Em ano em que completaria centenário, Rubem Braga terá lançamentos na Global

Fernanda Faustino

Legado do autor soma mais de 15 mil crônicas
Legado do autor soma mais de 15 mil crônicas
Considerado um dos maiores, se não o maior cronista do país, Rubem Braga, que completaria 100 anos no dia 12 de janeiro de 2013, teve a característica singular de ser o único autor nacional de primeira linha a se tornar exclusivamente célebre através da crônica. Ao todo, foram mais de 15 mil crônicas deixadas ao longo de sua carreira como escritor e jornalista.Este ano, a Global Editora vai lançar três livros em homenagem ao autor. São eles: A poesia é necessária, uma seleção de poesias feita por André Seffrin; Rubem Braga – crônicas para jovens, com seleção de Antonieta Cunha; e Melhores Crônicas de Rubem Braga, selecionadas pelo professor Carlos Ribeiro, da UFRB – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.Para o professor, realizar esta seleção foi uma tarefa desafiadora. Ele conta que partiu do princípio de que nenhuma seleção é definitiva, nem mesmo as que foram feitas pelo próprio cronista. “Não há, evidentemente, a possibilidade de uma escolha ‘objetiva’ das melhores crônicas e isso foi reconhecido por Braga quando, em 1935, ele escreveu o prefácio para a primeira edição de O conde e o passarinho. Seria, portanto, bem pouco razoável ter uma pretensão de objetividade nesse desafio, comenta Ribeiro.Nas próprias palavras de Braga inseridas no prefácio de O conde e o passarinho, ele afirma: “Já escrevi umas duas mil crônicas. É natural, eu vivo disso. Essas aqui não são as melhores; podem dizer que escolhi mal, tanto do ponto de vista literário como do ponto de vista revolucionário”.

Como critério para fazer a seleção do livro Melhores Crônicas de Rubem Braga, Ribeiro optou por um recorte que privilegiasse alguns temas recorrentes do cronista: a condição de exílio oferecida pela cidade moderna; o espaço privado da casa como síntese da vida íntima; o tempo magistralmente retratado em “Receita de casa” e em “A Casa viaja no tempo”, que remete a outro tema bastante representativo da obra de Rubem que é o da infância. “Outro exemplo marcante é o das epifanias, no qual um momento de beleza intensa se apresenta em contraste com o cotidiano mesquinho, cinzento e demasiadamente banal da grande metrópole”, relata Ribeiro.

O professor conta que a principal característica do autor é a simplicidade. “Seu lirismo, tão peculiar, marcado pela forma como utiliza, com extrema maestria, a metáfora e a metonímia, imprime para sempre na nossa sensibilidade inesquecíveis imagens, como as do conde e do passarinho, do pé de milho, do caderninho azul, do par de luvas, do sino de ouro”, relata. De acordo com ele, o maior exemplo disso talvez seja a crônica “O pavão”, cujo luxo, como do grande artista, é “atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos”. Ribeiro explica que Rubem Braga é o pavão de sua minicrônica, cujo “grande mistério” é a simplicidade.

O passo decisivo para estabelecer o gênero de “crônica” como se conhece atualmente, foi dado por João do Rio, por volta de 1900, relata o professor. “Consistiu no fato de ele ter sido o primeiro cronista brasileiro a buscar os assuntos das suas crônicas nas ruas da cidade, neste caso, o Rio de Janeiro”, enfatiza. “Por outro lado, houve, desde então, variações surpreendentes, como a do escritor Campos de Carvalho, alargando de tal forma as fronteiras do gênero que não arriscaria dizer que o conhecemos hoje tal como foi feito por Braga”.

Com a habilidade de um grande escritor, Rubem Braga administrava também a falta de assunto, sendo considerado, inclusive, por outros escritores até melhor quando não sabia sobre o que escrever. Um exemplo disso, para Ribeiro, é a crônica “Os Mortos de Manaus”. “Este é um exemplo marcante, não apenas da falta de assunto, mas da enfática recusa deste por parte do narrador, que nos envolve numa complexa teia de sedução, no jogo enganoso de um sujeito que, na suposta procura de um tema para sua crônica, acha-o, recusa-o e o coloca, habilmente, no centro das nossas preocupações como uma vigorosa peça de denúncia social”, avalia. E conclui: “São as artes mágicas de um mestre da língua portuguesa, de um dos nossos mais importantes escritores”.

Embora tenha se consagrado como grande poeta da prosa, especialmente da crônica, Rubem Braga nunca perdeu de vista a poesia em verso, uma de suas paixões, explica André Seffrin.

O livro A poesia é necessária, de acordo com Seffrin, trata-se de uma antologia da poesia brasileira selecionada por Rubem que criou uma página, em 1953, para a revista Manchete, onde publicou semanalmente dezenas de poetas até 1956. Em 1979, retomou a coluna na Revista Nacional, tabloide que circulava encartado nos Diários associados, onde manteve a página até 1990, ano em que faleceu.

Seffrin explica que ao organizar o livro, optou pelos autores nacionais porque o material é muito vasto. “Este volume é, portanto, uma seleção da seleção de aproximadamente 160 poetas brasileiros, com um poema de cada poeta”, pondera. “Os poetas estrangeiros ficaram para uma segunda etapa, talvez um segundo volume.”

Quando se trata da relevância da obra, o aspecto que mais impressiona para Seffrin é o temperamento realista do escritor que é muito forte e marcou tanto sua literatura quanto sua vida, que caminharam sempre juntas, de maneira indissociável. “Rubem criou um estilo, como é próprio dos escritores geniais, e a crônica brasileira, depois dele, nunca mais foi a mesma. Ele mudou o gênero e com isso formou-se um dos nossos grandes mitos literários, que influencia gerações até hoje”, ressalta.

Uma característica que chama a atenção, segundo Seffrin, é de que o autor, ao fazer a seleção, se apresenta despido de preconceitos, marcado, por exemplo, por uma forte predileção pela forma fixa do soneto. “Rubem divulgou, como veremos, dezenas de sonetos de poetas de várias épocas e tendências”, observa. E aponta que o leitor pode esperar da obra de Rubem Braga um panorama da poesia brasileira desde seus primórdios, começando com Anchieta e Gregório de Matos, passando pelos árcades, românticos, parnasianos, simbolistas, modernistas, até os estreantes da década de 1980. “Este volume destaca-se como um mapa bem vasto e generoso de nossa poesia, composto não apenas pelos poetas mais célebres, mas também por aqueles que a posteridade esqueceu ou ignorou, pelos bissextos, pelos romancistas que cultivaram uma prosa poética”, analisa. “Uma paisagem múltipla e variada de nossa melhor poesia, exposta de maneira arejada, solta, bem ao gosto de Rubem Braga.”

Fonte: Global Editora

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