Contos de Sexta-Feira e duas ou três crônicas (Gerana Damulakis)

Gerana Damulakis

Era o ano de 2000, o que sugeria um novo tempo, quando a jornalista Suzana Varjão, editora do segundo caderno, criou um espaço para textos literários no Caderno 2/ Fim de Semana do jornal A Tarde de sexta-feira. Foram três anos, nos quais desfilaram nomes do jornalismo e da ficção baianas. Carlos Ribeiro fez parte do grupo e agora traz a reunião dos textos para compor um volume, um livro, que vem livrar aqueles contos da efemeridade do periódico.

Todos os contos são vislumbres, instantâneos, provas da habilidade do escritor em apanhar os pedaços, quase estilhaços, da vida. É pela perspectiva de quem relembra e de quem contempla que ele se permite um olhar acurado e se envolve em nível máximo. Outro dia encontrei um nome próprio para o que Carlos Ribeiro faz com o leitor: ilusionismo. Sim, o ilusionismo, assim como li, é o resultado que o escritor alcança quando está maximamente envolvido com o texto. Aqui, vou precisar destacar um determinado conto para explicar melhor o que acontece com o leitor depois que levanta os olhos de algum texto da reunião que tem em mãos. Por isso, tenho que contar uma história.

Trata-se do conto “Nossa Querida Mãe”. O personagem mora no mesmo prédio no qual mora a sua mãe, apenas em andares diferentes, mas não a visita, sequer lhe diz um alô há meses, culpando a luta pela sobrevivência, a dinâmica da vida etc. Depois, ele começa a refletir que já deveria enviar a mãe para um asilo, vender o apartamento dela, despedir uma velha criada que vive com a mãe. O conto vai deixando o leitor perplexo e a leitora, sendo mãe, vai ficando aterrorizada, chegando a pensar que um dia o filho também poderá agir do mesmo modo. Não foi diferente do que acabei de escrever. Leitores indignados telefonaram para o jornal e uma carta especialmente chamou a atenção de Carlos Ribeiro. Tal carta é motivo da crônica “Resposta a Dona Filomena”, presente nesta coletânea, onde uma explicação se fez necessária para mostrar o quanto o texto lido pela senhora pertence ao reino da ficção.

Por que fiz assim, por que adiantei o conteúdo de um conto, tirando do leitor a perplexidade que descrevi? Não farei isso com os demais contos, todavia eu precisava realmente adiantar o tanto que as narrativas aqui reunidas valorizam o imaginário e o tanto que elas nos lançam (a nós, leitores) para dentro da história, a ponto de sermos tomados pela ilusão. E estou incluída pois que, mesmo experimentada, me peguei em dúvidas, com olhos arregalados, dizendo “aqui é verdade, aqui é mentira”. Mas, saramaguiana, ainda que muitos textos tragam, ou estejam impregnados por fatos vividos, não esqueço a máxima do meu romancista português de cabeceira, rezando que memória é invenção.

Sem dúvida, a memória rege a maioria dos Contos de Sexta-Feira. Há um menino, há um rapaz, depois há um homem. Abrindo o volume está “O Visitante Invisível”: à guisa do gosto pelo detalhe, não posso deixar de lembrar que Carlos Ribeiro tem um livro de contos com o título O Visitante Noturno (Secretaria da Cultura e Turismo, FUNCEB, EGBA – Selo Editorial Letras da Bahia, 2000), questão explicada com certa facilidade, todo escritor tem suas recorrências e este escritor mostra-se quase sempre à espera da materialização de algo que está no ar, qual um visitante, daí sua literatura tender às vezes para a fronteira com o sobrenatural, com o fantástico. Daí que abre o volume um conto que instiga, é uma proposta para um fazer-de-conta e compartilhar com o personagem seu sonho… chega a causar um arrepio: “Escuta. Façamos de conta que você possa tornar-se invisível”. E escuta: leia, porque mais não conto para que não se perca a sensação do arrepio.

