Savannah Bay: “O que faz sucesso é o vulgar”

A estréia de Savannah Bay, em Salvador, foi um momento de intensa felicidade para Helena Ignez. O carinho do público, que compareceu em peso à sala do Coro do TCA, para prestigiar a atriz, que comemora 40 anos de carreira, manifestou-se, ao final do espetáculo, por demorados aplausos, numa mostra do reconhecimento da importância que ela tem para a cultura brasileira. Com simplicidade e simpatia, Helena falou ao repórter de A TARDE sobre os motivos que a levaram a trazer essa peça para a Bahia e sobre sua determinação em fazer um teatro que valorize a essência dos personagens.

P – Por que a escolha de um texto da Marguerite Duras para comemorar seus 40 anos de teatro?
R – Primeiro, eu escolhi o texto; depois, me lembrei que fazia 40 anos. Mas ele representa, de certa forma, para mim, aquilo que está no verso de Drummond, como se me dissesse: “Vai, Helena, ser gauche na vida”. É uma contramão, num momento mais carnavalizante, em que a cultura está mais exteriorizada. Escolhi um texto com profundidade. Fiquei encantada com o personagem Madeleine, que, também, é de teatro, e pelo fato de a essência do trabalho ser a memória. A interiorização que fornece Savannah Bay foi o que mais me interessou.

P – A atmosfera, na peça, tem uma função muito especial na reconstrução das relações, através da memória. Há uma relação muito forte entre o que está fora e o que está no interior das personagens. Isto tem algum significado especial para você?
R – Sim, há a presença da natureza, do mar. A desordem da memória de Madeleine, o descascar dessas várias cascas, como se fosse uma cebola, parte da mentira até chegar à essência dela, que é a verdade. Esta relação entre a intimidade das personagens e o mundo exterior, onde elas se movimentam, exerce um fascínio muito especial na obra de Marguerite Duras.

P – Por que você escolheu a Bahia para comemorar os seus 40 anos de teatro?
R – Foi na Bahia que eu comecei. Inclusive, tem a bela citação de Caetano, no livro Verdade Tropical, sobre a montagem da peça Sara e Tobias, que marcou tanto a ele como a Bethânia, naquela época. A Bahia é a minha Savannah Bay, a minha terra do amor, do sonho. Sou uma atriz baiana, as qualidades do meu teatro são baianas. Essa natureza de atriz, que eu tenho, em nenhum outro lugar do mundo eu poderia ter nascido pra ser assim.

P – O que você pode destacar de mais importante nesses 40 anos?
R – Todo o começo, com Martim Gonçalves. O meio, nos anos 70, com Salomé, de Oscar Wilde, no Museu de Arte Moderna da Bahia, e os últimos trabalhos, que também surgiram na Bahia, como Cabaré Rimbaud. Savannah Bay ocupa, nesse contexto, um lugar muito especial. Ele tem concepção cênica original minha e convidei Rogério Sganzerla para dar aquele olho final, aquele dinamismo típico do trabalho cinematográfico dele.

P – Como você vê o panorama cultural da Bahia e do Brasil, hoje, em relação ao momento que você viveu, nos anos 60, com Glauber, com o Cinema Novo? 

R – Os momentos são, sempre, diferentes. Como Glauber, não surgiu ninguém. Lembrando Glauber, fica difícil a gente encontrar um substituto. Mas este é um momento muito interessante, existem bons atores, bons diretores. O que me deixa um pouco apreensiva é quando penso sobre a essência da arte, para que lado ela vai. O que faz sucesso hoje é o vulgar. Devemos buscar o sucesso, é lógico, porque o artista deve se voltar, também, para o público externo, mas não precisamos partir para o outro lado da moeda. Ou é o Carnaval e a vulgaridade, ou é a crítica ao Carnaval e à vulgaridade. Precisamos buscar uma nova atitude.

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