À Luz das Narrativas (Suzana Varjão)

SUZANA VARJÃO

Ao reunir fragmentos de sua produção intelectual, Carlos Ribeiro acaba por construir uma narrativa com unidade, coerência e consistência que extrapolam os efeitos biográficos de muitas publicações similares. Se em cada um dos artigos, resenhas, entrevistas e discursos confrontados em À Luz das Narrativas – Escritos sobre Obras e Autores já se vislumbram bons exemplares de prática profissional, a resultante deste exercício de articulação é uma espécie de oficina de (ótimo) jornalismo cultural.

A seleção de textos não obedece a cronologias, lógicas estético-filosóficas ou condicionantes morais. Como saldo, assistimos à recomposição de boa parte do cenário das letras que (re)visitaram o circuito editorial brasileiro entre os anos 2000 e 2007. São, em geral, comentários sobre obras de romancistas, biógrafos, novelistas, cronistas, contistas, ensaístas, jornalistas, críticos, poetas e filósofos de diferentes épocas, estilos e tendências, construídos a partir do lançamento ou da reedição de publicações.

Com a mesma elegância que reverencia o retorno de obras primas, como clássicos de Tchekov e Rainer Maria Rilke, Ribeiro saúda o talento dos novos, como os baianos Aleilton Fonseca e Aramis Ribeiro Costa. Dá uma inequívoca demonstração de que não é apenas possível, mas imprescindível ao exercício do jornalismo cultural despir-se da soberba intelectual, dissociar relativização de depreciação e recolher-se aos próprios limites para deixar o outro falar.

E em À luz das Narrativas, Ribeiro deixa falarem brasileiros, americanos, alemães, paquistaneses, ingleses, russos, austríacos, ucranianos… Autores que, articulados num mesmo espaço/momento, facilitam a reflexão sobre as temáticas e os pontos de vista que perpassam suas obras, sejam elas crônicas desportivas ou ficção científica; exerçam o realismo fantástico ou o realismo psicológico; dialoguem por meio do humor ou do horror.

Mas há uma linha condutora neste exercício de diversidade. Um fio delicado, que recompõem, sim, o perfil de um profissional: o do humanista sem ostentação, que ganha visibilidade a partir da costura de temáticas, autores e obras que dão passagem à voz dos excluídos, dos violentados, dos injustiçados. Um posicionamento que se manifesta de modo explícito no texto/capítulo “Jornalismo com humanidade”, mas que se expressa de modo sistemático e continuado nas opções e nos enquadramentos discursivos.

O que mais dizer sobre o texto? Que, parafraseando seu autor, À Luz das Narrativas (re)encanta o mundo reificado do jornalismo cultural na atualidade, devolvendo-o ao patamar de criação do qual nunca deveria ter descido. Desnecessário, pois, dizer que recomendo sua publicação, esperando, em breve, que a Edufba, noutro exercício de paráfrase, anuncie ao mundo acadêmico[1]: “Eis aí, caros estudantes de jornalismo, os textos de…” Carlos Ribeiro[2].


[1] Falando em mundo acadêmico, seria interessante que o autor não cedesse à tentação de ajustar os textos resgatados às normas da ABNT, uma vez que não corresponderiam ao formato praticado na maioria dos meios de comunicação que veiculam o jornalismo cultural. No máximo, o que pode/deve fazer é dar as referências dos veículos em que os textos foram publicados.

[2] Frase de Carlos Ribeiro, referindo-se aos textos de Fausto Wolff.

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