O Vôo de Chiquinha

ENTREVISTA Chiquinha Gonzaga, irmã do Rei do Baião, fala sobre a carreira e o lançamento do primeiro CD, que tem participação de Gilberto Gil. 
Carlos Ribeiro
A estrela dos Gonzaga continua brilhando. Quatorze anos depois do velho Lua ter passado para o lado de lá, sua marca na música popular brasileira continua forte, com a regravação de várias de suas músicas, além da surpreendente popularidade que o forró pé-de-serra adquiriu nos últimos anos. Agora, é a vez de outro membro da família – a irmã do Rei do Baião, Chiquinha Gonzaga – ganhar o merecido destaque, com o lançamento do seu primeiro CD, Pronde Tu Vai, Luiz?, produção independente com direção e produção musical de Gilberto Gil e Sérgio Chiavazzoli.Mais do que produtor, Gil (que também participa de duas faixas do disco) teve um empenho especial na feitura da obra, inclusive cedendo seus músicos. Atitude bastante generosa, mas baseada, também, no reconhecimento das qualidades de uma artista que já se considerava em fim de carreira.

A entrevista a seguir foi feita na quinta-feira passada, quando Chiquinha Gonzaga esteve, em Salvador, juntamente com os filhos Sérgio e Januário (Zuca) Gonzaga, ambos também músicos, para o lançamento do CD. No mesmo dia, à noite, ela assistiu, emocionadíssima, ao espetáculo O Vôo da Asa Branca, de Deolindo Checcucci, que volta a cartaz, de sexta a domingo, às 21 horas, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves.

P – Como a senhora vê esse momento de revalorização da música nordestina?

R – Acho excelente. Eu, inclusive, sinto que estou revivendo, porque estava decaindo na profissão. Estava somente fazendo shows, não gravava mais nada, me sentia afastada. Quando Gilberto Gil me chamou para participar do filme Viva São João!, eu me levantei, senti uma força. Fizemos o filme, divulguei aqui, em Recife, em Fortaleza, no Rio, várias vezes, graças a Deus foi um sucesso. Agora, aparece o convite para ver essa peça (O Vôo da Asa Branca), sobre meu irmão, que passou no Rio e não tive a oportunidade de ver. Estou muito emocionada com isso.

P – A obra do Rei do Baião continua sendo devidamente lembrada?
R – Ninguém esquece a obra dele, mas é importante que se tenha mais iniciativas como a dessa peça. Em Exu, existe o museu dele, que está chamando muita gente e sei que essa peça vai chegar lá, pro povo ver, na terra dele, na nossa terra. Isso é muito bom e ajuda mais o pessoal, é um incentivo para a coisa não acabar. Gonzaga não pode acabar. Gonzaga tem que viver eternamente e, enquanto eu tiver força, eu tenho mesmo é que ajudar, andar, descobrir, participar. Agora, estou aqui, de frente com o Gonzaga novo (risos. Refere-se ao ator Vitório Emanuel, que faz o papel do músico em O Vôo da Asa Branca). Já peguei o retrato dele e já dei muitos beijos, pois ele é realmente muito parecido. Estou emocionada.

P – Fale um pouco sobre seus irmãos. Quantos eram, no total?
R – Éramos nove. O mais velho, João, morreu muito criança. Quase não lembro dele. Depois veio (Luiz) Gonzaga, depois a Geni, que é a cara dele, Severino, Januário, Zé, que faleceu faz três meses. Aí, tem a Raimunda, depois vem eu, a Socorro, que já é falecida também. Restam vivos a Geni, a Raimunda e eu. Três mulheres.

P – Quem, na sua família, além do seu pai, manifestou pela primeira vez um talento musical?
R – O primeiro foi Gonzaga. Depois, Zé, Severino, e, das mulheres, fui eu. Mas a família toda era de artistas. Não teve um filho de Januário, ou um neto de Januário, que não tivesse vocação artística. Gonzaga fez algumas gravações com a gente. Por exemplo, a última série de O Amor Constrói, fomos nós que fizemos. A Globo levou 12 carros lá para onde nós morávamos. Trabalhamos mais de 12 horas e todos participaram. Inclusive, meu pai tinha sido operado e Gonzaga mandou buscar ele em Exu para participar. E houve muitos outros trabalhos dele que, quando queria fazer um trabalho importante, chegava e dizia: “Como é negrada, estão prontos?”. Era legal. 

P – Quando a família percebeu, pela primeira vez, que ele era um artista especial?
R – Quando começamos a conhecer aquelas músicas dele: Juazeiro, Mula Preta, Meu Pé de Serra… Foi justamente aí que a gente começou a se ligar nas músicas dele, a sentir o orgulho do irmão que tínhamos. Então, ele ficou famoso e foi aquela coisa. Ele já estava gravando aquelas músicas dele que agora está todo mundo regravando. Os forrós batizados como pé-de-serra, que toda vida foi pé-de-serra. Não é agora que ele é pé-de-serra, pois toda a vida ele foi pé-de-serra. Havia aquelas músicas que ele gravava, os chorinhos, que a gente gostava. Daí, a gente foi se ligando. Eu fui me ligando naquilo e pensando: “Quem sabe se eu não vou ficar com ele e ainda ser cantora, né?” (risos).

