Show de Pavarotti – Faltou Brilho

A Orquestra Sinfônica da Bahia foi a única unanimidade no show de Pavarotti, que não empolgou o público.

Jornal A Tarde

Nem Henfil, nos velhos bons tempos do Fradim, poderia ter uma idéia mais abusada: atrair a nata da elite baiana para um megashow internacional, colocá-la numa fila quilométrica, digna dos velhinhos do INSS, e fazer desabar sobre a sua cabeça uma chuva à altura daquelas remotas ilhas do Pacífico Sul. E mais: uniformizar, com prosaicas (mas eficientes) capas de plástico aqueles cujo status se revela, justamente, por símbolos de diferenciação social.

Jornalistas e empresários, políticos e artistas, arquitetos e promoters, lado a lado, nos 450 m2 de um cenário deslumbrante, molhados, empacotados, mas consolados, ainda, com a idéia de que o sacrifício valeria a pena, contendo a indignação pelo tratamento inesperado para quem pagou até R$ 200,00 por um ingresso.

Mas, os aplausos da platéia, ao longo do espetáculo, mostraram que o show não empolgou. As apresentações de Gal e Bethânia foram consideradas “mornas”, sem o brilho que se esperava das duas divas. O espetáculo transmitiu a idéia de que foi alinhavado às pressas, sem a devida preparação (vale dizer que os artistas e o maestro Leone Magiera ensaiaram uma única vez, na sexta-feira).

Isto não significa que a iniciativa não tenha sido válida. É verdade que o Pavarotti, ouvido no deslumbrante cenário da Bahia Marina, já não é o mesmo que empolgou críticos e platéia no Metropolitan Opera, em 1975 (mas quantos, dos ouvidos presentes, poderiam realmente perceber a diferença?). A não ser para os que esperavam vê-lo dançando no palco, como Caetano Veloso ou Michael Jackson, ele continua sendo um dos maiores tenores do mundo. E, desse ponto de vista, pode-se dizer que o espetáculo foi um acontecimento especial, inclusive, por projetar a Bahia, e os seus músicos, no panorama internacional.

A grande performance da noite terminou sendo, entretanto, a da Orquestra Sinfônica da Bahia, que cumpriu seu papel com brilho e competência. A esplêndida abertura, regida pelo maestro Piero Bastianelli, com a execução de O Guarani, de Carlos Gomes, foi uma mostra disto. Aliás, vale dizer que a orquestra recebeu elogios de Pavarotti, que a chamou de “maravilhosa”, e do maestro Leone Magiera, que a definiu como “magnífica”. “Ela foi uma das melhores orquestras que regi nos últimos tempos”, afirmou.

Apesar da alta qualidade artística das estrelas, ficou claro que elas não estavam em seus melhores momentos. Pareciam tensas, pouco à vontade. Gal empolgou mais o público com Canta Brasil e Bethânia alcançou maior brilho com Terezinha. O ponto mais baixo do show foi o final, quando interpretaram O Sole Mio, ao lado de Pavarotti. Ali, ficou mais evidente a improvisação do encontro, com direito a um acorde desafinado de Gal, e, um pouco mais constrangedor, com a “cola” das cantoras, obrigadas a ler a letra da música, que foram induzidas a cantar pelo próprio Pavarotti. Procedimento, diga-se de passagem, não-usual num espetáculo deste porte.

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