Traduzir exige coragem e é um trabalho de criação


A Tarde Cultural – 14/10/2006

Para se fazer uma boa tradução, além do conhecimento da língua original da obra e daquela para a qual se irá verter o texto, é necessário ousadia. Esta é a opinião de Boris Schnaiderman, 89 anos, ucraniano naturalizado brasileiro, professor aposentado de língua e literatura russa da USP. A entrevista a seguir, concedida a Carlos Ribeiro e ao escritor Aleilton Fonseca, foi realizada no começo deste ano, no apartamento de Boris e de sua mulher, a professora de literatura Jerusa Pires Ferreira, em Salvador, onde passam, discretamente, alguns dias do ano.

A TARDE | Recentemente, houve em São Paulo um congresso sobre Dostoievski, do qual o senhor participou. Qual foi a importância desse congresso e que resultados trouxe no conhecimento da obra daquele autor? 

BORIS SCHNAIDERMAN | O que houve de mais importante no congresso, a meu ver, foi a participação de professores estrangeiros, inclusive vindos da Rússia. Eles trouxeram trabalhos importantes, notícias de livros que têm saído sobre obra de Dostoievski. A troca de experiências foi valiosa.

AT | Existe hoje um grande número de pessoas interessadas na redescoberta, numa visão mais moderna de Dostoievski? 

BS | Sem dúvida. Está pra sair um livro de Bruno Gomide, que é uma tese de doutoramento de cuja banca participei, sobre a recepção da literatura russa no Brasil até 1938.

Nesse trabalho ganham forma fatos importantes. Dostoievski esteve muito presente no Brasil a partir do século XIX. Na década de 50, pesquisadora russa Ina Terterian, especialista em literatura brasileira na Rússia, levantou a hipótese de que Machado de Assis teria sofrido influência de Dostoievski. Ela acha que houve influência na tipologia dos personagens.

AT | O senhor concorda com essa hipótese? 
BS | Não. Machado de Assis conhecia Dostoievski, ele o cita em várias crônicas. Mas cita de passagem. Cronologicamente, constata-se que, se ele realmente conheceu Dostoievski, não teve tempo para se imbuir de sua obra.

AT| Há uma tradição crítica acerca de Dostoievski. No recente congresso, surgiu algum ponto de vista novo no estudo do autor?

BS | Sem dúvida. Houve estudos, por exemplo, sobre Dostoievski na prisão, fase até então pouco estudada. Os textos referentes ao processo são extraordinários. Ele respondeu quase tudo por escrito aos interrogatórios. Por aí se vê que no aparelho repressor russo havia pessoas de alto gabarito. As perguntas que formulavam pegavam Dostoievski de surpresa. E as respostas dele são extraordinárias, tudo muito conciso, direto. Às vezes tem-se a impressão de que Graciliano Ramos se baseou no processo de Dostoievski. É provável que conhecesse alguma coisa. Dostoievski, diante das perguntas dos juízes, responde num estilo parecidíssimo ao do Graciliano. Agora não há dúvida que ele era um grande leitor de Dostoievski.

A TARDE | O senhor é um dos principais tradutores de Dostoievski no Brasil. Como é essa experiência? 

BORIS SCHNAIDERMAN| Comecei traduzindo muito mal, na década de 40, por necessidade financeira. Não tinha o preparo necessário, realmente era uma temeridade.
No entanto, falam muito bem, a crítica elogia essas traduções.

AT| Quais as primeiras obras traduzidas? 
BS | A primeira obra que traduzi foi Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski. Foi uma loucura completa, uma irresponsabilidade total. Assinava com pseudônimo. Só passei a assinar as traduções com o meu nome a partir dos fins da década de 50. O primeiro livro que saiu foi uma coletânea de contos de Tchekov, mas ainda muito defeituosa, eu acho. No entanto, foi recebida com aplausos; houve um grande texto, muito bonito, de Otto Maria Carpeaux. Como era uma coletânea, Carpeaux fez um ensaio sobre Tchekov. Mas a tradução de 1959 ainda tinha graves defeitos, que depois eu corrigi, em novas edições.

AT | O senhor tem alguma novidade em termos de tradução? 
BS | Não. Eu não uso o computador, mas a máquina de escrever. Então, sentar à máquina para traduzir um romance, hoje, para mim, é um esforço muito grande. Tenho a necessidade de melhorar as produções antigas, o que é muito mais proveitoso. Minhas produções podem ser divididas em três fases. A primeira é da década de 40.

Depois há uma fase de traduções em que me preocupava muito com a qualidade do meu trabalho, mas tinha uma concepção errada de textos literários. Os autores eram sagrados. Eu tinha de traduzi-los com todo o apuro e acabava deformando o texto. Dostoievski foi acusado de escrever mal o russo, com muitas repetições. Mas é o estilo próprio, pessoal, dele, que tem de ser respeitado. Mas os manuais de estilo dizem que não, não se deve repetir palavras e essa coisa toda… e eu traduzia assim, procurava traduzir com um “estilo digno” e com isso deformava, porque o texto original muitas vezes tinha um estilo mais solto, mais livre e eu transformava num estilo mais solene.

A partir da década de 70, mais ou menos, passei a traduzir num ritmo mais solto. Para isso, foi preciso percorrer um longo caminho.

AT | A tradução é uma atividade paradoxal por excelência. É preciso coragem para traduzir? 
BS | É preciso coragem, porque quem sou eu para traduzir Dostoievski? E, no entanto, eu preciso traduzir Dostoievski. Quer dizer: eu preciso ter coragem para isso. E se eu me disponho a traduzir Dostoievski, tenho que traduzi-lo com ousadia. Tradução é um ato desmedido.

Porque havia a noção de que o tradutor era assim como um transmissor, simplesmente. Não, o tradutor tem que ser um criador, ele tem que criar uma obra. Quando está traduzindo, é um trabalho literário. Traduzir um romance é um trabalho que corresponde a um trabalho de escrever um romance. Tem que ser um trabalho de criação, porque sem isso será um trabalho qualquer.

AT | O senhor pode falar dessa questão da tradução a partir de um livro que está preparando para a editora Perspectiva? 
BS | São pensamentos sobre o ato da tradução. É um livro que parte da experiência de tradutor, e não de uma posição teórica. A posição teórica decorre do ato de traduzir. Agora este é um problema muito complexo, que eu vou transpor de uma cultura para outra. Não se pode traduzir linha por linha, palavra por palavra. É preciso ousadia.

AT | Pode dar um exemplo? 
BS | Há um verso de (Boris) Pasternak, que Haroldo de Campos traduziu como: “A dor do universo numa fava.” É um verso belíssimo. No entanto, se eu vou ao verso russo, não tem essa força que tem o verso de Haroldo. Haroldo costumava falar da lei das compensações na tradução. Porque traduzindo, alguma coisa eu perco. Então, se perco numa determinada passagem, tenho que compensar em outra.

Eu tenho assim um balanceado no qual o conjunto vai corresponder à força do original. Com isso se pega naquela posição do Robert Frost, de que poesia é aquilo que se perde nas traduções. É engraçado, mas não é verdade!

AT | O senhor disse, numa entrevista, que se foi o tempo em que o tradutor tinha que ser neutro. Pode esclarecer isto? 
BS | Bom, havia a noção de que o tradutor tinha que se omitir, omitir a sua personalidade, não é? É impossível. O tradutor, mesmo que ele queira se omitir, estará presente.

Ele terá menos força se tiver a preocupação de se omitir. Porque, em princípio, a tradução é impossível, mas tem que ser feita. É o grande paradoxo.

AT | Como o senhor vê a questão da semiótica? 
BS | Acontece o seguinte: eu não sou semioticista. Mas aconteceu que tive muitos contatos com semioticistas e achei que tinha de divulgar esse material. Eu me interessei pela semiótica porque estava ensinando língua e literatura russa e achei absolutamente indispensável ver o que havia de moderno em termos de linguagem. Semiótica, para mim, foi um instrumento e eu me pus em contato com semioticistas. Daí surgiu o livro Semiótica russa, que eu organizei.

Poucas traduções lá são minhas; outras, de duas colaboradoras.

AT | A semiótica foi bem compreendida no Brasil? 
BS | Se foi bem ou se foi mal entendida no Brasil, é difícil dizer. Teve gente que acertou bastante, teve gente que errou muito. Agora existe sempre a preocupação no meio universitário com umas… palavrinhas mágicas, não é? (rindo), que volta e meia aparecem. Essa coisa de as pessoas logo quererem falar de carnavalização, dialogismo, mas isso aconteceu no mundo inteiro, não foi somente no Brasil. O mundo universitário exige às pessoas apresentarem trabalhos; para isso elas têm que se basear em alguma coisa, ficam procurando as palavrinhas mágicas.

AT | A pergunta básica seria esta: o que há de Bakhtin ainda por conhecer? 
BS | Muita coisa. Muita coisa. Grande parte do que se conhece de Bakhtin são anotações, não são trabalhos concluídos.

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