Contos de Sexta-Feira e duas ou três crônicas (Suzana Varjão)

Suzana Varjão

Jornalismo diário é território árido de palavras que tentam (re)criar mundos com sínteses; o mínimo querendo conter o máximo; as representações esquemáticas represando nossas subjetividades. É, enfim, uma usina de violências simbólicas funcionando a pleno vapor – e à qual os espaços reservados às artes e às variedades não escapam.

Foi dentro desse contexto histórico-cultural que o escritor Carlos Ribeiro aceitou o convite para integrar a equipe de um projeto jornalístico que buscava dilatar as frestas do campo rígido da comunicação midiática, para que por elas pudesse esgueirar-se um número maior de letras sem funções utilitárias; histórias sem lead; conversas sem pressa; pensamentos sem ponto final.

Quase uma década depois, releio os contos publicados nas páginas de Fim de Semana do Caderno 2 de A Tarde, que eu então editava. E surpreendo-me com a coerência do conjunto e do discurso que escapa da costura dos fragmentos literários servidos às sextas-feiras aos leitores do jornal: encadeados, os breves enredos deixam entrever uma obra sendo tecida; o leitmotiv de um criador em ação.

Quase todo grande autor possui suas recorrências – de lugar, de tempo, de tema… É como se lançassem âncoras que lhes permitissem pensamentear sem correrem o risco de se perderem pelos labirintos da imaginação. No Carlos Ribeiro de Contos de sexta-feira, algumas das mais evidentes permanências são melancólicos finais de tarde, os anos 60, ruas e casarios da cidade do Salvador.

Porém, os espaços primordiais de suas reflexões são “entrelugares”; zonas limítrofes – e indefinidas – entre os mundos material e espiritual; ficções e realidades; terceiras margens, por onde transitam espantos, silêncios, perdas, saudades, memórias, solidões. Existem também cheiros – muitos cheiros, sabores, cores, luminosidades. E senhas. Mas há, sobretudo, uma marcha nostálgica sobre as faces do homem.

Por essa estrada salpicada de encantamentos, o leitor encontrará rastros de ternura, iniqüidade, sabedoria, brutalidade, pureza, esperteza, loucura… E gretas, fendas abertas entre as frases sem alvoroço do escritor, através das quais é possível acompanhar a construção de suaves engenhosidades e, como voyeures, perscrutar as intimidades literárias de um humanista sem ostentação.

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