“Uma guerra das raças”

Livro de Suzana Varjão mostra discriminação social e racial presente no noticiário policial e faz um alerta sobre a potencialidade da palavra escrita.

Carlos Ribeiro

Micropoderes, macroviolências, da jornalista Suzana Varjão, é fruto de uma longa trajetória, iniciada a partir da morte da colunista de teatro Maristela Bouzas, seqüestrada, violentada e assassinada em novembro de 2000, no centro de Salvador. Foi, segundo a autora, “uma experiência traumática, que redefiniu a trajetória de sua vida e se reflete no estilo da narrativa, que trafega, de modo deliberadamente transparente, entre o dado e o protesto; o argumento e o fato; a descrição e a explicação; o discurso e a análise; o objetivo e o subjetivo; o sujeito e o objeto; os traços da academia e os rastros das ruas”.

Com lançamento marcado para o próximo dia 16 de abril, na Academia de Letras da Bahia, às 18h30min, o livro é fruto de dissertação de Mestrado defendida pela autora na Faculdade de Comunicação da Ufba e resulta, sobretudo, de sete anos de militância no Movimento Estado de Paz (MEP) e no Fórum Comunitário de Combate à Violência (FCCV), iniciativas de grande importância na luta em defesa dos direitos humanos.

Jornalista premiada que atuou durante dez anos como editora do Caderno 2 deste jornal, Suzana realiza, nesta obra, uma análise densa e apurada do que denomina de bolhas e vãos: o espaço dosdominantes e dos dominados. Uma análise contundente, que alerta “especialmente aqueles que escrevem ou lêem jornais diários acerca da potencialidade da palavra impressa e sua responsabilidade na produção da ordem – ou da desordem – social”, na síntese de Eneida Leal Cunha, orientadora do trabalho.

P – Do que trata Micropoderes, macroviolências?
R – Micropoderes, macroviolências é um livro sobre o inconsciente da comunicação. Sobre a produção automatizada de discursos. Sobre como se processa a geração de determinadas mensagens, independentemente da vontade objetiva do emissor, ou, neste caso, de quem escreve nos jornais. É um livro que explora e evidencia mecanismos invisíveis de estruturação de sistemas de classificação do mundo.

P – Quais são estes mecanismos e sistemas?
R – São mecanismos simbólicos, presentes em práticas, conhecimentos e sujeitos noticiosos. Engrenagens discursivas, incrustadas em diferentes instituições e campos de conhecimento e de ação social. Tecnologias de poder, que legitimam e naturalizam, por exemplo, a subdivisão dos homens em raças, classes…

P – Como você reconhece estas engrenagens? 
R – Alguns destes mecanismos estão vinculados ao modo de coletar, organizar e difundir informações sobre violências. E podemos reconhecê-los de diversas maneiras, sob diferentes perspectivas, a partir mesmo de atos lingüísticos.

P – Atos lingüísticos?
R – Sim. Demonstramos, por exemplo, como o uso inadequado da língua pode fazer com que se perca o controle sobre o conteúdo de mensagens. Se você não tiver um domínio mínimo sobre o que chamo de atos lingüísticos, você pode desejar pedir aos brancos que respeitem os negros, mas acaba pedindo aos mais novos que respeitem os mais velhos…
Refiro-me, neste caso, ao disco de Chico César. Gosto de usar este exemplo, porque simplifica o raciocínio. Chico César apropriou-se do ditado popular “Respeitem meus cabelos brancos”, em que uma pessoa exige respeito por ser mais velha. E, com uma única vírgula, o artista alterou completamente o sentido da frase, que vira “Respeitem meus cabelos, brancos”. Na apropriação de Chico César, quem emite a mensagem é um negro, exigindo das pessoas brancas respeito por seu estilo de cabelo, sua diferença. Neste caso, a alteração da mensagem foi proposital, mas as modificações ocorrem, muitas vezes, à revelia do escritor-emissor.

P – Isso também acontece no noticiário sobre violências?
R – Também. É possível flagrar o automatismo de determinadas mensagens neste tipo de noticiário. Por meio de procedimentos quantitativos e qualitativos, demonstramos, por exemplo, o caráter não-intencional da disseminação de políticas de extermínio, a partir de estruturas discursivas vinculadas a aparelhos repressivos de Estado.

P – O que você chama de discursos automatizados são, portanto, discursos estruturais… 
R – Isso. Conseguimos evidenciar, na pesquisa que originou o livro, a emissão não- programada de mensagens – ou discursos. O que é dito a partir também do que não é dito.

