O silêncio é fundamental

MÚSICA A necessidade de o artista independente lutar pelo próprio espaço é destacado por Danilo Caymmi, que lançará novo disco, O Patriota, em outubro. 
Carlos Ribeiro

Presente em Costa do Sauípe, no início deste mês, quando realizou o show Trilhas, Danilo Caymmi demonstrou rara empatia com o público, que o acompanhou cantando alguns dos sucessos do cantor e compositor, como Casaco Marrom e Andança. O repertório do show – e do disco homônimo, o mais recente dele – trouxe, também, outros sucessos marcantes, de novelas, casos especiais e seriados da TV brasileira, assinados por nomes como Djavan, Ivan Lins, Dori Caymmi e Adriana Calcanhotto. Empenhado, agora, na produção do disco independente O Patriota, que lançará em outubro próximo, Danilo deu a seguinte entrevista, na qual fala, entre outras coisas, sobre a situação do músico independente, num mercado cada dia mais marcado pela profissionalização e pelo atrelamento do artista ao esquema da indústria cultural.

P – Trilhas, nome do show e do CD, dá idéia de caminhada, de percurso. Como você caracteriza esse repertório?
R – Olha, esse show, que fiz em Sauípe, foi uma mistura de vários discos e com algumas músicas do disco Trilhas, o mais recente. Eu cantei as canções que mais gosto. Eu gosto de construir, à minha maneira, canções que já têm uma marca muito forte, como a A Volta do Boêmio, gravada por Nelson Gonçalves e Mentiras, de Adriana Calcanhotto.

P – Como surgiu a idéia de gravar sucessos de trilhas sonoras da TV?
R – Foi uma idéia de Roberto Menescal. Ele conseguiu, na Globo, vários discos com tudo o que tinha sido feito em teledramaturgia, e escolhemos as músicas que ficaram mais adequadas à minha maneira de cantar. O problema é que, quando o disco foi lançado, houve uma briga da gravadora com a distribuidora do disco. Isso me pegou no contrapé, de modo que resolvi não divulgá-lo. Não quis divulgar um trabalho que você não vai encontrar nas lojas. Isso comprometeu o trabalho todo. Foi aí que resolvi fazer o disco que vou lançar em outubro: O Patriota.

P – Como você define esse novo trabalho?
R – É um disco que não faço há muito tempo. Coloco composições minhas, que gravei com músicos de São Paulo, junto com Manu Lafer, compositor e parceiro meu, que achei no programa da Leda Nagle. Quando o vi, na TV, pensei: que músico interessante. Liguei para o pessoal da minha produção e perguntei: quem é esse cara? Acharam o Manu, e fomos para o meu sítio em Minas, em Pequeri, onde passamos dez dias compondo esse disco. São canções sem compromisso com o mercado, nas quais o público chega naturalmente, sem que seja preciso forçar a música para o público. Eu estou com muita esperança nesse disco.

P – Mas o show que você fez em Sauípe foi muito mais em cima do Trilhas?
R – É. Tem muitas coisas de novelas: do meu irmão, do meu pai, do Tom. Tudo foi cantado aqui (em Sauípe). E algumas canções minhas, como essas de Riacho Doce, a abertura de Porto dos Milagres. Enfim, eu tenho uma história que é próxima do ambiente de televisão, que eu gosto muito. Gosto de fazer canções por encomenda. Não é sempre que acontece, mas, quando acontece, eu aproveito a oportunidade.

P – Você não acha que existe uma certa má vontade em relação a trabalhos feitos por encomenda? Isto revela um certo preconceito, considerando que existem excelentes músicas feitas dessa forma?
R – Há muitas obras que podemos citar, assim, logo de cara. Um exemplo: Luíza, de Tom Jobim, foi uma encomenda para a abertura de televisão. Isso é relativo, porque eu acho que, hoje em dia, as pessoas ficam muito atreladas a um passado romântico em que os músicos ficavam olhando as estrelas. Hoje, tudo é muito dinâmico. Os momentos de reflexão são poucos. Você tem que refletir andando. O que está por trás da encomenda? É a motivação. Se você me disser: “Ah, Danilo, você vai ficar uma semana, em Sauípe, compondo”, se eu não tiver um objetivo predeterminado, eu vou para a quadra de tênis.

P – O problema é o artista ajustar seu timing com o da produtora. Paulinho da Viola, por exemplo, teve problemas quando compôs o tema da novela Pecado Capital. Queriam a música quando ele ainda estava procurando a inspiração (risos). O resultado, entretanto, foi um grande sucesso.
R – Papai fez várias canções comigo. E o ritmo do papai, você bota o do Paulinho da Viola e multiplica por seiscentos. Fizemos Porto dos Milagres e pedi umas quadrinhas a ele, e disse: olha, o briefing é Iemanjá. Porque a gente estava em cima do romance Mar Morto. E é um ambiente que a gente conhece: Jorge Amado. Enfim, fiz esse briefing, e saíram coisas assim geniais. Se a gente deixar ele lá, ele está pouco ligando em fazer alguma coisa.

P – Tem que dar mais tarefas para ele.
R – A abertura de Tereza Batista foi encomenda: “Para falar de Tereza, meu bem/ pergunte primeiro a mim./ Tudo o que eu sei de Tereza, meu bem/Conto tintim por tintim”. Que beleza, não é? E foi tudo assim, rapidinho. E se você tem idéia de que papai levou sete anos para acabar João Valentão (risos). E sobre Tereza Batista, tenho uma história gozadíssima. Nesse tempo de televisão, que você está falando, que é muito rápido, eu disse: “Papai, está acontecendo isso, os caras estão precisando de uma música assim e assim, o que é que você acha de a gente fazer? Pode falar a sua visão, a visão do Dorival Caymmi sobre Tereza Batista”. Aí, ele disse: “Pô, tá certo. Tá legal, meu filho. Eu vou ler o livro” (risos). Eu disse: Não é por aí. Você olha pro quadro do Calasans Neto, que está na sua frente, e faz’.

P – Que elemento você considera fundamental para compor?
R – No meu caso, o silêncio é fundamental. É você não ouvir o desnecessário. Eu acho que uma das maiores fontes de poluição, hoje em dia, no mundo, é a sonora. Isso é muito ruim: você ouvir as coisas que não quer ouvir. O silêncio é precioso e o silêncio me motivou muito. Você só ouvir o violão, os passarinhos. Juntar a motivação de querer fazer alguma coisa com o silêncio, a paisagem. A obra de papai, por exemplo, é toda visual, as canções dele são clipes, são filmes e isso passou para mim também.

P – O que impressiona mais na música de Caymmi é a simplicidade. É como uma força da natureza. Parece fácil e, no entanto, é uma coisa tão difícil de alcançar. Como você vê isso?

R – É porque ele é um profundo conhecedor do povo e das coisas da Bahia. Da maneira que ele fala, você conversando com ele, sente tudo, menos o cheiro. Então, quando venho à Bahia, eu procuro sentir o cheiro: o cheiro do sargaço, daquelas frutas todas que também está na obra dele. O cheiro da maresia, o próprio cheiro das mulheres. Agora mesmo, eu estava num hotel na beira da praia e liguei para ele: “Poxa, papai, estou aqui olhando o farol de Itapuã”, e conto pra ele. Porque a gente fica até emocionado quando vê a paisagem que o inspirou, os momentos…

P – Tem alguma história, em especial, que você possa destacar?
R – Há uma história que fala de um momento vivido por papai. Ele estava sozinho, na praia, perto do aeroporto, naquela região do Sofitel, pra cá um pouco de Itapuã…, isso em 1930, trinta e pouco…, quando ele viu um ponto na linha do horizonte e que veio aproximando-se, na direção dele, ele sem saber o que era, e, quando chegou bem perto, era o (dirigível) Zepellim, que passou bem por cima dele. Até hoje, ele fala desse momento.

P – Como você vê o panorama musical, hoje? O músico independente perdeu mais espaço?
R – Sempre foi um espaço difícil, mas você tem que brigar. Hoje em dia, você tem que brigar muito. Não é o fato de você saber cantar, compor, ou seja lá o que for ligado à música, que vai lhe garantir o espaço. Você tem que ser um estrategista também. Como um amigo meu falou outro dia: “Você não pode ficar olhando para o telefone e esperar que ele toque e o chamem para uma gravação”. Isto é um problema que acontece muito entre os músicos. Você tem que fazer a coisa acontecer.

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