Dilemas Humanos/Urbanos – Uma análise do livro O Chamado da Noite de Carlos Ribeiro


“Escrever não é apenas derramar palavras no papel,
mas desconstruir e reconstruir, ao mesmo tempo,
a realidade e a nossa maneira de vê-la”.
Carlos Ribeiro


A Literatura consegue revelar através de seu mundo imaginário a descrição, por vezes minuciosa, de diferentes espaços e lugares que são objetos de estudo da Geografia.

Na imaginação somos transportados a lugares inventados cheios de significados, conhecemos personagens que singularizam a cidade descrita de diversas formas pelos escritores. Assim podemos sentir os cheiros da cidade, passear por suas ruas, entender seus dilemas, captar sua cor. Como nos mostra Silvio José Conceição (2005): através das cidades é possível a criação de relações em várias vias [… ] poderia ser a alma de vários outros profissionais: o sociólogo, o geógrafo, o arquiteto, o urbanista, mas é a de um ser que consegue ultrapassar os muros do conhecimento disciplinar e imprimir nas suas cidades as múltiplas possibilidades de percursos dos seus personagens, de suas tramas e ainda do “nosso caminhar”  em seus espaços concebidos. TUAN (1978: 194) completa estas idéias ao afirmar: “ a literatura poder ser geográfica por abordar temas como espaço, lugar, natureza e ambiente, e pode ser uma rica fonte para os estudos geográficos por apresentar o mundo de uma forma diferente da que a ciência apresenta, visto que enquanto o cientista busca clareza e especificidade, o escritor busca a plenitude, o amplo e a perfeição”. Também na visão do próprio autor, Carlos Ribeiro, do livro aqui trabalhado existe uma relação entre a Geografia e a Literatura:

“A mesma que qualquer outro espaço que sirva de cenário para a aventura humana na Terra. Tanto os lendários mares cruzados por Ulisses, como a Dublin percorrida por Stephen Dedalus, servem para o mesmo fim: possibilitar aos personagens revelarem, através de atos, gestos, palavras, a sua condição humana, heróica ou prosaica. Os espaços abertos, os grandes cenários da natureza, servem-se, com mais propriedade, para a aventura épica; a cidade, por sua vez, para o mergulho interior, para a abordagem psicológica tão própria da modernidade, ou desde a modernidade, embora, é claro, o épico e o lírico podem estar presentes em qualquer obra e em qualquer espaço. Mas a convivência dos homens, nas cidades, é mais condicionada a normas e leis que limitam os grandes gestos, a desmedida (hybris) características, por exemplo, dos heróis gregos. Daí a ênfase no homem comum, às vezes oprimido por forças misteriosas e inexplicáveis, como em Kafka, às vezes dissecado, com fina ironia, nas suas contradições e na sua mediocridade, como em Machado de Assis. Acho que o homem comum é o grande herói ou anti-herói do espaço urbano, espaço este que vem sendo representado, cada dia mais, na literatura contemporânea, como uma espécie de labirinto ou armadilha sem saída. E a desmedida ressurge, agora, não em gestos heróicos, mas na violência que devolve, cada dia mais, o homem da civilização para a barbárie. O homem ameno (embora, às vezes, perverso) dos romances de Machado de Assis, ou do excelente O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, dá lugar aos personagens sanguinários de um Rubem Fonseca ou de Paulo Lins, em Cidade de Deus. Embora não se deva generalizar, é evidente a tendência sombria da ficção urbana. Não por acaso, será lançada em breve uma antologia intitulada Contos cruéis, cuja ênfase maior é justamente na questão da violência urbana”.


Dilemas Humanos/ Urbanos –
Uma Análise do livro O Chamado da Noite de Carlos Ribeiro.
“A literatura mais verdadeiramente realista
não é necessariamente a que aborda personagens
de carne e osso
vivendo em mundos concretamente descritos,
mas aquela que fala dos nossos sentimentos
mais íntimos e mais contraditórios”.
Carlos Ribeiro.

