Hora do conceitual: Tudo ou nada

Salão que se inaugura dia 15 discutirá rumos das artes contemporâneas
Carlos Ribeiro
A abertura do Salão Nacional de Artes Plásticas, no próximo dia 15 de dezembro de 2002, que prosseguirá até 4 de fevereiro de 2003, no Museu de Arte Moderna da Bahia, colocará mais uma vez em pauta uma questão que vem sendo discutida nas principais bienais do mundo: a dos rumos que as artes estão tomando, ou devem tomar. Existe, de fato, uma passagem da arte moderna, ainda centrada na questão estética, para uma arte contemporânea, cujo foco principal é o pensamento, ou, mais precisamente, o conceito? Ou mesmo uma arte pós-conceitual? São perguntas que povoam mentes ilustradas. A realização, recentemente, também no MAM, das exposições Pintura 2002 e Arte 2002 – reunindo de um lado nomes consagrados do modernismo baiano, como Sante Scaldaferri, Juarez Paraíso, Chico Liberato, Mário Cravo e Juracy Dórea, e, do outro, expoentes da arte contemporânea, como Iuri Sarmento, Zivé Giudice, Leonel Matos, Caetano Dias, Sérgio Rabinovitz, Paulo Pereira e Vauluizo Bezerra – já foi uma prévia do que se espera deste Salão Nacional: uma reflexão sobre o que, de fato, está acontecendo neste território instável de um século no qual até mesmo um dos maiores atentados terroristas do mundo é lembrado como uma grande performance – uma formidável, apesar de assombrosa, “obra de arte”. Estas são algumas das questões colocadas, na entrevista a seguir, pelos artistas plásticos Sante Scaldaferri e Chico Liberato e pelo diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia, Heitor Reis, que, recém chegado da 11ªDocumenta de Kassel, na Alemanha, afirma ter sido este evento “um rompimento da questão estética para que a arte conceitual assuma definitivamente o seu momento”. Será mesmo?Carlos Ribeiro – Heitor, quais foram as principais questões colocadas nesta 11ª Documenta?
Heitor Reis – A 11ªDocumenta de Kassel já é um referendo do que foi a 10ªDocumenta. Ela se propunha, naquela época, a oficializar um momento pensante na arte contemporânea, na arte universal. É um rompimento da questão estética para que a arte conceitual assuma definitivamente o seu momento. Tudo isso começou, e essa movimentação não é de agora, com Duchamp, que é um momento forte da década de 60. Mas esses últimos 20 anos foram de questionamento, se o caminho era esse ou não. A 10ª Documenta consumou esse rompimento total, foi a oficialização da arte conceitual, da arte contemporânea num processo histórico de cem anos. Ou seja, o que vai prevalecer é o pensamento, é a reflexão, é a política, é a ética dentro da estética, sem a preocupação de detonar a pintura, por exemplo, que é a grande dúvida, a grande problemática.

CR – Já não se acredita que a pintura morreu?
HR – Eu acho que a pintura está aí, as pessoas necessitam da estética para poderem viver, e a pintura é basicamente estética, não é mais do que isso, ao meu ver. Mas a questão agora é a de se abrir o espaço para o pensamento. A pintura já não pode exigir mais nenhum questionamento, não pode influenciar, não nos remete ao pensamento, a um questionamento, a uma questão ética, política etc. No mercado a pintura não morreu, ela está aí, ela é consumida, os leilões estão aí, existem milhões de artistas que fazem pintura no mundo inteiro. Ela tem o seu espaço dentro da perspectiva histórica. Mas, hoje a pintura está aparecendo fortemente em outros segmentos: na fotografia, no vídeo, nas performances, quer dizer, ela está aí presente. A pintura não morreu, só que o suporte está mudando e as outras formas de fazer arte é que podem representar esse momento, o momento político, o momento do pensamento, o momento conceitual.

