“Abismo é uma investida lírica contra a coisificação do homem”

Do que trata, afinal, este livro tão estranho, Abismo?
Trata de um esforço – de uma jornada – em busca do reencantamento do olhar. A epígrafe do livro, tirada do ensaio O Encantamento do Humano – Ecologia e Espiritualidade, da filósofa Nancy Mangabeira Unger, diz justamente isto: “Reencantar o mundo é, na verdade, reencantar o nosso olhar”. E reencantar o mundo é resgatar as dimensões profundas do espírito humano.

Daí a imagem do abismo, do fundo do cânion?
Claro. Em que lugar estariam essas “dimensões profundas” senão no fundo de um abismo? Entenda-se o vocábulo, neste caso, no sentido da profundidade interior do ser humano. A aventura do herói sem nome dessa novela pode ser definida, em síntese, como uma jornada de liberação: da Imaginação, das forças criativas do Espírito tantas vezes acorrentadas ou domesticadas pelo racionalismo, pela acomodação, pelo medo do desconhecido, pelo bom senso pequeno-burguês, que nos impedem de irmos além das Colunas de Hércules.

É possível identificar nesta jornada do herói sem nome a mesma do personagem de O Alquimista, de Paulo Coelho?
Talvez, no sentido de que se trata de uma busca interior, de símbolos e significados, mas não vejo nenhuma semelhança em termos literários. Paulo Coelho elaborou seu livro tomando como base um singelo conto persa, que também inspirou Jorge Luís Borges. Se meu romance tem algo a ver, no sentido da busca do auto-conhecimento, com este romance de Paulo Coelho ou com o conto de Borges, tem muito mais ainda com Conan Doyle (O mundo perdido), Saint-Èxupery (Terra dos homens), ou ainda com filmes como Apocalipse Now e Aguirre, a cólera dos deuses, nos quais a viagem de um homem é sempre um mergulho na sua singularidade.

Objetivamente, como você definiria Abismo, então?
Podemos definir a história como uma jornada que tem como objetivo último religar-nos às forças primordiais do mito, da magia – jornada esta que só se realiza efetivamente através do poder “mágico” da Palavra, da Linguagem, no que esta pode oferecer de mais expressivo. É também uma investida lírica contra a coisificação do homem. Como diz Adorno, “a idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, ao domínio das mercadorias sobre os homens, domínio que se estende desde o começo da idade moderna, e que desde a revolução industrial, tornou-se a força dominante da vida”.

O personagem sem nome, depois que empreende a descida pelo cânion, entra numa espécie de delírio, em que não se sabe o que é sonho ou realidade… Na primeira parte do romance, a estrutura é realista, bem tradicional. Em seguida, o fantástico prevalece.

Sim, este personagem a partir daquele momento caminha, todo o tempo, entre os pólos da Razão e da Imaginação, percebendo, a duras penas, que um jamais deve negar o outro, sob pena de cair em armadilhas que já tivemos a possibilidade de testemunhar. E se parece decidir-se pela Imaginação é porque esta, em nossa Civilização, permanece ofuscada, recoberta ao mesmo tempo pelo racionalismo mais enganador e prosaico e por um sem-número de tolices e superstições. Há de se retirá-la dos escombros em toda a sua potencialidade luminosa, integrando-a aos valores humanísticos mais altos. Deve-se ir, sim, além das Colunas de Hércules, para o Mar Incógnito, mas mantendo-se, sempre, a capacidade firme e serena de discernir a realidade, ou, pelo menos, o pouco dela que possamos vislumbrar.

Mas o que você quer dizer quando faz seu personagem empreender esta jornada?
O herói sem nome da novela – que representa o herói moderno, atormentado e oprimido por dúvidas e vacilações – segue em frente movido não mais por uma convicção e crença inabaláveis, mas pela simples impossibilidade de não poder permanecer na razão sem perdê-la, pois que não há razão sem a sua contrapartida simbólica, sem a intuição. Ele caminha porque não há alternativa. E eu pergunto: será que há alternativa para nós? A negação da dimensão imaginativa – do sonho e da fantasia (no sentido que atribuo à palavra no texto transcrito mais acima) seria uma espécie de aniquilação. Ou, pior: uma espécie prosaica, e por isto mais terrível, de loucura. Não a loucura dos videntes e dos profetas, mas a do pobre homem-máquina, programado, prostituído, destituído da sua grandeza. O pobre homem que falhou em cumprir o seu destino, refugo da Civilização.

Abismo é um livro de aventuras?
Sim, pode-se defini-la assim, digamos, para facilitar a sua compreensão. A história aponta, segundo acredito, para uma necessidade, e faz isto da forma mais simples: a de um livro de aventuras, de uma representação literária, ao mesmo tempo épica e intimista, na qual o exterior e o interior do personagem confundem-se, cada vez mais, na descida do abismo, a ponto de quase se tornarem indistintos – e aqui chegamos, pela via da fabulação, à complexa questão que envolve sujeito e objeto. E vê-se, com surpresa, que a objetividade só é plenamente alcançada através de um mergulho nas profundezas da subjetividade. Como escrevi, no meu livro Caçador de ventos e melancolias – um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga, “A consciência da profunda relação entre o homem e o ambiente em que vive – que, também neste caso, sujeito e objeto formam uma secreta unidade e que a linguagem, sobretudo a linguagem lírica, é, com exceção talvez da percepção mística, a única forma de aprender essa relação – levam o cronista a procurar, no mundo dessacralizado, os resquícios do “mundo da origem”, que não mais existem”. E, pensando bem, o que é essa jornada senão uma peregrinação em direção a esse “mundo das origens”? E, se ele não mais existe, por que não recriá-lo?

Você não teme que Abismo acabe na vala comum dos muitos livros de aventuras místicas que têm surgido, como os do próprio Paulo Coelho ou o bestseller A Profecia Celestina?
A rigor, não creio que se trate de uma aventura “mística”, embora adote um símbolo esotérico que é o do Santo Graal. Acho que a história envolve coisas mais complexas do que mostra à primeira vista. Sua filiação me parece bastante diversa das histórias pré-fabricadas e de consumo que se encontram por aí. Não me sinto à vontade no coro dos que agridem autores como Paulo Coelho, de quem li apenas O alquimista, mas acredito que a minha novela se situe melhor na proximidade das obras às quais já me referi, nas quais, como já disse, a viagem de um homem é sempre um mergulho na sua singularidade. Isto apesar de que o que o herói sem nome mais deseja, conscientemente, é ser um homem comum, a despeito de todas as suas teorias sobre “fatos insólitos”. Ele caminha para longe dos seus, nas profundezas do penhasco, não para distanciar-se deles, mas para encontrar um jeito de chegar até eles, para escapar do risco maior, que é o de vir a pertencer à “confraria dos alienados”, mesmo que estes sejam gênios. Voltando mais uma vez ao texto citado no início desta carta, trata-se do deslocamento do só, como separação, para o Só, como plenitude.

Abismo é extremamente visual, sua descrição do cânion é cinematográfica e quase naturalista. Você esteve lá antes de escrever a história, é claro.
Não, não estive lá antes de escrever o livro. Apesar de ter-me apoiado em livros e pesquisas sobre o lugar, sempre tive dúvidas se ele correspondia de fato ao cenário real. Somente em agosto de 2002 pude ir lá, nos Aparados da Serra e vi que, apesar das descrições dos ecossistemas (paisagens, fauna, flora etc.) estarem corretos, havia algumas incongruências: a maior delas a própria dimensão do cânion do Itaimbezinho, que pode ser percorrido internamente (incluindo a descida) em dois dias, daí a idéia de criar um outro cânion, imaginário. Os problemas ecológicos eram também outros, pois não existem mineradoras atuando no local (o maior conflito lá, na época em que o visitei, era o decorrente da desapropriação das terras pelo próprio Ibama). Isto não inviabiliza o livro como obra de ficção. Mas existem vários cânions na região, sendo o Itaimbezinho apenas um deles, e nem é o maior. O Itaimbezinho real funcionou apenas como inspiração e ponto de partida. Abismo é realmente muito visual, estou plenamente de acordo. Ele é construído, principalmente a partir do segundo capítulo, menos por uma narrativa discursiva do que por uma construção sucessiva de imagens, com grande potencial cinematográfico, que transporta o leitor para o cenário da ação. E é por isso mesmo que dispensa qualquer tipo de ilustração. Elas seriam, de certa forma, uma contradição numa obra que pretende justamente despertar o potencial imaginativo do leitor.

O personagem sem nome do livro se parece muito com você mesmo. Escrever este livro representou para você uma experiência transformadora?
Abismo foi, antes de tudo, uma experiência vivida, integralmente, a cada linha. Cada passo do herói é expressão de uma difícil e instigante experiência pessoal. Por exemplo: a descida ao abismo só pôde ser escrita quando eu me dispus a fazer uma caminhada solitária pela região mais deserta da Chapada Diamantina, o Vale do Paty. Passei cinco dias sozinho na serra, onde me perdi, ficando dois dias entregue às mesmas angústias do personagem-narrador. Escrevi quatro grossos cadernos descrevendo essa “jornada” e que utilizo neste momento para escrever um outro livro. Muitos outros elementos da história foram tirados de sonhos (meus e de terceiros. Por exemplo: a história contada pelo personagem Luís, do homem que enlouquece nas ruas de São Paulo, foi copiado em parte do sonho de um amigo meu, o artista plástico Mauritano). Outros de conversas e leituras de livros que caíam “milagrosamente” em minhas mãos, um deles narrando a possível chegada do Santo Graal à região das Missões, no sul do Brasil, justamente no momento em que eu mesmo considerava inverossímil a idéia do cálice sagrado ter ido parar naquelas bandas. Não acredito nessas teorias estapafúrdias, mas achei-as providenciais para a história.

Entrevista para o site da Geração Editorial.

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