Predomínio da Estética

CARLOS RIBEIRO As estratégias sensíveis – Afeto,mídia e política é o novo livro do escritor, pesquisador e atual diretor da Biblioteca Nacional, Muniz Sodré. Trata-se de um ensaio, no qual Sodré examina (e afirma) o predomínio da estesia (a estética em sentido amplo) nas diversas esferas da sociedade neoliberal e globalizada – da economia à política, da cultura ao lazer. 

A Tarde Cultural – 24/06/06
Carlos Ribeiro

 

Uma sociedade de aparências, simulacros e fantasmagorias. É sobre isto que o professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj), baiano de São Gonçalo dos Campos e, não esqueçamos, Oba Xangô do Axé Opô Afonjá, fala na entrevista a seguir.

Carlos Ribeiro – Que conclusões podemos tirar da constatação de que as nossas emoções são, freqüentemente, manipuladas pela ditadura do espetáculo? Quais as conseqüências disto para a nossa civilização?
Muniz Sodré – A expressão “ditadura” talvez não seja a mais conveniente para se referir ao fenômeno da espetacularização da vida social, que implica um tipo brando ou emoliente de domínio. Poderíamos dizer: somos obrigados a nos divertir… mas isto acaba sendo uma contradição em termos. O que há mesmo é um primado do espetáculo “difuso”, terminologia usada pelo francês Guy Debord para caracterizar a sociedade de massa contemporânea, em que o mercado usa publicitariamente a mídia para consolidar o fetichismo da mercadoria. Claro, o espetáculo é algo recorrente em qualquer complexo civilizatório (vejam-se os gregos, os romanos, por exemplo). Entretanto, em nossa modernidade tardia, o espetáculo configura-se como uma verdadeira relação social, constituída pela objetivação da vida interior dos indivíduos (desejo, imaginação, afeto), graças a imagens orquestradas por organizações industriais, dentre as quais se impõe a mídia.
Torna-se, portanto, o conceito unificador de uma enorme variedade de fenômenos, sob a égide do tecnocapitalismo ou da sociedade de mercado global. Uma conclusão a se tirar é que terminamos precisando de “holofotes” para existir. Ou só existimos sob a iluminação fantasmagórica do show.

CR – Que “estratégias sensíveis” são necessárias num mundo em que – tal como no Mito da Caverna, de Platão – as pessoas parecem cada vez menos capazes de distinguir as coisas de suas projeções? De diferenciar a percepção crítica dos afetos? 
MS – O Mito da Caverna, de Platão, expõe momentos diferentes da vicissitude humana no empenho de determinação da verdade.
Fora da caverna, confrontadas as coisas com a luz solar, o real pode revelar-se como diverso das sombras, de suas projeções. É possível que estejamos atravessando um “período de caverna”, ainda incapazes de uma avaliação crítica consistente do mundo de simulacros em que nos movemos, por efeito da redefinição das formas clássicas de representação pela mídia, em especial a mídia eletrônica.
Com o ciberespaço, com a internet, imergimos literalmente num espaço-tempo modelado por dígitos e imagens – ainda “sombras” diante do sentido das coisas.

CR – Quais as conseqüências maiores deste fenômeno de auto-referencialidade exacerbada, bem explicitada por Francesco Cassetti e Roger Odin, citados no seu livro, na perda da dimensão humana que ocorre na televisão, hoje, em relação à televisão do passado; com a “sintonização no vazio, sem objeto”?
MS – Realmente, esse dois autores enxergam um empobrecimento na televisão de hoje (que chamam de “neotelevisão”), comparada aos começos da tevê, que chamam de “paleotelevisão”. Para eles, assistir à velha televisão implicava “atividades cognitivas ou afetivas com plena dimensão humana: compreender, aprender, vibrar ao ritmo dos acontecimentos relatados, rir, chorar, ter medo, amar ou simplesmente se distrair. Assistir à neotelevisão não implica mais nada disso. A sintonização energética é uma sintonização no vazio, sem objeto”. No livro, observo que o argentino Eliseo Verón referese a esta argumentação, mas para criticá-la, sugerindo que o “vazio” pertenceria mais “aos nossos instrumentos conceituais” do que à própria televisão: o que se poria efetivamente em jogo é uma nova fase da tevê enquanto dispositivo semiótico de contato.

CR – Como se insere a questão dos afetos, tema deste seu novo livro, nessa problemática questão da comunicação contemporânea, do impacto das novas tecnologias e do empobrecimento da linguagem?
MS – Com este meu novo livro, quero chamar a atenção para o fato de que o afeto (portanto, a dimensão do sensível, que abrange emoções, sentimentos, paixões, desencantos, ódios) está cada vez mais presente nas formas de vida e nos embates ideológicos da contemporaneidade, como um terreno privilegiado ou uma espécie de teatro para as manifestações dos fantasmas de desencanto com a História. Junto a isto a questão da política, porque grande parte do pensamento pós-modernista, avesso à política liberal-parlamentarista, gira em torno da estética que, como bem se sabe, é território próprio do sensível. Não falta quem diga que a política (ao menos, a política em sua forma clássica) morreu para dar lugar à estética ou “estesia”. Pode ser a estética degradada do marketing eleitoral, mas também o fenômeno estético do desencadeamento das emoções populares nos embates das causas públicas.