“Não é bom construir prisões no passado”, está escrito no texto “Diante do Farol” que, de certa forma, é uma narrativa que pode ter prosseguimento em outros textos se o leitor for atento; de resto, se assim atentar, sentirá em dobro o prazer da leitura, como quem liga os pontinhos para formar uma figura. É isso, é por um viés edificante que o volume deve ser lido. Desde o medo ao aconchego da infância, traça-se uma reta para chegar ao ponto: o das expressões dos sentimentos humanos. Não se deve pensar, entretanto, que vai encontrar um sentimentalismo de impressões apenas; ao contrário, pois isso seria lirismo dos inábeis, lirismo leviano.

A leitura conclui que não há como evitar, a cada sexta-feira – sim, porque quase todos os contos citam a sexta-feira e fica enfatizado que o contado se deu numa sexta-feira – se dá uma visita ao passado, não há como não ouvir os ecos do pretérito, não há como não olhar para outras sextas-feiras. E escrever contos é, ao fim e ao cabo, também uma restauração, uma dada colheita dos fragmentos de uma existência que, não sendo assim plasmada, equivaleria ao nada. Carlos Ribeiro assenta a narração em certa posição, ou melhor, disposição ou ordem, algo previamente movediço, a meia estrada do discernimento, para preservar o que pousou no abismo, livrar da escuridão o que passou e, enfim, resguardar as cenas da cegueira, do entorpecimento, senão do olvido. No extremo, não ceder algo ao esquecimento total causaria uma execrável recordação, os contos em si seriam melosos, caso não fossem capinados por mãos engenhosas e inventivas. Mas não faltam engenho, imaginação e arte, evidentemente.

Não resisto a um rol de percepções após uma leitura. Pois, à maturidade da narrativa já atestada da literatura de Carlos Ribeiro, acrescente-se a clareza da prosa e mais: o ritmo narrativo estável, constante, persistente, próprio da mesma maturidade literária; acrescente-se, ainda, o quantum satis de lirismo para distanciar-se de uma sentimentalidade fatível. Contam também, além da observação arguta, os personagens e suas peripécias e suas emoções. E o cenário, que é a nossa Salvador, contribui muito para a visualização do que se passa. Nos textos estão o Taboão, o Pelourinho, o bairro de Itapuã, ruas com seus devidos nomes, até os cinemas que existiam na “cidade” – lemos e passeamos juntos, enfim.
Convido, vamos dar uma volta.

Ali está o menino do conto “Quarto de infância”, que já aprendeu desde cedo que: “(…) a vida é como um grande menino que brinca com a gente como se fôssemos bolinhas de gude que, às vezes, se perdem, rolando pelos bueiros, despencando pelos canos escuros do subterrâneo e perdendo-se para sempre do nosso olhar”. Logo adiante está o conto inesquecível, “O Grande Irmão”, com o fascínio do personagem por uma figura que lhe aparece ao longo da infância e, mais adiante, “Além da Porteira”, um texto lírico e nostálgico, “quando o sol desce no horizonte e você vê o silêncio aproximar-se com seu inventário de perdas”. Já “Sonho de Menina”, me fez exclamar “ótimo!”, quando encerrei a leitura.

Sei que não devo contar mais aqui, o contista é Carlos Ribeiro. Alguns indicativos apenas para os interessantíssimos contos: “Como num Nevoeiro”, história de um certo desenlace, e “A Prova Final”, história de uma mulher exasperada com a paciência sem limites do homem amado. O texto “Revelação” questiona a comparação, entra por esse caminho até parar nos “olhos de resseca” de determinada Capitu e chamar o “caro leitor”, bem ao modo de Machado de Assis, acabando por lembrar um poema de Poe “numa sexta-feira com cheiro de azeite e gosto de penumbra”- excelente o caminho do conto. Vale salientar no conto “Mão-Inglesa” a ironia diante do excesso de cuidado. E em “Annabel”, a presença de Poe outra vez.

Se foi salientada a ironia, o humor explícito está em “O Síndico do 1.406” para, a seguir, continuar nessa linha com “Naquele Tempo…”, conto delicioso!, quando já começa com a personagem citando uma fala de Ofélia, do Hamlet, simplesmente na fila do caixa eletrônico. Achado um toque à moda de Cortázar em “A Obra Incomeçada”, sabendo-se, contudo, que a leitura é, seguramente, a do conto de Carlos Ribeiro, porque a ponte com o autor de “A Casa Tomada” vem apenas da associação de lembranças literárias; na verdade e inclusive, evidentes são os versos de Poe e de Baudelaire – ressalto que todas as citações estão devidamente creditadas em nota.