CR – Existe, hoje, uma ênfase muito grande na questão social, não é mesmo?
HR – Sim, e essa Documenta representa muito isso: a questão da pobreza, a questão da arte negra, que sempre foi absorvida. O que antes se falava era da arte primitiva, arte africana, que Picasso foi buscar. Hoje não, hoje a arte negra está batendo dentro do sistema, com muita força, e essa Documenta referenda isso fortemente, colocando em igualdade de condições a África, a América Latina, com o respeito a cada cultura. Isso veio com a globalização. O que prevalece hoje é o Terceiro Mundo. Por que Terceiro Mundo? Porque é onde sobressaem os problemas sociais, onde a estética está vinculada ao problema social… E há grandes questões, no mundo, que exigem uma abordagem. Por exemplo, em vídeo, a imagem mais significativa deste século é a dos atentados do 11 de Setembro. Aquilo é real, merece uma reflexão sobre o poderio americano, sobre o capitalismo…

CR – Um grande happenning?
HR – Com certeza! Não existe imagem mais forte neste século do que aqueles aviões batendo nas torres. Bateram mais fundo e nos fazem refletir. Graças ao recurso técnico que uma câmera daquela, pequena, oferece, ela pegou uma imagem e por trás dela tem muita coisa. Ela é documento de um acontecimento que mostra o que está havendo no mundo todo agora. E aí está o conceito, e a imagem vem com o conceito. E o conceito vai longe. O que importa é que você esteja atento ao que está acontecendo de importante no mundo. Essa coisa de você ver o que aconteceu com as Torres Gêmeas, você tem que ver com um olhar muito profundo, o poço é muito fundo ali.

CR – Que linguagens predominam, hoje, na arte contemporânea?
HR – O que predomina hoje são as fotografias, os vídeos. Há, por exemplo a pintura de uma mulher afegã que é a coisa mais linda que eu vi nesses últimos anos. Ela ganhou tudo de prêmio, é lindo. E sabe o que é isso? Um vídeo. E não é cinema, é vídeo.

CR – Mas quando você se refere à beleza do vídeo, não continua remetendo à questão estética? Ela não continua sendo, portanto, o ponto central da arte?
HR – O estético é importante, mas, para muitos artistas, a estética não interessa. Eles estão tratando de uma outra coisa. Se o artista conseguir juntar os aspectos ético, político, social com a estética é maravilhoso, ele conseguiu, mas isto não é o principal. Hoje, as pessoas precisam de um pensamento, de uma reflexão, não só estética, do gosto disso ou não gosto, não é por aí.

Chico Liberato – O que é a estética? É filosofia da arte, é alguma coisa que lhe encanta, que lhe desperta uma percepção além, que só é arte se ela ultrapassa a informação… O que os abstracionistas deram de contribuição para nós é muito impressionante. O que Duchamp fez foi uma ruptura. E são essas coisas que vão contribuir para formar um novo pensamento, uma nova visão das coisas. O homem não é mais aquele ser emocional, em que o sentimento é que vale. Hoje, o conceito é que está muito presente em tudo o que ele vê. A gente não vê com os olhos, vê com o pensamento. A mensagem tem que estar presente.

CR – E você, Sante, que sempre está informado do panorama da arte internacional, como vê esta questão?
Sante Scaldaferri – Eu sempre disse que a arte conceitual está aí e ninguém pode duvidar de sua força e de seu valor. O que sempre contestei é a atitude radical de dizer que a pintura morreu, que a estética morreu, e que agora só existe o conceito, embora em algum momemto, como na década se 60/70, em que a pintura abstrata dominou a figurativa, a arte conceitual tenha realmente suplantado a pintura, mas não como dizem alguns radicais “que não têm volta”. É um fato histórico que toda tendência tem seu princípio, meio e fim, e os primeiros ficam como Joseph Beuys, de quem gosto muito, principalmente do seu projeto ecológico/antropológico Defesa da Natureza, que tive a felicidade de ver na Itália e O Fim do Século XX, que vi em Berlim. O que eu tenho dito já há algum tempo, baseado em leituras e recentes visitas a exposições no exterior, é que existe em todo o mundo uma pintura pós-conceitual e que agora, neste ano, se torna muito mais evidente, não sendo especulação da minha parte.

