O Resgate do Humanismo

A morte do pensamento, a tirania da competitividade, a perda da noção de generosidade são preocupações constantes de Milton Santos.

Jornal A Tarde – 14/01/01 
Carlos Ribeiro

P – O que este livro traz de novo em relação aos anteriores, nos quais o senhor faz uma reflexão sobre o tema da globalização?
R – O pensamento é uma unidade. No Brasil, nos últimos decênios, nós não temos um esforço de trabalho em conjunto. Isto é geral no Brasil. Quando não se têm estudos gerais, abrangentes, você não conta também com o debate, porque você desconhece os fundamentos do que está tratando. Este livro que está saindo obedece, portanto, a três aspectos objetivos: primeiro, o de obedecer a essa ambição, de ser abrangente. É um livro ambicioso, porque o Brasil é muito grande e os autores são pequenos. Segundo, o de reconhecer que a realidade só se exprime como verdade a partir do presente. Não posso estudar corretamente uma realidade a partir do passado, de verdades que foram do passado. Esse livro foi elaborado à luz do mundo de hoje, do mundo da globalização. Terceiro, o de ver que, quando você tenta interpretar uma realidade, você tem que escolher as variáveis explicativas mais significativas. Quanto maior é a realidade, maior é a necessidade de fazer isso.

P – O senhor denuncia a “tirania da informação e do dinheiro” presente no processo da globalização, afirmando que ela atinge praticamente todas as instituições e que até a universidade, que deveria ser o último reduto do pensamento independente, sofre hoje esse processo de cooptação. Isto nos parece bastante grave…

R – A universidade se tornou muito pragmática, virou uma instituição exageradamente institucionalizada. Ela está deixando de ser o lugar do sonho, porque ela pede que você faça aquilo que já provou que pode fazer, enquanto que o futuro é o novo, que não se pode exigir a ninguém que demonstre que ele pode dar certo.


P – Existe, hoje, uma aproximação crescente do mercado com a universidade. Ela pode ter resultados favoráveis para a sociedade como um todo? Existem experiências bem-sucedidas, nesse sentido, em países do Primeiro Mundo?
R – A aproximação das empresas com a universidade é a coisa mais perversa que pode existir. É a morte do pensamento. E o Primeiro Mundo não é exemplo obrigatório para nada, principalmente se se exemplifica com os Estados Unidos, que não são um bom exemplo para coisa alguma, sobretudo na vida acadêmica. O fato é que existe, hoje, uma decisão de se emburrecer voluntariamente.

P – Que utopia será capaz de se tornar um antídoto para esse pragmatismo, mobilizando os corações e mentes dos homens e mulheres do mundo globalizado, do século XXI?
R – A idéia de generosidade que a gente praticou até os anos 60, e que levava à noção de utopia e de possibilidades de realização da utopia, ela voltará. Nós temos que voltar urgentemente a noção de Homem, do humanismo. Isso é que vai ser o grande fanal. Acho que há uma diferença com relação aos séculos passados, porque a feitura da história, até os anos 50, era comunicada às populações pelos pensadores, pelos escritores, pelas mídias. Agora, com a globalização, contraditoriamente, todos nós somos capazes de apreciar a história se fazendo. Mais cedo ou mais tarde, cada um de nós se sentirá mutilado pela realização histórica atual, de tal forma que, ao mesmo tempo que cada indivíduo ganha o sentimento de ser um homem no mundo, ele vai descobrindo que não lhe deixam ser completamente homem. Então, essa idéia de humanismo, em vez de ser ensinada nos livros, ela vai ser ensinada com a própria vida.

P – O senhor atribui um caráter autoritário, ou pior, totalitário, à globalização. Não é um raciocínio estranho perante a idéia de que um mundo, onde a informação circula com mais rapidez e facilidade, é mais propício à democracia?
R – Você tem informação, mas são as formas de trabalho que têm uma função pedagógica, no sentido de que você possa descobrir sua verdadeira condição. Você sabe o que lhe pede seu patrão e para que ele lhe pede aquela quantidade de trabalho. Mas será que sabe mesmo? O debate com o patrão imediato é sempre enviesado. Ele lhe dirá: “Eu não tenho lucro”, “eu pago tal quantidade de impostos”, “se eu lhe pago, eu fecho”. E você vai cotejar isso que ele está lhe dizendo com o mundo tal como ele é. É a partir disso que você poderá ter uma visão crítica da realidade à sua volta.

P – O senhor faz uma crítica contundente à questão da competitividade, considerando-a extremamente perversa e desumana. No segmento empresarial, argumenta-se, entretanto, que é através da competitividade que os produtos, serviços e a própria noção de cidadania são aprimorados. O que o senhor acha disto?

R – Essa coisa da firma social é também marketing. É a mesma coisa de dizer que sabonete Palmolive é bom, que a Kolynos é excelente. O que eles vivem é justamente da competitividade, vivem matando uns aos outros para ver quem permanece no mercado, e quando eles dão algum direito à sociedade é porque ganharam mais, com a isenção de impostos. As pessoas não querem dizer isso, preferem acompanhar a hipocrisia geral, mas é importante que se diga. Ou eles matam ou morrem. Inclusive, faz parte do próprio élan vital. Não se pode pedir que eles sejam generosos, mas tambem não podem nos pedir que a gente diga isso.

P – Em Território e Sociedade, o senhor afirma que decidiu “não brigar para ficar na Bahia”, que a questão era poder se colocar, segundo suas palavras, “sem ter que me chocar com os amigos do passado, com as relações pessoais caras”. O senhor pode esclarecer melhor essa questão?
R – Esta é uma história longa, que precisaria de uma longa entrevista para ser contada. A idéia de ser enterrado aí (em Salvador) não me desagrada. Ao contrário, porque é uma terra sagrada, sempre foi o lugar da minha grande inspiração. Agora, o trabalho intelectual exige uma série de condições materiais ao redor do sujeito. Sem condições materiais, a gente fica sozinho. A minha impressão é que num grande mundo de universidades, os professores mais importantes são feitos prisioneiros deles próprios, condenados a serem solitários, sobretudo depois que a democracia universitária descobriu que todo mundo é igual. Então não pode dar recursos a fulano e não dar a beltrano. O certo é que não foram criadas as condições, e então eu cheguei à idade em que não poderia mais ficar, porque completei a idade constitucional da ausência. Aqui tenho os meios para trabalhar e divulgar o meu trabalho.

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