O Chamado da Noite se estrutura em cinco capítulos nos quais o escritor percorre um universo de sonhos com seus personagens rodeados de questionamentos e lembranças, retratando a condição dos mesmos na Salvador do século XX. Sobre isso LYNCH (1999:1) defende a idéia de que: cada cidadão tem vastas associações com alguma parte de sua cidade, e a imagem de cada um está impregnada de lembranças e significados. Nas palavras do autor se trata de um romance – ou sei lá como se possa defini-lo – que retrata outro aspecto típico da literatura urbana atual: a do isolamento, do desenraizamento, da despersonalização, da solidão. Sua atmosfera é também sombria, não pela violência, mas pela melancolia.

Em sua narrativa, do livro já referido, o autor fala da modernidade e da solidão do ser humano (p.18):

“… e você sabe que os quartos de motéis são talvez o maior símbolo da modernidade: o espaço no qual estamos sempre em trânsito – desse espelho vazio surgem os automóveis que passam sempre para lugar nenhum. E somos nós que passamos para lugar nenhum”.

E num misto de metáforas e geografias continua a vaguear:

“Mas veja: continuo aqui na varanda de minha casa, e o vento que me sopra no rosto desfaz essas nuvens cinzentas – sempre ele, o vento com suas histórias de reis e magia continua sendo meu único amigo, só ele é capaz de transformar esse mundo decadente em montanhas e vales, em savanas e Campinas onde vagueiam mercadores árabes e príncipes etíopes; onde elefantes correm em manadas sobre vulcões e geleiras; e nas alturas do Himalaia gênios medievais constroem naves que singrarão galáxias, como Simbad, o Marujo singrou um dia em meus sonhos de neve e algodão” (p. 18 e 19).

O autor analisa o espaço da velocidade (automóvel) na cidade:

“Tenho pensado ultimamente que os ônibus desta cidade não são lugares apropriados para mim. Pensei isto pela primeira vez há cerca de uma semana, quando caminhava lentamente para o ponto e de repente senti como se a minha idade pesasse sobre meus ombros. O que me pareceu natural e até louvável – porque afinal de contas não é o automóvel um dos maiores vilões das metrópoles contemporâneas, um tirano que escraviza os homens, roubando-lhe a tranqüilidade para devolver-lhe o quê? Fumaça, barulho e morte! Um deus insidioso com o qual trocamos nossas lentas horas sombreadas do Éden por extensões frias de asfalto e cimento, de marquises e calçadas invadidas, por corpos estendidos nas avenidas e semáforos que lutam diuturnamente com monstros esfumaçantes e rumor frenético selvagem do futuro, então claro que todos deveríamos andas de ônibus ou metrô – e quando vão construir a droga do metrô desta cidade?!” (p. 26).

E prossegue falando dos cidadãos e da condição sócio-econômica de quem utiliza o ônibus:

“[…] aparecem cegos e aleijados pedindo dinheiro. Eles entram no ônibus e soltam o pulmão sem dó nem piedade e é isso que me faz admirá-los, falo daqueles que pedem como quem cobra o que lhes pertence de direito […]” (p.27).

“Penso sempre com uma ponta de curiosidade sobre os lugares de onde vêm diariamente essa multidão de aleijados, camelôs, PMs, pastores, guardadores de carros, menores abandonados, pivetes, ladrões, enfim, toda essa gente que enche as ruas; penso em suas casas, empilhadas sobre os morros e em labirintos de barro e lama, vejo seus filhos, vejo sua imensa carência, vejo tudo isso resumido naquele aleijado” (p. 27 e 28).

A cidade vista do alto é diferente da visão de quem está mergulhado em suas ruas, conhecendo sua história, e RIBEIRO nos faz pensar nestas questões ao escrever:

“Há também a doce perversão de meter-me num velho ônibus que percorre a noite da cidade, e esse prazer intenso de ser a cidade; ser eu mesmo, a massa cinzenta que enche as avenidas, em frenesi, como um gozo de desespero incontido, oh! Burgueses perversamente sadios que olham o mundo do alto das suas janelas fechadas, de sua segurança asséptica e cínica, da sua indiferença que é como uma sentença, eu vos digo que é muito bom estar aqui, também, nessas ruas em que ando com o prazer infindo de nada ser: pernas e um coração que comunga a dor e a beleza do mundo” (p.28).

CONCEIÇÃO (2005) coloca que assim como percorremos, passeamos e habitamos a cidade, ela nos habita e nos passeia. Marcamos e somos marcados no e pelo espaço urbano; nossos desejos e anseios ficam impressos na ruas das nossas vidas e das nossas cidades.

PINHEIRO & SILVA (2004: 25) reforça estas idéias quando dizem que a cidade é um labirinto de caminhos, de veias de espaços rasgadas no espaço, que só a aventura pessoal pode penetrar, e um labirinto de signos que só a inteligência pode decifrar, na busca do seu sentido ou da sua ordem.

Os dilemas humanos e a velocidade das técnicas são observadas pelo autor/personagem (p.46):

“Todos nós somos uma multidão solitária, e é por isso que inventaram esse negócio de televisão, satélites, Internet, porque somos uma imensa multidão solitária de homens e mulheres que quer falar consigo mesma, mas que não consegue sequer ver sua própria face no espelho”.

Num outro momento (p. 55 e 56) o escritor fala da cidade moderna (cheia de problemas) e a de sua infância (território de lembranças saborosas):

“Pego então meu boné e abro a porta da frente e saio para rua e vou andando na tarde calma, olhando os carros que passam lentamente, ou carroças, ou lambretas, ou carruagens, porque no meu texto eu escolho o tempo que quero viver e a rua que quero andar, em que rua preciso andar agora? Não as ruas de hoje cheias de buracos, esgotos e carros pestilentos derramando fumaça no ar. Em nome do meu poder de escritor reconstruo a rua da Itapuã da minha infância que é assim: uma estrada de asfalto, uma linha sinuosa, avenida deserta, cercada por caminhos de barro que se cruzam pontilhados por amendoeiras, coqueiros e cajueiros. No ar um cheiro de mangaba, o som de marulhantes marolas e a imagem de casebres e morros de areia alva. Crianças soltas e malemolentes. Cães e jegues. Vejo-me, criança dos meus dez anos, com minha bicicleta, procurando algo para fazer, porque meu único problema era este:encontrar algo para fazer”.

Aos poucos o personagem se seduz pela cidade, agora palco de sentimentos contraditórios:

“[…] e ainda hoje vou caminhando – não naquelas ruas de barro e areia, mas na noite dessa cidade – procurando algo: uma declaração de carinho?. Talvez. […] Eu vou pensando nisso enquanto as imagens da minha infância se desvanecem diante de meus olhos, e me vejo andando só na noite dessa metrópole. Encho meus olhos com a noite da cidade que são para mim uma declaração de amor: talvez uma declaração falsa? Talvez uma declaração cheia de armadilhas? talvez uma declaração violenta? Talvez uma declaração de perdição?. Talvez tudo isto, sim, mas veja: eu amo a cidade e a noite. Existe uma poesia estranha nessas avenidas cortadas por carros que passam sem nunca irem para lugar nenhum, pois todos são iguais, talvez sejam os mesmos que vêm e voltam infinitamente levando sempre aquelas mesmas pessoas tristes/alegres que sou eu e não sou eu; que és tu. E quem és tu?” (p. 56).

Numa outra fala RIBEIRO (p. 82 e 83) recorda ainda mais seu bairro, Itapuã, comentando as transformações urbanas que este passou tornando-o apoético:

“E ela, a minha bicicleta, era também uma nave espacial e um foguete, no qual eu podia ir pata todos os lugares do universo, mas o universo tinha um nome: Itapuã, e ele me bastava, porque Itapuã é um sentimento e uma lembrança; Itapuã é dona Francisquinha, uma senhora muito bonita e bela, que sabe muitas coisas daquele lugar que eu, que cheguei ali quando o bairro já passava por transformações, quando sua poesia começava a se perder […]”.

Aborda também a forma com que o homem modifica o ambiente urbano de maneira fria e desordenada trazendo transtornos pra a vida na urbe (p. 83):

“… e ela vem se perdendo até hoje, quando nivelamos nossa cidade, cortando seus morros, aplainando suas ruas, mutilando suas árvores, empurrando sua população para a periferia, transformando nossas praias limpas em esgotos a céu aberto, enfim tantas coisas que, naquele tempo eu sequer sonhava imaginar, quando, com minha bicicleta, percorria aquele mundo de sonhos – e devo dizer que os caminhos desertos do Km 17, nos quais eu sentia com tanta intensidade aquele cheiro de mato e onde bebíamos água de coco roubado…” .

Na página 59 uma personagem critica o monumento ao 2 de Julho que para ela  “simbolizava bem a farsa que é a preservação de nossos valores. […] porque na verdade, preservamos nada. Não preservamos sequer as pessoas!”.

E prossegue falando da cidade dividida, da segregação imposta às populações carentes e do esvaziamento do discurso político:

“Existe uma história desta cidade que precisa ser contada: uma história marginal, maldita, esquecida; a história, por exemplo, dessas famílias que dormem nas calçadas, e de muitas outras pessoas que simplesmente desapareceram dos nossos registros e permaneceram esquecidas, em nome do desenvolvimento. Refugos de um mundo arcaico que se encontra à margem do nosso processo de modernização. São pessoas que não têm nome, e que vegetam por aí, com seus destinos entregues às maquinações desses tecnocratazinhos bem falantes e perfumados, e esquecidas inclusive pelos intelectuais desta terra que já viveu dias melhores. Acho que o ânimo dos nossos intelectuais se esvaziou com a queda do muro de Berlim. E os artistas do momento, eu entendo, preferem ficar ao lado das autoridades”.

A cidade é vista sob todas as luzes e condições atmosféricas possíveis (LYNCH, 1999, p. 1), em cima disso RIBEIRO a compara a uma mulher e fala da dificuldade que criamos de conhecer a cidade:

“Acostumei-me a ver as coisas sempre com os olhos de ontem. Mudaram as coisas? Mudou meu olhar? Penso nisto sempre que saio na cidade à noite. Veja por exemplo a avenida Joana Angélica. Ela, claro, não poderia ser mais aquela avenida que tinha para mim a cara de Heloísa, uma mulher que me ocupou muito o pensamento naqueles 79/80, quando, aos 21 anos, me vi com aquele monumento de sensibilidade e erotismo nas mãos sem saber o que fazer…” (p. 65).

“… Mas então, como dizia a Avenida Joana Angélica tinha assim um jeito de diva sedutora que aproveitei tão pouco, com tantos empecilhos que coloquei entre nós, nem sei porque, mas a verdade é que aproveitei pouco, muito pouco aquela dádiva da natureza, e acho que muito desse desencantamento das ruas, praças, becos e pátios de nossa cidade se deve a mim, àquele rapaz que via em tudo um obstáculo, uma dificuldade, que bebia o mel com parcimônia quando o mel pedia que se lambuzasse…” (p. 67).

Não Concluindo…

Assim, os diversos personagens descritos pelo narrador transitam em Salvador revelando seus desejos e frustrações, trazendo idéias a respeito da modernidade e da condição solitária do ser humano. Sobre isso CONCEIÇÃO (2005) nos diz: a literatura, inspirando-se na urbanidade interpreta os dilemas humanos em sua forma, concentra pensamentos, sentimentos e ações vividos no espaço e ainda possibilita-nos a apreensão dos lugares outros, expostos e propostos pela via literária.