CR – Quer dizer que, no preciso momento em que se consolida a primazia da arte conceitual sobre a moderna, já se fala no declínio daquela e no surgimento de uma arte pós-conceitual?
SS – O declínio, segundo textos de especialistas, vem desde a última Bienal de Veneza, que foi duramente criticada, principalmente por Alison Gingeras, crítica inglesa que na ocasião era curadora no Centro Pompidou, e hoje é do Museu de Arte Moderna, ambos em Paris. Ela publicou um artigo em Flash-Art, agosto/setembro, 2001, cujo título é “Bienal de Veneza – O supermercado da Arte”, em que diz: “Como em qualquer outro setor da indústria cultural e também no mundo da arte contemporânea, os agregados aos trabalhos preparam a agenda anual com uma bela dieta, alguma nova exibição para as festas, e uma bela ração de prêmios para distribuir na inauguração. Nada de novo neste verão veneziano, porque como sempre os relações públicas, as fofocas e os negócios produzem o motor que puxa tudo”. Porém ela e outros críticos das diversas linguagens, como Massimiliano Gioni, Laura Hoptman, Bettina Funke, Luca Beatrice, naturalmente não deixam de reconhecer os grandes artistas expositores, mas fazem severas restrições quanto aos resultados. Alguns ainda falam dos clones e da falta de criação no geral dos vídeos que ficaram numa tendência de documentário.

CR – Existe uma nova pintura?
SS – A respeito desta questão, quero divulgar uma notícia que li e que servirá aos interessados de maneira muito didática à compreensão da nova pintura. “Na Sonsbeek, como em outras mostras internacionais, a pintura figurativa parece vítima de um estranho ostracismo. Esta desconfiança nos confrontos da pintura parece reger-se por um paradoxo: sob pressão de imagens sempre mais sofisticadas, aprendemos a não ter confiança completa no vídeo, foto e telecâmaras. Descobrimos que eles podem mentir. E portanto estamos prontos para aceitar as novas mídias como testemunhos parciais da complexidade do real. A pintura, ao contrário, paga ainda por ser associada à idéia de verdade… Estas talvez são as premissas que movem Malcolm Morley, Jeff Koons e Neo Rauch – três artistas que têm em comum o contínuo recurso da pintura de imagem, e aos quais três importantes museus dedicaram exposições individuais em Londres, Bruges e Zurique. Ainda tenho a dizer que no Japão existe uma “Nova Vanguarda” chamada Super Flat e que o artista alemão Kai Altoff vem apresentando uma nova linguagem contemporânea, porém seria longo demais aprofundar estas duas questões. Existem ainda severas criticas a exposições como a Bienal de São Paulo, a Whitney Biennial e tantas outras.

CR – Estamos, portanto, ainda bastante longe de um consenso sobre que linguagens deverão prevalecer?
SS – Na atual Documenta de Kassel XI ou Plataforma 5, não existe, como querem alguns, unanimidade de opinião a respeito do projeto Okwui Enwezor, chamado de aventura na sua tentativa de criar um novo modelo de curadoria. Segundo Yuco Hasegava, “além do fato, quer seja o tema ou o conteúdo, não foi apresentada nenhuma novidade, e vendo-se a mostra é como ler-se um livro profundo que se presta a novas interpretações em cada releitura”, porém ele acha que esta edição suplantou as antecedentes. Também não foi novidade o retorno a Utopia no projeto do francês Pierre Huyghe, uma das vedetes da mostra, mas falou-se muito em estética e do retorno às questões político/sociais e éticas.

CR – O IX Salão Nacional será um espaço para essa reflexão?
HR – Sim, o que a gente pretende é estabelecer um processo de discussão, trazer outras idéias e linguagens para tentar até ver como elas possam se inserir nisso. A programação deverá incluir discussões e manifestações envolvendo, por exemplo, a literatura, a dança e a música. A literatura sempre esteve discutindo estas questões porque tem a escrita. A nossa linguagem é mais difícil, porque tem poucos recursos para poder representar. Nas artes plásticas é difícil estar inserido nesse momento contemporâneo. É por isso que prevalece muito o documentário, vídeos, nos quais você tem recursos. É difícil representar isso na escultura tridimensional. Como discutir com a escultura a fome dos meninos de rua? É complicado. Então é isso que a gente quer. 

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