P – Pode citar um exemplo?
R – É simples. Se, num determinado dia, ocorrem dez assassinatos de pessoas negras e pobres, e você valoriza um assalto sem conseqüências físicas relevantes contra pessoas brancas e bem situadas em termos socioeconômicos, você está dizendo, sem dizê-lo, que a vida de negros e pobres vale menos que a vida dos brancos e bem aquinhoados…

P – É isso que a análise diz?
R – É uma das coisas que ela diz. Mas o conteúdo em si das mensagens emitidas não é o aspecto mais relevante da pesquisa. Sabemos como os discursos mudam, adaptam-se a circunstâncias, metamorfoseiam-se, renovam-se. Então, não nos interessava evidenciar o que era – ou é – dito “aqui e agora”, mas expor os mecanismos duradouros de construção automática, ou estrutural, de determinados discursos.

P – Como o discurso escravista.
R – É. Identificamos ideologias escravistas embutidas em práticas ordinárias, rotinas produtivas, representações e operações aparentemente neutras. E demonstramos como a violência física em Salvador está estreitamente vinculada à violência simbólica do escravismo. Mas demonstramos também que esta violência simbólica é operada de modo automatizado, naturalizado, estrutural, no conjunto da sociedade.

P – Seria o aspecto mais relevante do trabalho?
R – É o que nos parece mais relevante. Como dizia o filósofo francês Michel Foucault, o que faz a especificidade do racismo moderno não está ligado a mentalidades, a ideologias de poder. Está ligado à tecnologia de poder. E esta técnica de poder tornou-se autônoma na sociedade. Independe, hoje, de discursos vertical e linearmente emitidos, a partir de pontos fixos e definidos, ou, dito de outro modo, a partir dos macropoderes.

P – Os macropoderes seriam as classes dominantes?
R – Sim.

P – E quem seriam os micropoderes?
R – Os micropoderes somos nós, sujeitos posicionados nas malhas capilares das estruturas sociais, o que significa dizer a maioria da população. Somos nós que, de modo automatizado e naturalizado, estamos operando o que Foucault chama de “dispositivos de dominação”. E enquanto não compreendermos isso, não alcançaremos as transformações sociais que desejamos, porque elas são, sobretudo, culturais.

P – Devemos, então, creditar aos dominados o sucesso do processo de dominação?
R – Em parte, sim. E isso inclui os micropoderes midiáticos. Temos dificuldade de compreender como se dá a reprodução – e, portanto, a produção – da realidade social a partir das narrativas dos meios de comunicação de massa. Sabemos de seu poder estruturante, mas perscrutamos neles discursos ideológicos linearmente emitidos pelos macropoderes. Esquecemos de buscar nos micropoderes as operações de dominação.

P – Por este motivo, a pesquisa privilegiou esta esfera de poderes…
R – Exatamente. Não significa dizer que os macropoderes não sejam responsáveis pelo quadro social em que vivemos. São. E a pesquisa evidencia que o quadro de violências em Salvador está vinculado a uma teia de conhecimentos, práticas e poderes, incluindo os médio e macropoderes. Mas não estão sós. No dia-a-dia, o quadro noticioso sobre as violências é tecido num plano de microrrelações e posições.

P – A partir do discurso ideológico das classes dominantes… 
R – Sim. Mas um discurso ideológico incorporado às práticas, às estruturas sociais. E nós, micro e mediopoderes, é que operamos estes dispositivos, apoiando-nos uns nos outros, às vezes convergindo, outras negando-nos, anulando-nos, mas mantendo estes mecanismos em funcionamento. São engrenagens que “Haiti”, de Caetano e Gil, expõe, de modo emblemático.

P – Você usa vários exemplos da esfera artístico-cultural para explicar o quadro social. Reflexos de sua trajetória?
R – É. Acabei traçando um paralelo entre as representações dos negros nos espaços artístico-culturais e nos espaços dedicados à cultura da violência. Além disso, os artistas ajudaram-me a recompor a atmosfera de uma cidade repartida, dividida entre “bolhas” e “vãos”: Chico César, Caetano, Margareth, Gilberto Gil, Carlinhos Brown… Foi inevitável. Tenho uma história nesta esfera noticiosa, e os artistas são antenas sociais…

P – As “bolhas”, representando os espaços dos dominantes. Os “vãos”, dos dominados.
R – É isso.

P – Por falar em trajetória, seu livro é fruto da reflexão iniciada em 2001, com o Movimento Estado de Paz. De lá para cá, a cobertura sobre violência mudou? 
R – Muito. Mudou para melhor, e continua a mudar. Especialmente na Bahia, onde o debate começou. Um debate sério, corajoso, envolvendo profissionais, pesquisadores e empresários de comunicação. E este livro é reflexo disso. Desta sensibilização. Não deixa de ser uma resposta a certas investidas dos macropoderes político-partidários que, vez por outra, tentam cercear a liberdade de imprensa, em nome da defesa da sociedade.

Ficha técnica
O quê: lançamento de livro.
Quando: 16 de abril de 2008.
Onde: Academia de Letras da Bahia, às 18h30min.
Título: Micropoderes, macroviolências.
Autora: Suzana Varjão.
Editora: Edufba.
Páginas: 214.
Preço de lançamento: R$ 20,00.
Apoio: Fundação Avina.
Informações: 71 8201-6388.

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