CR – Pode dar um exemplo? 
MS – O Fórum Social Mundial, por exemplo, é política feita de afeto, de uma espécie de “sentir-com-o-outro”. Vários dos grupos ativistas de hoje (ecologistas, antiglobalistas, etc.) constituem verdadeiras “comunidades do afeto e do gosto”, mais do que agrupamentos movidos pelo racionalismo ideológico.
O fato é que a emergência de uma nova cidade humana no âmbito de novas tecnologias do social nos impõe, não apenas no plano intelectual, mas também nos planos territoriais e afetivos, terminar com um velho contencioso da metafísica (platônica) que se irradiou para o pensamento social: a oposição entre o logos e o pathos, a razão e a paixão.

CR – De que forma se dá esse predomínio da estesia no mundo contemporâneo? Vivemos então uma crise de racionalidade – da razão cegada pela emoção, e, também, ou portanto, da ética? A propósito, é sua a frase: “Não existe caráter digital”.
MS – Não sei se é minha a frase “não existe caráter digital”… Às vezes me vêm à fala ditos, de cuja autoria não estou completamente seguro… Mas, francamente, pouco importa: nos tempos que atravessamos, a cópia costuma valer mais do que o original.
Agora, a crise da racionalidade instrumental é um fato detectado por quase todo o pensamento social de hoje. As grandes razões, as grandes causas, as metaexplicações do mundo já não encontram mais ouvidos. A verdade absoluta vai ter de descobrir o sorriso…
Quanto à crise da ética, é preciso atentar bem para o seguinte: a questão da ética só se levanta de fato no interior da filosofia, e não como “uma” crise marcada no calendário.
É que a ética já é a linguagem de toda a crise, posto que é sempre um limite (morte) para a pretensa eternidade de qualquer poder. As crises de moralidade que vemos expostas na mídia de todos os dias referemse a uma especial deriva da idéia de ética. De fato, não vislumbro ética, moralidade ou caráter na esfera do digital. Trata-se de uma outra, bem outra, coisa…

CR – Como o senhor vê a idéia, que prevalece no senso comum, de que nunca tivemos, no mundo,e sobretudo aqui,na América Latina, tantos governos ditos democráticos? O que diferencia a “democracia cosmética” do conceito grego, original, de democracia? 
MS –Democracia “cosmética” é o regime das aparências democráticas: marketing eleitoral, pesquisas de opinião, classe política embonecada, etc., mas nenhuma real intervenção das massas nas decisões estratégicas de governo. Na falta de identidade política, o sujeito põe a maquiagem: sorriso congelado no rosto, pinta de âncora de tevê, discurso de vendedor de automóveis. No reino da cosmética, a política é tão real quanto uma telenovela.

CR – Qual a sua visão em relação ao jornalismo brasileiro, hoje? A idéia do cosmético parece ser bem aplicável à valorização do espetáculo em detrimento da informação, e desta em relação à reflexão.
MS – Não há dúvida de que o espetáculo já governa a maioria das páginas dos jornais.
Se o sujeito canta ou dança aparece facilmente nas primeiras páginas, em grandes letras e imagens. Em princípio, os jornais têm razão: a cultura pública brasileira tem sido fortemente marcada há várias décadas pela televisão, cinema e música popular.
Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, João Bosco e outros são ícones de nosso tempo, de mais de uma geração. Acho apenas que as novas gerações, os mais jovens, estão buscando informação na internet e prestando pouca atenção ao jornalismo impresso.
A permanência do jornal, no entanto, me parece depender do aprofundamento da informação, portanto da fatura de um jornalismo mais explicativo ou reflexivo.

CR – Fale sobre sua atuação frente à Biblioteca Nacional: quais as prioridades, realizações, projetos. E como vê o trabalho feito pelo ministro Gilberto Gil frente à pasta. É possível fazer um bom trabalho num contexto tão contaminado por denúncias de corrupção, negociatas e apadrinhamentos? 
MS – Estou há cinco meses à frente da Fundação Biblioteca Nacional. Com o firme apoio do ministro Gilberto Gil e do secretário executivo Juca Ferreira, estamos implantando no momento 404 novas bibliotecas públicas em todo o País, ao mesmo tempo em que estamos instalando um refinado sistema de segurança para o acervo do que é a sétima maior biblioteca nacional do mundo.
Estamos também realizando congressos internacionais importantes no âmbito das bibliotecas digitais e da disseminação da leitura.
Gil e Juca [Ferreira, secretário executivo do MinC] conseguiram profissionalizar o Ministério da Cultura, que não tinha verdadeira estrutura ministerial antes deles.

CR – Por que o lançamento em Salvador de As estratégias sensíveis foi cancelado? Não é importante que o senhor, como filho da Bahia, lance o seu livro aqui?
MS – Não cancelamos o lançamento de As estratégias sensíveis em Salvador… Apenas alteramos a data. Sou baiano com muito orgulho da terra, baiano de carteirinha. Ser Oba Xangô do Axé Opô Afonjá é minha glória maior.

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