O Novo Fenômeno Cultural

Ignorado pela mídia, subestimado pelos órgãos estatais, desconhecido pelos estudiosos de cultura, o fenômeno das quadrilhas é gestado em bairros populares.
Carlos Ribeiro
A TARDE
01/07/2000
Elas chegam com todo o gás. Antes mesmo de serem anunciadas, começam a gritar, no lado de fora do palco, fazendo coro com uma platéia ruidosa, que, lotando as arquibancadas, vaia, aplaude e agita-se, como as torcidas de um grande time de futebol. Você passa os olhos ao redor e não acredita no que vê: roupas coloridíssimas, caveiras de boi, bonecos gigantes, bumba-meu-boi, um sem-número de adereços e aviamentos que compõem a parafernália dos cenários. O locutor anuncia a entrada do grupo, uma luz verde acende e o show começa.

Começa, não, dispara! Nenhum cavalheiro cumprimenta as damas, ninguém mais grita “olha a cobra”, nem entra em amorosos túneis de braços e mãos entrelaçados. Em vez disto, casais de “caipiras” estilizados invadem o centro do tablado, misturando, com movimentos vigorosos, dança aeróbica, jazz, dança moderna e “suingue baiano”, além de xotes e xaxados quase indecifráveis. Marcadores anunciam o tema e o enredo, misturando temas diversos, como novelas de TV, personagens folclóricos, filmes de Mazzaropi e outros.

Cenários são montados e desmontados. Num passe de mágica, surgem caravelas portuguesas, telão de cinema, até uma reconstituição da Primeira Missa do Brasil. Tudo isto ao som não dos tradicionais conjuntos regionais – de sanfona, zabumba e triângulo –, mas de bandas modernas, com guitarras, violões, percussão e sintetizadores. Depois, o arranco final, ao som de uma gritaria ensurdecedora, e vários pares de dançarinos correm para fora do palco. Num atropelo frenético, homens e mulheres caem no chão, sofrendo desmaios, conseqüência do demasiado esforço físico.

Essa é uma descrição sucinta de um fenômeno cultural novo que acontece em Salvador. Uma “Broadway” tupiniquim, de periferia, que, despercebida pela mídia, subestimada pelos órgãos culturais do Estado, desconhecida pelos estudiosos de cultura, é gestada em bairros populares, como Cabula, Boca do Rio e Engenho Velho de Brotas. Ali, um número cada vez maior de profissionais constrói um novo tipo de espetáculo, por detrás de um rótulo antigo – o das quadrilhas de São João.

Quadrilhas de São João? Não as singelas apresentações que ainda animam as festas juninas no interior da Bahia e de outros Estados do Nordeste. Nem a festa popular que se originou das danças de salão das cortes francesas, e disseminou-se entre as populações rurais do Nordeste. Mas uma forma de expressão mista, que, rebelde e indisciplinada, quer romper “a casca do ovo”, para se expressar livremente.

Lúdicas, profissionais e rentáveis

Das apresentações singelas às estilizadas, as quadrilhas, aos poucos, profissionalizaram-se, e, hoje, são um verdadeiro negócio.

As quadrilhas de Salvador são um fenômeno comunitário, mas que passa por um processo intensivo de profissionalização. A preparação de um espetáculo envolve coreógrafos, figurinistas, músicos, atores, dançarinos, cenógrafos, maquiadores, costureiras, estilistas, pesquisadores e até preparadores físicos. A um custo médio de 15 mil reais, leva seis meses para ser montada, envolvendo trabalhos de pesquisa, que resultam em debates, leituras e reflexões sobre o tema escolhido. “Graças a elas, as pessoas são obrigadas a ler e a pensar”, diz Antônio Soares, ator do Teatro Vila Velha e marcador da Asa Branca. Para custear as despesas, muitas entidades funcionam como blocos de carnaval: os associados pagam um carnê anual, com valor médio de R$ 250,00, dividido em cinco prestações de R$ 50,00.

Fonte de empregos
O universo das quadrilhas de Salvador é composto, basicamente, por pessoas de classe média baixa, que moram em bairros populares. Envolve estudantes, funcionários públicos, técnicos em administração e contabilidade, comerciantes e outros profissionais, com renda média mensal de R$ 250,00 a R$ 600,00. Segundo Aguinaldo Silva, 50 anos, um dos coordenadores da Buscapé e presidente do bloco Filhos de Gandhy, “as quadrilhas são, atualmente, uma importante fonte alternativa de geração de empregos, que precisa ser estimulada”.

Aspecto pedagógico
Um aspecto de grande importância das quadrilhas de São João é o pedagógico. Isto é visível, ainda mais, na categoria infantil, na qual funcionam como um teatro popular, em que se encenam peças, com uma história, um enredo. “As crianças mobilizam-se durante vários meses, pesquisando temas, discutindo-os e promovendo atividades extraclasses, como gincanas, apresentações teatrais, festivais de pipoca e de sorvete, que envolvem toda a comunidade”, diz Rosival Teles Correia, 34 anos, presidente da Forró Lelê, vencedora do concurso do Arraiá da Capitá, este ano. Os bairros mais fortes, atualmente, na categoria infantil, são Boca do Rio, Liberdade, Pirajá e Engenho Velho de Brotas.

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