, e, sobretudo, lendo e estudando seus livros.

Como está a literatura baiana depois da morte de Jorge Amado?

A literatura baiana, através de seus escritores mais novos, traz uma representação bastante distinta da Bahia e, principalmente, de Salvador. O ficcionista baiano Antonio Torres expressou isto muito bem, num artigo, quando se referiu a uma Bahia “sem farofa e sem dendê”. Ou seja: uma Bahia destituída de seus aspectos “folclóricos”, no bom e no mau sentido. Uma Bahia bem mais problematizada.

A Bahia tem poetas e ficcionistas de grande importância: alguns com obras já consolidadas, outros em processo de consolidação. Vivemos, hoje, uma realidade muito mais complexa, que exige dos escritores uma reflexão que, talvez, ainda não tenha amadurecido suficientemente. O próprio conceito de “regionalismo”, no mundo globalizado, atravessado por formas complexas, na cultura, na economia, na comunicação, tem que ser repensado e sua expressão artística e literária sofre influências as mais contraditórias.

Quem são os futuros “Jorges Amados” da Bahia?

Do ponto de vista da criação literária, ninguém. Ele era e será sempre único. Do ponto de vista do prestígio e da capacidade de criar todo um imaginário coletivo a partir de suas criações, não vejo ninguém no horizonte, mas certamente virão outros, isto é, se a expressão literária escrita e impressa não sucumbir ao poder crescente do audiovisual. Eu diria que Jorge Amado está para o século XX como Castro Alves esteve para o século XIX. Talvez o Jorge Amado do século XXI seja um cineasta ou um videomaker.

Neste momento, quem são os grandes escritores baianos?

O único grande nome com prestígio nacional e algum prestígio internacional é o João Ubaldo Ribeiro, seguido, na ficção, por Antonio Torres e, na poesia, por Ruy Espinheira Filho. Residindo na Bahia, temos um grande contista que é o Hélio Pólvora. Da minha geração, Aleilton Fonseca vem ganhando prestígio, ainda que num círculo estreito, na França, inclusive com uma seleção dos seus contos traduzidos para o francês pelo Dominique Stoenesco, um importante divulgador da literatura de língua portuguesa naquele país. Mas temos outros importantes poetas e ficcionistas que, a meu ver, estão entre os melhores do País.

A secretaria de Cultura do Estado tem sido injusta com a memória de Jorge Amado? Por quê? 

A importância da obra e da figura de Jorge Amado está ainda longe de ser devidamente valorizada pelo atual governo; talvez, quem sabe, como conseqüência do fato de ter sido bastante valorizada, ao longo de boa parte do século XX, pelo(s) governo(s) de Antonio Carlos Magalhães. O universo jorgeamadiano foi muito utilizado, politicamente, pelo carlismo, mas não só o dele. ACM soube criar vínculos e trazer, para debaixo de suas asas, uma boa fatia dos grandes criadores baianos, de Dorival Caymmi a Gal Costa; de Carlos Bastos a Carybé e Pierre Verger, que se fizeram baianos. Muitas águas rolaram debaixo dessa ponte. Não foi à toa que Gal Costa afirmou, aliás, de forma bastante indigesta, que ACM era o “Pai da Bahia”. Mas penso que devemos saber separar as coisas e não descuidar do valioso patrimônio material e, sobretudo, imaterial do escritor. Mas louvo também a intenção do governo atual de valorizar outros segmentos da cultura baiana, sobretudo na sua vertente popular, autenticamente popular.

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