Luzes sobre o subúrbio

PERIFERIA – Lideranças comunitárias avaliam benefícios da peça Boca de Ouro para o Subúrbio Ferroviário e reivindicam maiores investimentos. 
Carlos Ribeiro
Jornal A Tarde

O trem parte, numa noite chuvosa de domingo, da Estação da Leste, na Calçada, em direção ao Subúrbio Ferroviário de Salvador. No interior do vagão, acomodadas nos bancos laterais, cerca de 50 pessoas assistem à peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, na adaptação criativa e ousada do diretor Fernando Guerreiro, apoiada num elenco afinadíssimo, composto pelos atores Agnaldo Lopes, Andrea Elia, Edmilson Barros, Evelin Buchegger, Fafá Menezes, Marcelo Prado e Widoto Áquila.

A trama – que envolve versões controversas de um crime, reconstruídas num quebra-cabeças passional, entre portas que abrem e fecham, personagens que entram e saem, tiros, sexo e traições, perfeitamente sincronizados – proporciona uma experiência singular: a sensação, ao mesmo tempo vertiginosa e claustrofóbica, de que se testemunha, ao vivo, um drama que se repete todos os dias longe dos palcos iluminados da cidade.

Enquanto isso, do lado de fora, corre a paisagem típica do subúrbio, com suas casas modestas sobre encostas cobertas de capim e bananeiras, ruas estreitas, terrenos baldios, varais, igrejas evangélicas, grades, campos de futebol, praias e sítios bucólicos. À esquerda, na Baía de Aratu, barcos flutuam, tranqüilamente, sobre a lâmina-d’água.

Nas estações, em cada parada, grupos de crianças fazem a festa, gritando, em coro, o nome de dona Guigui – personagem interpretada por Andréa Elia. O entusiasmo, proporcionado pela novidade, parece mostrar um sinal vibrante do impacto que a ousada experiência de Guerreiro exerce sobre as comunidades daquela área. E a percepção de que a realidade expressa na peça, cuja história desenrola-se num subúrbio do Rio de Janeiro, nos anos 50, encontra, como num espelho, um reflexo daquela extensa área formada por cinco bairros (Paripe, Periperi, Plataforma, Ilha de Maré e Lobato), que se desdobram em outras 15 localidades, nas quais vivem cerca de 700 mil habitantes.

Experiência similar
A semelhança é ressaltada por diversos líderes comunitários e por funcionários da Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU, que tiveram a oportunidade de assistir à peça, em sessão especial, promovida pela Companhia de Teatro da Bahia, responsável pela produção do espetáculo. É o que mostra o presidente da Associação Beneficente dos Moradores do Bairro de Lobato, João Pires Nascimento, quando afirma que gostou muito da peça, “porque ela conta a vida do subúrbio, como ele é no dia-a-dia”.

O universo violento do jogo do bicho, mostrado na peça, é, segundo a presidente do Clube de Mães de Felicidade, Maria Rosa, bem semelhante ao do local. “Isso que passa no teatro tem muita coisa da nossa realidade. Eu conheço um homem que apostou a própria filha no jogo. Existem vários relatos de pessoas que apostam a mulher, a filha, a casa”, diz ela. “O Subúrbio Ferroviário é uma área perigosa e muito carente. Se você mergulhar nela, você vai encontrar muita gente parecida com o Boca de Ouro”, afirma o Secretário do Conselho da Administração Regional do Subúrbio de Lobato e Ilha de Maré, Gerson Teixeira, mais conhecido como Deco da Suburbana.

Ao fascínio exercido pelo espetáculo, assistido até agora por um restrito número de moradores, soma-se, entretanto, a frustração da grande maioria que não tem condições de pagar os 20 reais (inteira) ou dez (meia) pelo ingresso. “A peça é muito cara para o poder aquisitivo da população do subúrbio. Quero pedir que a produção libere mais cortesias”, diz o diretor da Associação Nova Aliança dos Moradores de Praia Grande, João Brito.

Ele acrescenta que, um dia, quando o trem parou numa estação, uma mulher ouviu os tiros que foram dados por Boca de Ouro (com balas de festim) e ficou apavorada. “Eu disse que não eram tiros, que era uma peça de teatro muito bonita, que colocaram tapete vermelho no trem, um luxo. Ela ficou morta de vontade de ver, mas sem ter condições”.

Para o ex-presidente da Administração Regional (AR16), Antenor Souza Barbuda, “é muito importante que abram mais espaço para a população, pois as poucas pessoas que tiveram esse privilégio saíram muito satisfeitas”, diz ele. Mas, segundo a produtora da peça, Sibele Américo, a crítica não procede. “Foram oferecidos seis espetáculos para a comunidade, inclusive com o compromisso da CBTU de disponibilizar um trem para levar as pessoas de volta. Mesmo assim, só conseguimos fazer dois espetáculos, devido à falta de público”, diz ela.

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