Não há paz sem justiça

ENTREVISTA – Autor de clássicos do reggae, Jimmy Cliff fala, com exclusividade para o Caderno 2, sobre a necessidade de escutar-se o canto de protesto que vem das periferias.

Jornal A Tarde – 13/03/01
Carlos Ribeiro

Desde 1980, quando esteve pela primeira vez em Salvador, o astro jamaicano Jimmy Cliff vem construindo uma sólida ligação com a Bahia. Ligação essa que foi intensificada, a partir de 1992, com o nascimento de Nabiyah, filha dele com a terapeuta Sônia Gomes. “A minha conexão com a Bahia, hoje, é uma conexão de sangue”, diz ele, acrescentando que o fato de ter uma filha baiana faz com que ele procure estar sempre inteirado do que acontece, hoje, no Brasil, em termos culturais, sociais, políticos e espirituais. Autor de clássicos como Bongo Man, Reggae Night, Wonderful World, Beautiful People, Vietnan e Rebel in Me, dentre outros, Jimmy foi o principal criador e divulgador do reggae – ao contrário do que muitos pensam, ele iniciou, antes de Bob Marley, o gênero que influenciou grandes expoentes da música pop, como Paul Simon, Johnny Rivers, Rolling Stones, Beatles e The Police. Na longa entrevista exclusiva concedida ao repórter do Caderno 2, com a participação de Sônia, como intérprete, Jimmy falou, dentre outras coisas, sobre o futuro do reggae, sobre o rap e sobre a relação da música de raízes negras com a explosiva situação social existente nas periferias das grandes cidades brasileiras. É preciso haver paz, diz ele, mas, para isso, precisa haver justiça. “Se você quer paz, você tem que ter justiça”, afirma. Confira, a seguir, alguns trechos da entrevista.

P – Que avaliação você faz do reggae, hoje, como gênero musical? Que tendência você acha que ele deverá tomar?
R – Em termos de contexto, ele tem que evoluir para um canal mais alto, para um padrão espiritual mais alto. Em termos de ritmo, eu acho que tem que mexer na forma também. Não sei que forma poderia ser, misturar isso com o que já existe. Porque a gente só pode saber quando se sente a necessidade de criar alguma coisa nova. As inspirações e a criatividade estão no ar. Qualquer artista pode sintonizar com isso, e consegue. É como estou neste momento, tentando sintonizar, para tentar conectar vibrações novas, com este novo tempo que está surgindo.

P – O rap é um herdeiro do reggae, inclusive no sentido de ser um movimento político, que tem o objetivo de realizar mudanças sociais?
R – Exatamente. O rap expressa, socialmente, politicamente e culturalmente, o que o reggae era nos anos 70. Ele aponta os defeitos do sistema, mostra a realidade. Esses cantores envolvem as pessoas. Na Jamaica, temos o Bounty Killer, que é mais ou menos assim. É uma epidemia pública. A mensagem deles é como um tiro, uma bala. Mas numa forma de poesia, que nós chamamos de rap.

P – O rap é uma coisa nova, também, na Jamaica?
R – Ele é um desenvolvimento do reggae, mas, em suas raízes, não é uma coisa nova. Nós temos uma tradição oral na África, e, se você for olhar lá, é bem mais antiga. Lá, eles contam uma história oral para a gente ao mesmo tempo que tocam tambores. É o mesmo espírito que está vindo hoje, expressando o que acontece na sociedade. Supera essa pequena diversão, esse entretenimento que tem predominado na música e que tem a sexualidade como elemento principal. Isso não é suficiente. E as pessoas têm um lado da vida delas que têm de expressar.