Não há como parar, preciso dizer algo ao leitor sobre “O Lagarto”, uma idéia fixa do escritor: conto aparentado com “Imagens Urbanas”, que representa a contística de Carlos Ribeiro na antologia Geração 90 – manuscritos de computador (Boitempo Editorial, 2001). Em ambos os contos, um homem, vivendo na atualidade, olha através da janela do apartamento para uma rua movimentada; no texto desta reunião, a rua é o lugar onde um dia passara um rio lodoso. Concluo sem receio: o poder da imaginação é o verdadeiro personagem nesta narrativa maior, enquanto em “Diário de um Clone” é o poder da ironia a mola mestra do conto sobre um pai genial que faz experiências e um filho que o admira, mas não entende que está sendo objeto de pesquisa.

As crônicas são leves, listam belezas, o autor deixa que entre muita poesia, tal como em “Uma Carta para os Recém-Nascidos”: “A noite lhes abraçará como um velho amigo, e o vento, esse incansável vagabundo, contará histórias muito antigas; histórias que poucas pessoas conhecem, pois que é preciso saber escutá-lo. Ouçam o vento. Ele é um sábio disfarçado de alguma coisa. Um estranho mágico que se faz sentir em sua invisibilidade móvel”. Invisibilidade, vento – não deixem de atentar. “Receita Nordestina” é também uma crônica cheia de beleza, contendo mensagem e mais poesia. São textos, repito, mais leves. Em “Questões de Cama e Mesa”, assinalei o trecho: “Talvez seja o caso de admitir que “cama” e ‘mesa’ sejam máscaras de uma mesma coisa: a necessidade de sobrevivência, do indivíduo e da espécie, impulsionado pelo Grande Motor da História: o prazer. Físico ou espiritual”.

O meio maduro que o escritor usa para despender de territórios, do âmbito e do meio valiosos de seu passado e colocar tudo nas mãos da ficção, impulsiona uma tal força à escrita que, não tem jeito, a narrativa acaba sendo lida como uma exatidão individual, própria, persuasiva, eloquente. Era o que eu já dizia quando comecei apontando justamente o conto sobre a mãe e o filho displicente (eufemismo para um filho insensível), em “Nossa Querida Mãe”. Em tempo: na parte referente às crônicas, é o lugar da “Resposta à Dona Filomena”, supracitada. 

Algumas sinalizações para certas crônicas: a cativante “O Mago dos Transistores”, cujo herói de antigamente era o homem que consertava a televisão e atendia em domicílio e “Tardes”, espécie de preparação para encerrar o livro; eis um belo trecho: “Mas há tantas formas de morrer, meu amigo. Há tantas formas de morrer. Esquecer é uma delas, e nisto eu morro todos os dias um pouco mais. O esquecimento é um velho baú, antigo como o mundo, que se enche de cenas, de imagens, de palavras, de sonhos, de sorrisos, de latidos, de crepúsculos, de cantigas, de noites e lares. É este baú que carrego, arrastando-o pelo tempo afora, sem jamais tornar a ver o que nele despejo”. Finalmente, louvemos as sextas-feiras com “É Sexta-Feira”.

Carlos Ribeiro sabe apanhar os tais vislumbres, os tais instantâneos, como um observador atento, e mais: com espírito jornalístico – claro! Os flashs, trazidos pela memória, são vestidos com uma roupagem literária; traduzem, então, essas circunstâncias existenciais intensas.

Demos uma volta pela coletânea. O passeio completo será o do leitor. Apenas apontei curiosidades para que não deixem de admirar aqui e ali, não passem rapidamente pelos belos vislumbres que o escritor colheu e deitou nessas páginas, suas sutilezas também são importantes, apreciem como ele maneja o passado, tempera com a ficção e ilumina os textos; tudo contribui para adicionar mais prazer ao que lemos.

Aproveite o livro.

Salvador, 24 de junho de 2009

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *