Contos novos e velhas ausências

Falta um pouco de tudo para os contistas brasileiros reunidos no livro Geração 90: Manuscritos de Computador

Regina Dalcastagnè

Especial para o Correio

Depois do chamado boom do conto brasileiro, nos anos 70, o gênero passou uma década e meia exilado das estantes de lançamentos das livrarias. Mas agora, aos poucos, ele vem retomando espaço e, mesmo sem que tenha aparecido algum grande nome, já se pode falar numa nova linhagem de narradores de histórias curtas no Brasil. Isso se torna mais evidente quando se põe, lado a lado, 17 novos contistas, como em Geração 90: Manuscritos de Computador. A antologia, organizada por Nelson de Oliveira — que pediu textos inéditos aos autores escolhidos — pretende reunir o que surgiu de melhor no final do século 20, formando, pela primeira vez, um painel significativo desta geração. E revela tanto a presença de diversos nomes promissores quanto, no cômputo geral, as fragilidades da nova narrativa brasileira.

Salta aos olhos, em primeiro lugar, como a ‘‘nova geração’’ está velha — a maioria passou dos 40 anos, apenas um tem menos de 30. Efeito, talvez, da dificuldade em publicar e furar o bloqueio da crítica, que faz com que a fixação de uma reputação literária ocorra cada vez mais tardiamente. Entre os autores escolhidos, a principal ausência é o próprio organizador. Elegantemente, Nelson de Oliveira deixou a si próprio de fora. No entanto, escritor talentoso e um dos principais destaques da retomada do conto no Brasil, seria presença obrigatória em qualquer coletânea.

O leitor de Geração 90 vai descobrir — ou reencontrar — prosadores com evidente domínio da palavra, como Carlos Ribeiro, Luiz Ruffato, Mauro Pinheiro e Marçal Aquino, para citar apenas alguns. Também pode se perguntar o que fazem nela Marcelo Mirisola, Fernando Bonassi, Pedro Salgueiro ou Cadão Volpato. É o normal em qualquer antologia, um tipo de obra que sempre suscita o desejo de refazer, de remontar, de substituir alguns nomes por outros. Mais do que apontar reparos a este ou aquele autor, porém, o interessante é discutir o retrato que o livro mostra do grupo como um todo.

Referindo-se a nomes do passado, Antonio Candido dizia que nossa literatura ‘‘é pobre e fraca’’. Talvez se possa afirmar o mesmo sobre a produção mais recente, desde que se complemente, como fazia o crítico: ‘‘Mas é ela, não outra, que nos exprime.’’ E, no caso dos novos contistas, é provável que essa expressão se dê mais pelas ausências, por tudo que não está dito, do que por aquilo que se enfileira palavra após palavra.

A primeira ausência a se fazer notar nesses textos é a do Brasil. De um modo geral, e com raras exceções (como Ruffato), os autores optam por esvaziar seus contos de qualquer referência ao país. E não se está falando, aqui, de nomes de cidades, ruas, ou personalidades políticas, mas da vida dos brasileiros, de dramas e alegrias, preconceitos, anseios e culpas que nos fazem ser quem somos hoje, tão diferentes uns dos outros, mas ainda assim compartilhando experiências em nossos nichos sociais. As narrativas, ou a imensa maioria delas, tentam escapar às marcas espaço-temporais, fugindo, quem sabe, do risco de serem consideradas ‘‘datadas’’ — acusação a que muitos contistas dos anos 70, preocupados em denunciar o regime repressivo, tiveram que responder.

Apesar dos contos tratarem basicamente do universo da classe média, eles esquecem de todos os seus apetrechos. Quase não há mídia ali dentro. Ninguém lê jornal, revistas, e muito menos assiste à televisão, quase onipresente na vida dos brasileiros (e sempre distante de sua literatura). As novas tecnologias também estão ausentes: o computador parece não ter sido inventado, o celular tampouco. Ninguém sonha com o carrão do ano, ou com a casa própria (com a exceção, mais uma vez, de Ruffato). Futebol e carnaval, então, nem pensar (são temas que costumam passar longe dos escritores no Brasil).

Da mesma forma, o homossexualismo desaparece, o racismo nem é discutido, a exploração no trabalho não existe. Até mesmo as telenovelas brasileiras se vêem obrigadas a incluir esses problemas vez ou outra em suas tramas, ainda que de forma estereotipada. Daí ser tão estranho o desenraizamento dos novos contistas.

A grande referência estética parece ser a cultura pop internacional e, em especial, o cinema hollywoodiano. São histórias que se passam em hotéis de beira de estrada ou mimetizam o clima de faroeste, com diálogos que lembram os filmes B. De certa maneira, essa desterritorialização expressa muito do Brasil de hoje — da mesma forma como José de Alencar respondia, àqueles que acusavam seus romances de ‘‘afrancesados’’, que afrancesada era a sociedade brasileira. O que faz falta, na maioria dos novos contistas, é um olhar mais crítico, em vez da mera adesão a um conjunto dominante de referências culturais.

Poder-se-ia pensar que a opção, hoje, fosse por um trabalho mais atento à estruturação formal dos textos (o que não impediria uma visão crítica da sociedade; basta ler Osman Lins, por exemplo, para observar isso), mas também não é assim. A unanimidade dos autores da ‘‘geração 90’’ não experimenta. Falta-lhes a ousadia que se espera dos mais jovens, ou dos ‘‘melhores’’ entre eles.

A outra grande ausência da coletânea é tão gritante que o próprio organizador foi levado a se debruçar sobre ela, longamente, na apresentação ao volume. Entre os 17 escritores escolhidos, há uma única mulher, a gaúcha Cíntia Moscovich. Mesmo dentro dos textos, as mulheres estão quase sempre relegadas a papéis secundários. Negros, indígenas, homossexuais e, de maneira mais geral, pobres e trabalhadores estão ainda mais ausentes. Mais uma vez, é o Brasil quem se faz representar aí, excludente e discriminatório. Enquanto mais vozes não forem incorporadas e se fizerem ouvir, a literatura brasileira continuará servindo de sintoma do fosso que, em nosso país, separa a elite do povo.

Fonte: http://www.secom.unb.br/unbcliping/cp010819-01.htm

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