“Precisamos Cuidar da Violência Dentro de Nós”

JORNAL LITORAL NORTE / 1999

O presidente da Universidade Holística – Unipaz, alerta para a necessidade de cada um de nós repensarmos nossos valores, transformando a “cultura da violência”, que segundo ele é uma das mais danosas características da nossa sociedade, numa “cultura da paz”, voltada para a solução pacífica e criativa dos nossos conflitos


LITORAL NORTE – A que se deve o crescimento da violência na nossa sociedade?
PIERRE WEILL – Existe hoje uma cultura da violência que tem suas raízes nos hábitos, nas crenças, nos estereótipos e nos mitos dos diferentes países do mundo. Estamos no mundo inteiro sujeitos ao que Jean-Yves Leloup e eu chamamos de normose, que é o fato de se considerar como normal crenças, atitudes e comportamentos que são altamente patogênicos, que levam à doença, à violência e mesmo à morte.

LN – De que forma se manifesta essa cultura à qual o Sr. se refere?
PIERRE WEILL – Um exemplo disto são os esportes. Hoje nós temos esportes violentos que são aceitos como normais, como o box, no qual é considerado normal que um homem dê um soco violento na cabeça de outro e que um deles vá ficar incapacitado neurologicamente no futuro. Se considera normal que seres humanos arrisquem suas vidas nos estádios para divertir outros seres humanos, como na touradas. E assim podemos dar inúmeros exemplos. Não é de admirar que a juventude se torne violenta.

LN – Que outros fatores o Sr. identifica como favoráveis para o acirramento da violência?
PIERRE WEILL – Existe uma nova forma de violência que está crescendo entre jovens e adultos e que é conseqüência do narcotráfico. Os traficantes dão um prazo para os seus clientes, quando eles não têm dinheiro para pagar a droga que consomem e os ameaçam de morte caso eles não paguem dentro daquele prazo. Então existe muita gente desesperada que tem que arranjar dinheiro de qualquer jeito, inclusive assaltando e matando.

LN – O Sr. vê algum problema também na forma como as crianças de hoje estão sendo educadas?
PIERRE WEILL – Uma das causas da violência é a falta de educação para a paz. Existem dois extremos: crianças que são inibidas demais, através de castigos, o que já é uma forma de violência; e os que não recebem nenhuma inibição, sob o pretexto, muitas vezes, de uma chamada educação moderna, o que é também errado. Há inclusive a origem social da violência: pessoas que vêm de classes sociais desfavorecidas e que, naturalmente, se tornam rebeldes, revoltadas, o que é, aliás, compreensível.

LN – A revolta é causada também por maus tratos que as crianças e jovens sofrem nos seus lares e que reproduzem nas suas relações. É uma linguagem através da qual elas se relacionam com o mundo.
PIERRE WEILL – Sim, o nosso objetivo é que essa cultura de violência seja transformada numa cultura de paz. É preciso que as pessoas aprendam a resolver os seus conflitos de um modo pacífico.

LN – É preciso, portanto, diferenciar o conflito e a violência?
PIERRE WEILL – Sem dúvida. Existem dois tipos de conflito: o individual, pessoal, que resulta de tendências internas em oposição, e o conflito externo, quando, por exemplo, várias pessoas, grupos ou nações disputam algum objetivo e esse objetivo é escasso. Onde há escassez, geralmente há o conflito. Agora, o conflito pode se tornar violento ou pode ser resolvido de modo terapêutico, se for interior, ou psico-sociológico ou jurídico, se for inter-pessoal ou entre grupos.

LN – De que maneira cada indivíduo pode contribuir para reduzir a violência?
PIERRE WEILL – O primeiro passo é cuidar da violência dentro de si próprio. Ela existe em todos nós. Começa no dia-a-dia de cada um, no que os tibetanos chamam de os três grandes venenos das emoções destrutivas, que são: o apego, a possessividade e a raiva. Eles precisam ser transformados em amor, compaixão e alegria. Isto é uma arte e precisamos nos reeducar cada vez mais. É fácil dizer ao outro para ele ficar calmo, mas não é fácil a própria pessoa se controlar.

LN – Que perspectiva o Sr. vê para nossa sociedade no futuro, num momento em que vemos o acirramento de tantos problemas graves, como o da exclusão social, do narcotráfico, do individualismo exacerbado e da devastação da natureza?
PIERRE WEILL – Nós estamos realmente no fim de um ciclo social e econômico em que estamos exaurindo, por excesso de possessividade dos grupos econômicos, os recursos da natureza. Isto é uma violência muito grande. Nós temos que chegar numa economia viável, auto-sustentável. Temos um confronto essencial, porque uma das fontes da violência é a miséria. Precisamos dar um freio no hiperconsumo, nessa compulsão para jogar todas as coisas fora, que é considerada normal, mas que é profundamente lesiva. Está fora das minhas possibilidades profetizar, mas podemos nos render à evidência de que a vida no planeta está em perigo e que precisamos tomar algumas medidas. A qualidade de vida no próximo milênio dependerá do que fizermos hoje, no nosso dia-a-dia.

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