P – A senhora tocava algum instrumento?
R – Foi justamente nessa época que comecei a tocar os oito baixos de meu pai. Peguei a sanfoninha e comecei a testar. Fui testando, testando e sentindo as músicas que o meu pai tocava. Mas a minha mãe não gostava não, minha mãe não queria. Quando eu entrava no quarto, pegava a sanfona e vinha pra sala, ela dizia: “Largue isso aí, que isso aí é coisa de homem. Isso não é coisa pra mulher tocar”. Mas eu nunca desisti e aprendi realmente alguma coisa. Depois, quando já estava no Rio, achei que não tinha vocação pra tocar acordeão e desisti.

P – Como começou a sua carreira musical?
R – Foi lá no Rio, com o Gonzaga. Fiz algumas gravações, como a canção Pronde Tu Vai, Luiz?, que gravei, neste novo disco, pela terceira vez. Aí, eu casei e fui criar meus filhos. Quando aquele ali (Sérgio) estava com 14 anos, eu senti que tinha que ajudar nos estudos, que tinha que trabalhar pra ajudar. Meu marido era empregado, mas estávamos com três filhos e não era suficiente. Pensei: “E agora? Não sei fazer nada, o que é que vou fazer?”. Aí, houve uma coincidência: o Zé Gonzaga chegou lá e disse: “Eu não tenho sanfoneiro de oito baixos. Se você desenvolver, eu vou fazer seu lançamento”. Em cinco meses, eu estava prontinha. Aí, passei um ano tocando oito baixos. Foi um sucesso. Depois, senti que tinha que cantar. Aí, deu certo, com o acordeão acompanhando.

P – Foi quando a senhora começou a gravar?
R – Sim. Severino, meu outro irmão, me convidou pra fazer um disco. Eu gravei cinco LPs. Fiz shows no Rio e em São Paulo, no estado de Minas, fiz até em Nova Iorque, duas vezes. Ele (Sérgio) me levou duas vezes em Nova Iorque, pra botar o americano para dançar com a sanfona de oito baixos. Foi quando fiquei viúva. Ele foi embora para os Estados Unidos, e eu dei uma guinada na minha carreira. Fiquei com Zuca e continuei a fazer shows, mas dei uma parada nas gravações. Tanto que esse, agora, é o meu primeiro CD.

P – Como aconteceu a gravação deste CD?
R – A iniciativa foi de Gil, uma coisa linda. Em junho do ano passado, a secretária do Andrucha (Andrucha Waddington, cineasta) ligou lá pra casa e disse: “Chiquinha, a gente vai fazer um filme e quer a sua participação. Você topa?” Eu disse: “Não sei, não posso dizer agora não. Eu vou combinar com meus filhos e lhe dou a resposta amanhã”. Então, liguei pra ele, pro outro lá em Nova Iorque, e eles disseram: “A senhora pega, mamãe. A senhora ainda está perguntando? Pega logo!” (risos). Aí, eu marquei com ela, que passou uma tarde lá em casa, fez um roteiro tão lindo, disse o que eu tinha que fazer.

P – Como foi sua participação no filme?
R – Pra mim, não foi uma coisa difícil, porque era uma coisa que eu já sabia. Eu fiz o que eu nasci e me criei fazendo: dançando, cantando nas festas de São João, vendo aquelas coisas lindas que eu gostava, que adorava, né? Depois que fizemos tudo, antes de Gil viajar, ele disse: “Chiquinha, faz muito tempo que você não grava?”. Eu disse: “Tem 18 anos que eu não gravo”. “Por que você não grava?” Eu disse: “Por que não tenho dinheiro. Agora, a gente tem que pagar. Antigamente, eles pagavam a gente, agora é a gente que paga às gravadoras”. Então, ele disse: “Eu vou viajar, e, quando eu voltar, eu vou fazer o seu disco”. “Você vai mesmo?”. Ele disse: “Eu estou dando a palavra de um homem. Me aguarda, hein?” E viajou para a Europa.

P – Cumpriu a palavra…
R – Ele não só cumpriu a palavra, como se empenhou de coração mesmo, fez o trabalho no capricho. Ele sentava na cabeceira da mesa de gravação, no estúdio, e não deixava fazer nada sem a aprovação dele. Eu agradeço muito a Gil e a Andrucha, tanto o filme como o disco me ajudaram demais. Eu estou muito agradecida mesmo. Passei um período assim, de felicidade, de amor. O incentivo ajuda muito, né? Porque você estar fazendo uma coisa e não ter incentivo é muito ruim. Isso foi que me deu coragem para eu trabalhar.

Aval definitivo
Pouca coisa há para se dizer, ainda, sobre o espetáculo O Vôo da Asa Branca, de Deolindo Checcucci, que reestreou em Salvador, na quinta passada. A direção musical de Amadeu Alves, a cenografia e figurino de Euro Pires, a coreografia de Eri Souza e Ana Paula Bouzas, a competente produção de Célia dos Humildes e o afinadíssimo elenco já mereceram elogios efusivos dos críticos em todos os lugares onde a peça foi encenada nos últimos dois anos – além dos prêmios que vem obtendo nesse percurso. Dizer qualquer outra coisa é “chover no molhado”. Mas, além da consagração do público e da crítica, Deolindo e sua trupe receberam, finalmente, o aval que lhes faltava: o de uma representante da própria família de Luiz Gonzaga: sua irmã Chiquinha, que subiu ao palco, ao final, com os filhos, emocionada por ver retratada, ali no palco, a história do irmão dela, que é também uma parte da sua história. Não conseguiu falar muito. “É uma coisa maravilhosa essa que o Deolindo fez”. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *