A Perigosa Jornada de Um Herói

Escritor, jornalista e professor, Carlos Ribeiro apresenta a trajetória de um homem em busca do Santo Graal no romance que lança hoje, na Livraria Grandes Autores *Foto: Divulgação

por Edson Rodrigues

Carlos Ribeiro vem se transformando em um dos grandes nomes das letras baianas na contemporaneidade. Aliás, seu livro de contos O visitante noturno, lançado em 2000, tem predicados suficientes para dar ao autor reconhecimento nacional. Mas as engrenagens do mundo editorial poucas vezes giram com perfeição quando a missão é divulgar o talento de um autor radicado fora do eixo Rio-São Paulo, e O visitante noturno não desfrutou da distinção merecida.

Agora, o jornalista, professor e escritor Carlos Ribeiro publica novo livro, o romance Abismo. O trabalho tem distribuição nacional pela Geração Editorial e ganha lançamento baiano hoje, às 18h30, na Livraria Grandes Autores (Av. ACM). Abismo foi incluído com destaque no estande que a Geração Editorial teve na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em abril, e é uma aposta da editora, que vê no trabalho um grande potencial de mercado.

“Abismo trata da jornada do herói. Mas não daquele herói intrépido que conhecemos, aquele que não vacila, que não tem medo. Ao contrário, é um herói moderno, que nutre um conflito permanente consigo próprio”, comenta Carlos Ribeiro sobre o livro cujo personagem principal, aliás, não tem o nome revelado em nenhum instante da história.

E é através deste personagem, um jornalista apaixonado por temas “insólitos”, que o leitor vai sendo introduzido no romance que mistura impressões sobre o conceito de realidade, arqueologia, magia, busca pelo autoconhecimento, física quântica, mitologia e outras referências. Uma conjunção de informações que não atrapalha o fluxo de leitura, pelo contrário, torna-o tão prazeroso quanto desafiador.

Santo Graal – Mas, afinal, o que busca o herói de Abismo? Nada menos do que o Santo Graal, o cálice sagrado que, segundo a tradição esotérica, seria o vaso que guardou o vinho bebido por Jesus e que depois foi utilizado para recolher o sangue de Cristo na cruz, dando ao objeto imenso poder espiritual e simbólico.

Em Abismo, este cálice, em tempos longínquos e de forma enigmática, teria sido levado a um dos cânions dos Aparatos da Serra, região do Rio Grande do Sul. Esta jornada foi esquadrinhada por um professor de arqueologia, Ricardo, que dedicou a vida à procura do cálice.

Só que, ao encontrar sólidas pistas sobre o paradeiro do Graal e descobrir o cânion onde ele era guardado, o professor, já velho e cansado, se descobriu incapaz de empreender a desgastante jornada necessária ao resgate da relíquia. Daí confiar a busca do cálice ao jovem personagem sem nome de Abismo.

“Ao empreender a procura pelo Santo Graal, ao subir a serra e começar a descer o cânion, o personagem do livro, o jornalista sem nome, se vê diante das dificuldades do mundo real e dos medos e incertezas de outro mundo, o simbólico. Isso vai construindo um questionamento no personagem sobre sua própria sanidade mental e também sobre os valores da vida. O personagem vive a dúvida de estar experimentando um adentrar à loucura ou uma ampla jornada de autoconhecimento”, situa Carlos Ribeiro.


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Acima dos rótulos


Todo o material de divulgação fornecido pela Geração Editorial empreende um esforço em comparar Abismo com trabalhos como O alquimista, de Paulo Coelho. Como se todo trabalho literário que tenha como tema as mais insondáveis dúvidas e medos do humano seja literatura de auto-ajuda. Mas a leitura do novo romance de Carlos Ribeiro desautoriza este tipo de comparação.

É verdade que o trabalho traz bons questionamentos e teses sobre o fardo (ou será gozo?) de existir, mas a literatura oferecida pelo romance ultrapassa as pretensões e qualidades dos escritos de auto-ajuda que abundam no mercado.

“A diferença básica é a questão da linguagem. É nela que você reconhece o valor ou o não-valor do escritor. Auto-ajuda é um rótulo que abrange muita coisa: desde escritores oportunistas que querem ganhar dinheiro com o filão em ascensão no mercado, como também coisas importantes no sentido de auxiliar a humanidade. Mas em termos literários, penso que só o valor da obra deva classificá-la em sua importância estética: ou é boa literatura, ou não é”, pondera o autor de Abismo.

Talvez seja até mais fácil identificar na literatura de Carlos Ribeiro outros ecos. Franz Kafka, Edgar Allan Poe, Jorge Luis Borges, Joseph Conrad, Conan Doyle e Saint-Èxupery misturam-se nas entrelinhas. Isso porque se Abismo tem muito de literatura fantástica, de descrições sensoriais e imagéticas, de situações que emprestam arquitetura a sonhos, também traz, em todo seu percurso, um instigante clima de aventura.

“Abismo é também um livro de aventura, sim. É um trabalho no qual busco criar um suspense, uma história que tem um começo, um desenvolvimento, um ápice e uma conclusão. É uma tradição que anda meio desvalorizada em tempos pós-modernos, mas acho que este formato traz um prazer de leitura que eu, pessoalmente, gosto de valorizar”.


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Irrequieto criador
Carlos Ribeiro, 46, é baiano, jornalista e mestre em literatura pela Ufba. Irrequieto, transformou o trabalho de campo em ofício e se dedicou por vários anos à divulgação científica, participando de expedições à Antártida, Amazonas e várias reservas naturais. Em Abismo, aliás, esta faceta ecológica fica bem evidenciada no personagem principal, que funciona como um alter-ego do autor em seus questionamentos pelo valor de um jornalismo que defenda as nossas reservas naturais e denuncie os maus-tratos à natureza.

Entre outros livros, publicou em 2000 o trabalho de contos O visitante noturno e, um ano depois, colocou no mercado a sua dissertação de mestrado, Caçador de ventos e melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga. Foi um dos escolhidos para participar das antologias de crônicas Oitenta, publicada em 1996, e Geração 90: Manuscritos de computador, lançada em 2001.


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FICHA
Livro: Abismo
Autor: Carlos Ribeiro
Editora: Geração
Preço: R$29 (200 páginas)

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