P – Pode-se destacar, hoje, no Brasil, duas atitudes da música de raízes negras, relacionadas com a realidade social das populações das periferias: uma, alegre, mais carnavalizante, associada a um trabalho social localizado; outra, com uma atitude política mais radical, representada por alguns grupos de rap. Na sua opinião, qual delas atende melhor à necessidade das comunidades pobres, especialmente das comunidades negras?
R – Penso que é necessário expressar o lado radical, mas é preciso muita sabedoria quando se toma a decisão de fazer isso, porque você vai contra o sistema. Se você vai contra o sistema, demais, ele pode eliminá-lo fisicamente. Na América, você teve Martin Luther King e Malcolm X. Malcolm X era o radical. Ele disse: “Conseguir o que for necessário. Se for necessário a violência, nós vamos tê-la”. E Martin Luther King disse: “Eu tenho um sonho: o de ver todas as nações e as pessoas, brancas, judeus, negras, andando de mãos dadas”. O sistema matou os dois, e, hoje, você ouve mais falar de Martin Luther King e menos de Malcolm X. É a mesma situação. Você precisa aprender com o que já passou, com a história. Se você observar o passado, muitas coisas que Martin Luther King falou podem ser certas. Mas, às vezes, não são suficientes. Você também tem que ver outras formas, tem que olhar com seriedade esses dois lados.

P – Mesmo porque está aí uma geração que não tem mais nada a perder e que está expressando isso através da música. Uma geração que não tem medo de nada, não é mesmo?
R – Sim, e nós precisamos fazer algumas coisas a esse respeito. Precisamos pensar com muita seriedade sobre isso. É uma atitude semelhante à de alguns grupos da América, como o Panteras Negras. Esses grupos, atualmente, fazem a mesma coisa, mas com músicas diferentes. A arma é a palavra. Você não está brigando com uma arma. Então fica mais difícil para o sistema eliminar você. É preciso sabedoria para equilibrar os dois lados. Eu compus uma música chamada Peace, que foi um grande sucesso no Brasil. Parece uma música romântica, mas ela diz: “Como pode ter paz, se não há justiça? Você não pode ter paz sem ter justiça. Se você quer paz, você tem que ter justiça”.

P – Como é sua relação hoje com a Bahia?
R – Ela é muito mais do que com a música. Eu tenho uma filha aqui. É claro que eu tenho sempre estado consciente a respeito da realidade social e o que eu posso fazer é expressar através da minha música o que eu vejo e o que eu sinto. A minha conexão com a Bahia, hoje, é uma conexão de sangue. Eu agora estou mais preocupado com o que está acontecendo aqui, muito mais do que antes. Socialmente, espiritualmente, culturalmente, todos os aspectos do Brasil me chamam a atenção mais do que antes.

P – O que você acha da música baiana, hoje? Dessa tendência carnavalesca, da ênfase excessiva no corpo, na sexualidade?
R – Eu acho que isso tem que ser elevado de uma forma social, política, espiritual e cultural. De onde está, deve ser elevada. Não o contexto, mas o nível da música. A música, como sabemos, é uma expressão da sociedade onde vivemos. Nessa sociedade tem polaridades e você não deve ficar somente num lado dessa polaridade. Se você observar a música brasileira do ponto de vista criativo, vai ver um destaque maior nos anos 60, 70, até os anos 80, com pessoas como Gilberto Gil, Caetano, Chico Buarque, Milton Nascimento, que é um dos mais brilhantes músicos dentro do conceito internacional. Se você olhar para as músicas que esses artistas fizeram, daqui a 40 anos, continuarão sendo uma coisa muito substancial. Mas o que você ouve hoje, daqui a alguns dias, a alguns meses, você não vai escutar mais. Então eu acho que o nível precisa ser elevado.

Sônia – Ele diz em uma música que fez em homenagem a Bob Marley: “Chamem os santos. Músicos, artistas, vamos chamar os nossos ancestrais para nos inspirar, como artistas, porque podemos manter e elevar o nível das músicas, a filosofia da música, como nos tempos que você estava aqui”. É muito lindo isso.
R – Alguns desses artistas de hoje, inclusive, não têm consciência de que nós podemos chamar esses espíritos. Que nós podemos chamar essas forças que existem em volta da gente, que nós podemos chamar esses seres. 

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