É esse o elo que liga a ciência (Geografia) à arte (Literatura): a possibilidade de inventar lugares ou abordar os já criados numa forma poética permitindo ao leitor captar diferentes percepções acerca do real e do imaginário. Pois:

“Os poetas nos salvam. A poesia é a nossa salvação. Ter uma luz brilhando na planura é como voar sobre as alturas dos Andes, porque naquela luz que brilha lá em baixo existe um eu que voa (RIBEIRO, 1997, p. 91)”.

A Geografia e a Literatura tentam captar os diversos sentidos da cidade, sua estrutura, função e linguagem. Trazendo, ambas, para nós um universo de sonhos e imaginações que nos transportam a lugares desconhecidos. E nessa viagem enxergamos o diálogo entre arte e ciência que embora tenha visões distintas se propõem a refletir e representar a vida humana/urbana.

Entrevista com o Escritor Carlos Ribeiro

1. Sua formação;

Sou graduado em jornalismo e mestre em literatura pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente faço doutorado, também pelo Instituto de Letras da UFBA. Como jornalista, dediquei-me durante 15 anos à divulgação científica, na área da ecologia, e à documentação de regiões naturais, a exemplo de parques naturais e reservas ecológicas. Dentre os diversos trabalhos realizados nesta área, participei, em 1986, da IV Expedição Brasileira à Antártida, onde fiquei durante dois meses cobrindo as pesquisas brasileiras no Continente Gelado. Em 1994, fui à Estação Ecológica do Mamirauá, na Amazônia, também divulgar pesquisas realizadas por cientistas de diversos países na região. Publiquei reportagens em diversos periódicos, a exemplo da Revista Geográfica Universal, Horizonte Geográfico, Ciência Hoje, Ecologia & Desenvolvimento, jornal A Tarde, BBC Wildlife (Inglaterra) e Geomundo (EUA). Atuei também na área da Qualidade Total, pelo Programa Qualidade Bahia, da Fieb, e nos últimos anos dediquei-me especialmente à crítica literária, escrevendo reportagens, entrevistas e resenhas de livros para o jornal A Tarde, revista Iararana, que edito juntamente com Aleilton Fonseca e José Inácio Vieira de Melo, jornal Rascunho e outras publicações. Trabalhei também na editoria de cultura do jornal A Tarde, como repórter, e nos três últimos anos atuo, em regime de dedicação exclusiva, como professor de jornalismo da Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC, onde desenvolvo um projeto de pesquisa sobre o jornalismo baiano, e coordeno a implantação de uma editora.

 2. Como começou a escrever? 

Publiquei meu primeiro conto, no início de 1978, no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia, então coordenado pelo jornalista e escritor Adinoel Motta Maia. Em seguida publiquei na revista Aqui Ficção, também coordenada por Adinoel, no início dos anos 80. Antes de escrever ficção, eu já havia preenchido diversos volumes de diários, num estilo que, visto retrospectivamente, já prenunciava o escritor, pelo tratamento literário dos fatos do dia-a-dia. Mas a necessidade de exprimir uma experiência pessoal intensa numa linguagem metafórica ou alegórica se deu a partir de uma vivência, até hoje inexplicável, que tive, no final de 1977, no povoado de Amoreira, na Ilha de Itaparica. Sobre isto, transcrevo o seguinte trecho de um depoimento que dei ao projeto Com a palavra o escritor, em setembro de 1997:

“Até novembro de 1977, entretanto, ainda não me ocorrera a idéia de escrever qualquer coisa além das minhas anotações pessoais. Aconteceu-me passar o feriado de Finados com amigos no povoado de Amoreira, na Ilha de Itaparica, onde tive uma experiência estranha que imagino ter sido provocada por uma droga que colocaram na minha bebida. Resumindo: fiz uma viagem tão forte que ainda no dia seguinte pensei ter encontrado o Nirvana, materializado num pedaço de isopor, ao qual batizei como “Om”, mantra indiano que nos liga à força cósmica, ao Ilimitado, ao Indizível.

