Hora é de gritos, nada de sussuros

Jornal A Tarde

Carlos Ribeiro – O senhor vem acompanhando e participando ativamente, nos últimos 40 anos, do movimento das artes plásticas baianas. Como vê o atual momento, em relação a outros que viveu?
Juarez Paraíso – Nós tivemos um hiato nas décadas de 70 e 80 com a repressão da ditadura militar. De repente, a partir dos anos 90, há um reflorescimento. Surgem artistas fantásticos, como o Marepe, o Joãozito, Iêda Oliveira, que estão sendo incentivados, principalmente por realizações como essa: os salões regionais, a Bienal do Recôncavo, o Salão estadual. Enfim, tem aparecido uma geração capaz de sustentar toda essa tradição de modernidade e de contemporaneidade da Bahia. Mais ainda: uma geração capaz de se situar no mesmo nível de artistas de metrópoles como Paris, Tóquio e Nova Iorque. Existe uma modernização muito grande e jamais vamos poder ser taxados de provincianos. São artistas que têm um nível internacional, não tenho a menor dúvida.

Qual a linguagem que vem tendo maior destaque, ultimamente, dentre essas diversas que estão aqui representadas?
JP – Felizmente tem acontecido de tudo e, mantendo um pouco o que existe de mais tradicional na arte moderna, o que significa uma incorporação à pós-modernidade. É a arte do vídeo, é a performance, mas numa dimensão muito diferente das características tradicionais da arte do vídeo e da performance. Há realmente uma dilatação, o que significa um compromisso com a contemporaneidade. Um acréscimo e isso é que é importante. A gente não está repetindo as fórmulas de Tóquio e de Paris.

Com relação ao seu trabalho: qual é o caminho que ele está tomando, atualmente? Qual é a sua maior ênfase?
JP – Eu sempre recusei o folclorismo, quer dizer, a tradição folclórica baiana, que é fantástica. Agora tenho trabalhado sempre com o computador, no sentido de recuperar um tempo que eu perdi. Eu fui professor durante 42 anos e a minha vida profissional, como artista plástico, foi sempre muito ativa, mas deixou um pouco a desejar. Eu vivenciei mais o processo da pesquisa artística e a transmissão dessa vivência para os meus alunos, mas não tive melhores opções em termos de sucesso pessoal. Agora é que estou tendo a oportunidade de me dedicar exclusivamente às artes plásticas e o computador foi uma espécie de premiação. É a reconquista do tempo. Eu posso realizar hoje, num prazo curtíssimo de tempo, o que eu jamais poderia fazer há 10, 20 anos atrás. Enquanto eu levava 30, 60 dias, fazendo um desenho ou um mural, hoje eu faço numa noite 10 a 15 composições diferentes. E as opções hoje são muito mais importantes, do ponto de vista da rapidez e do tempo, contando com a experiência que eu já tenho.

A utilização do computador, pelo artista plástico, não envolve riscos, no sentido de que venha a perder suas características individuais?
JP – Quem se inicia no computador tem um percurso muito rápido, porque o computador não é brincadeira. O que ele oferece é fascinante, quase mágico e se você vai na onda dele, você pode se atropelar. Você tem que recusar o que ele tem de mais universal, no sentido de padronizar, de nivelar. Buscar nele recursos novos que atendam suas aspirações como artista. Jamais substituir o que se fazia pelo computador, mas procurar fazer através do computador. Eu jamais faria aquarelas através de programas próprios que existem no computador, jamais eu faria pinturas a óleo através do computador. O que eu puxo é o recurso que o computador possui, mas não aquele que todo mundo usa. Quer dizer: é uma coisa difícil e complicada. Significa que o computador é apenas instrumento, nada mais que isso.

Afirma-se que ainda persiste uma defasagem de informação na Bahia, em relação ao que acontece nos centros mais avançados, gerando obras que se querem contemporâneas, mas não passam de cópias. Que acha disso?
JP – O que posso dizer a esse respeito é que a geração de 90, essa que agora vai surgir, é completamente diferente da minha. Ela é muito mais entrosada, muito mais dinâmica, muito mais viva e esperta. Não tem mais nada a ver com Bahia, em termos de tradição, nem de mercado, inclusive. É gente que discute outras alternativas. É gente como Joãzito, Iêda Oliveira, entre outros. Enfim, não tem nada mais a ver com a minha geração. É gente que já tem acesso ao computador, à internet, lê jornais, lê revistas, participa da globalização, no melhor sentido.

É uma geração insatisfeita, como foi a que marcou o movimento modernista aqui na Bahia, embora pareça ser mais acomodada, mais individualista?
JP – Tem gente insatisfeita com tudo. Eu digo: insatisfeita, e buscando uma valorização mais coletiva com uma linguagem mais universal. Não tem nada a ver com artistas como eu ou outros da minha geração, ou com a geração anterior à minha. Eu, por exemplo, gostaria de ser um artista eletrônico, e não sou. Porque eu tenho atrás de mim toda uma tradição artesanal, da Escola de Belas Artes, da produção de arte impressa. Nós somos dependentes da impressão. Nós buscamos uma linguagem pós-moderna, mas com uma herança terrível, que é a da arte moderna. Essa geração de agora não tem compromisso com nada.

Acha isso uma vantagem? 
JP – Acho fantástico, porque eles estão construindo uma coisa nova. O artista eletrônico não quer nem saber de impressão. Ele se contenta com outros conceitos. Ele dá o trabalho dele gratuitamente para o japonês, para o indiano, que é o camarada que está do outro lado do mundo, sem esperar nada. O cara se apropria do trabalho dele e faz uma nova transformação, inventa novas coisas em cima da base dele. Não há mais compromisso com o mercado, nem com coisa alguma. Então é uma visão nova, não tem nada a ver com a da minha geração, toda eivada de vícios.

Mas essa tradição moderna não é o que deu marca de autenticidade ao trabalho de vocês?
JP – A marca de autenticidade importante é justamente a da insatisfação. Nós tivemos uma formação muito rígida, nós iniciamos a Bahia como um centro de sedução, porque a Bahia realmente corrompe qualquer artista. Se o artista faz uma opção de sobrevivência pelo mercado, ele não tem nada a fazer. Se ele depende, em termos de sobrevivência, do trabalho dele, ele acaba cedendo e fazendo uma série de concessões, uma prostituição estética irrecusável, porque dinheiro é bom e todo mundo quer. Então, é uma questão de opção. Porque realmente o fascínio da sobrevivência pelo dinheiro é terrível. É muito grande. Eu conheço artistas que vivem muito bem, agora eu não sei o que se passa interiormente com eles, como seres sensíveis, como alguém que poderia dar uma contribuição muito maior na renovação das coisas. E há também, além da opção pela sensibilidade estética, uma opção política, uma percepção política que ultrapassa esses limites de sedução. A Bahia é uma grande academia que corrompe qualquer artista, haja vista o que acontece na música e nas artes plásticas.

Como vê a questão dos murais, que parecem não ter, hoje, apesar do trabalho feito por Bel Borba e outros, a mesma ênfase de antes. Como vê esse ramo das artes plásticas, aqui na Bahia?
JP – Eu acho que a Bahia não tem, realmente, uma tradição de mural, como já existiu em outras épocas, em alguns países. A Bahia tem alguns muralistas, mas não há uma cultura do mural. Não há um compromisso com as grandes empresas e com os edifícios particulares ou públicos. O próprio governo dispensa qualquer vínculo. Ele não está interessado nisso; se tivesse, seria fácil aprovar uma lei que vinculasse qualquer contrução pública a uma obra de arte, como fizeram os mexicanos, historicamente, através da grande revolução mexicana, ou como alguns países civilizados, como a Alemanha, onde a comunidade participa até fazendo doações, para que o seu bairro, o seu prédio tenham uma obra de arte.

O governo deveria incluir essa preocupação na sua política de intervenção no espaço público?
JP – Que custo haveria para o governo, se ele vinculasse a construção pública a uma obra de arte? A um trabalho monumental, não a um quadrinho, mas ao mural com uma escultura monumental. As escolas públicas estão aí com as paredes completamente brancas. E o que custa ao governo lançar, do ponto de vista ético, uma licitação para aquisição e para contratação de serviços artísticos? A lei de licitação federal dispensa, numa incompreensão absoluta do legislador, a licitação para obra de arte e serviços públicos. É um absurdo, uma aberração. Isso possibilita o quê? Possibilita ao governo contratar o artista que ele acha que deve contratar e dispor do orçamento público para uma obra que muitas vezes é duvidosa, enfeando a cidade, comprometendo culturalmente a cidade e resultando num grande prejuízo.

Poderia apontar algum exemplo?
JP – Existem pseudo-obras de arte colocadas como marco cultural e que disseminam um conceito completamente equívoco e ambíguo. Isso é terrível! O que é que custa ao governo ter um mínimo de disponibilidade para criar comissões com pessoas, com técnicos, com críticos de arte para, pelo menos, na pior das hipóteses, escolher o artista a ser convidado? Já que para ele é impossível agir democraticamente do ponto de vista da concorrência pública? Porque parece ser uma coisa do outro mundo o legislador e o executivo imaginarem a possibilidade de fazer uma concorrência pública para a aquisição da obra de arte. Acham que a obra de arte não pode ser legislada, que não há como criar referências para julgar, então escolhem fulano ou beltrano e, com isso, criam um abismo entre o verdadeiro artista, aquele que vive de arte, que não faz concessões, e a obrigação que tem o executivo de colocar na cidade referências culturais.

Que juízo faz de Salvador, hoje, nessa perspectiva?
JP – Salvador hoje é uma cidade que realmente não possui obras de vulto, de destaque, do ponto de vista de uma referência estética. Existem arremedos, comprometendo a estrutura paisagística da cidade. E é tão óbvia a necessidade de atuar através de concorrência pública, uma iniciativa ética, moralizadora. Além de tudo, a diversificação é sempre salutar. Por que concentrar num só artista a construção de obras monumentais? Mais democrático seria distribuir equitativamente entre vários artistas, dando oportunidade a todos.

De quem é a culpa de tudo isso?
JP – Eu não acredito nem que seja culpa do líder executivo. Eu acho que é mais das pessoas que estão ao redor, das pessoas que o assessoram e que podiam ter um compromisso cultural muito maior. É difícil para o artista ter acesso a essas pessoas. Quem chega mais perto acaba como o mais beneficiado. Então o eixo da questão está na dificuldade de relação entre o artista, que é um cidadão comum, com o poder político decisório. Nós tentamos criar uma associação de artistas, mas eles são também desinformados politicamente, não acreditam numa consciência mais coletiva, mais profissional.

Que avaliação o senhor faz das obras que foram apresentadas na Bienal do Recôncavo?
JP – A minha impressão foi a melhor possível, pois eu percebo que a Bienal não parou, como quase sempre acontece com os eventos oficiais. Eu acho que a renovação foi sempre constante, porque o artista aqui não fica prevendo qualquer tipo de injustiça ou com as famosas marmeladas, que existem em vários salões do Brasil. A Bienal daqui se caracteriza pela imparcialidade. A Bienal do Recôncavo e os salões regionais são as duas grandes realizações nessa área das artes-plásticas. Eu espero que essas realizações não desapareçam, que sejam irreversíveis. A qualidade da Bienal tem se sustentado e eu espero que ela inspire as pessoas responsáveis a dar continuidade a ela.

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