Naquele mesmo passeio tomei uma pancada violenta na perna, que me deixou fora do circuito universitário por mais de um mês. Na confluência do Nirvana e da dor, apareceu uma outra novidade, quando tomei conhecimento do Concurso Permanente de Contos, organizado por Adinoel Motta Maia, no saudoso Jornal da Bahia. Com tempo de sobra (graças à cirurgia que tive que fazer na perna), e motivado pelo concurso, resolvi colocar no papel a experiência transcendental que vivi na Ilha”.

3. Livros Publicados;

Três anos depois da minha estréia, no jornal, publiquei meu primeiro livro de contos, Já vai longe o tempo das baleias, pela Coleção dos Novos da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Parte dos contos deste volume retrata aspectos do bairro e antigo povoado de pescadores de Itapuã. Depois, considerando as dificuldades de edição daqueles áridos e remotos anos 80, só voltei a publicar um livro em 1995, na verdade um magro volume de contos e textos poéticos intitulado O homem e o labirinto, lançado pela BDA Bahia. Antes, em 1989, havia ganho o concurso de contos de Academia de Letras da Bahia. Em 1996, eu e Aleilton Fonseca, organizamos a antologia Oitenta – Poesia & Prosa, coletânea comemorativa dos 15 anos da Coleção dos Novos, também lançada pela BDA. Um ano depois, publiquei o romance O chamado da noite, pela Sette Letras, do Rio de Janeiro, e, com Aleilton Fonseca, lancei o primeiro volume da Iararana – revista de arte, crítica e literatura, que já está em sua décima edição. Em 2000, lancei pelo selo As Letras da Bahia, da Secretaria da Cultura, o volume de contos O visitante noturno, e, em 2001, a minha tese de mestrado Caçador de ventos e melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga, pela Editora da Universidade Federal da Bahia – Edufba. Neste mesmo ano participei da antologia Geração 90: manuscritos de computador, organizada por Nelson de Oliveira e lançada pela Boitempo, e, em 2004, lancei o romanceAbismo, pela Geração Editorial. Também no ano passado participei daAntologia de Contos e Crônicas de Autores Baianos Contemporâneos, organizada por José Carlos Barros, e, agora com um artigo sobre os livrosEstorvo e Benjamim, no volume Chico Buarque do Brasil, lançado pela Garamond, em homenagem aos 60 anos do famoso compositor e escritor, organizado por Rinaldo de Fernandes. Ainda este ano sairá uma antologia de contos, também organizada por Rinaldo, pela Geração Editorial.

4. Fale um pouco dos personagens de seu livro O Chamado da Noite, analisado neste trabalho;

Este romance – ou sei lá como se possa defini-lo – retrata outro aspecto típico da literatura urbana atual: a do isolamento, do desenraizamento, da despersonalização, da solidão. Sua atmosfera é também sombria, não pela violência, mas pela melancolia. É um romance lírico que, como bem assinalou a professora Lígia Telles, na orelha, “dá continuidade à tradição ficcional que situa o homem no cotidiano, sozinho em meio à multidão, dela extraindo, ao perambular pelas ruas da cidade, a matéria poético-narrativa, conforme o fizeram Baudelaire e Poe”. Seu espaço é o da memória: não o da memória luminosa que ilumina os acontecimentos vividos, mas da memória que une passado e presente numa mesma região penumbrosa, no qual vagam personagens mais assemelhados a fantasmas do que a pessoas reais, de carne e osso. É um texto lunar, daí a imagem constante da noite, do homem andando na noite, solitário, mergulhado nas lembranças de algo que se perdeu, irremediavelmente. Creio que ele tem muito a ver com a questão do simulacro, da imagem (muitas vezes distorcida) que se sobrepõe ao ser real. Ao contrário da ficção realista, na qual o autor empenha-se em tornar os seus personagens reais, o autor-narrador torna-se, ele mesmo, irreal, uma sombra vagando em meio a sombras até se confundir inteiramente com elas.

5. Você acha que a literatura, por nos permitir conhecer diferentes espaços, se aproxima da Geografia?

A literatura e a geografia são áreas distintas do saber humano, mas, como todas as coisas, não existem de forma estanque. Se sondarmos as imagens que temos em nossas cabeças sobre diversas regiões e culturas do mundo, certamente elas reúnem partes do que vimos, pessoalmente, do que lemos sobre elas, em livros técnico-científicos, e, talvez, sobrepondo-se a tudo isto, as imagens construídas em nossa mente por uma infinidade de livros e filmes e pinturas. Com uma diferença: a imagem gerada por uma obra de arte tem uma carga emocional e afetiva a meu ver diversa da que é gerada pela descrição presente num livro de geografia. Eu sou fascinado por fotografias, desenhos e gráficos que retratam lugares, inclusive de aspectos geológicos da Terra, e isto sempre exerceu uma forte impressão no meu espírito. Mas a obra literária acrescenta a estas imagens a vivência dos personagens que se tornam nossas próprias vivências. Acrescentam uma atmosfera. Veja, por exemplo, as descrições de uma remota ilha da Carolina do Sul, no conto “O escaravelho de ouro”, de Poe. Não sei se elas correspondem ou corresponderam, de fato, às paisagens reais daquela região, mas o efeito estético provocado por essas descrições estão marcadas para sempre na minha sensibilidade. Da mesma forma que as assustadoras paisagens da Romênia, onde vivia o Conde Drácula; ou a estação orbital de Solaris, ou os becos ensolarados e coloridos do Centro Histórico de Salvador, em alguns romances de Jorge Amado, ou as opressivas matas do sul da Bahia nos romances de Adonias Filho. Paris, Londres, Nova Iorque, Viena, Moscou, Buenos Aires, Havana, Berlim, Canudos, Rio de Janeiro e tantas outras cidades estão para sempre “contaminadas” pelo imaginário dos escritores e de nós leitores, de forma que podemos até mesmo questionar se existe uma imagem objetiva, real, desses lugares. Mesmo em obras como as de Simenon, que pesquisava e descrevia nos mínimos detalhes o cenário das suas novelas. Vale lembrar, no entanto, que o conceito de geografia ampliou-se bastante nos últimos anos e ganhou uma dimensão muito mais ampla do que a de uma simples descrição da natureza, povos e culturas. Tornou-se, como em Milton Santos, nosso maior geógrafo, um instrumento crítico e até revolucionário de compreensão da realidade humana. E há questões importantes relacionadas ao pós-colonialismo, às migrações, ao desenraizamento, que estão muito presentes na nossa cultura e, também, na chamada literatura pós-moderna. Há um imbrincamento maior hoje das diversas áreas do saber, de forma que fica cada dia mais difícil criar compartimentos estanques. Portanto, não se pode pensar na superioridade de uma área sobre a outra, mas da singularidade de cada uma destas áreas do saber. E de como elas se complementam.

Referências Bibliográficas

LYNCH, K. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
RIBEIRO, C. O chamado da noite. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997.
Texto especial de Silvio José ConceiçãoCidades italianas ou a complex(c)idade em Italo Calvino;disponível em: www. vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp304.asp, capturado em 07/ 07/2005.
TUAN, Y. F. Literature and geography. Implications for geographical research. In: LEY, David & SAMUELS, Marwyn S. Humanistic geography. Prospects and problems. Chicago: Maaroufa Press, 1978. p. 198.
VISÕES IMAGINÁRIAS DA CIDADE DA BAHIA. DIÁLOGOS ENTRE A GEOGRAFIA E A LITERATURA. Orgs: Délio José Ferraz Pinheiro, Maria Auxiliadora da Silva. Salvador: EDUFBA, UFBA, Instituto de Geociências, 2004.

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