Evangelho da Revolta

RESISTÊNCIA – Na apresentação do Parque de Exposições, o rapper MV Bill reafirma caráter revolucionário do rap: um grito contra a exclusão.
Carlos RibeiroDe arrepiar. Presente no festival apresentado no Parque de Exposições, onde cantou, sábado à noite, no Mundo Pop, o rapper MV Bill, 27 anos, mostrou que não está aqui para brincar em serviço. Ao cantar as mazelas da favela carioca Cidade de Deus – lugar onde se registram altos índices de violência –, ele é direto e radical: “Agora, vamos falar de homem para homem”, anuncia, diante da multidão magnetizada, delirante, tocada pela “mensagem” do rapper, não no coração, mas em suas profundas (e famintas) entranhas. E faz jus à sua postura messiânica. Pessoas avançam sobre o palco para tocar – apenas tocar – aquele homem alto, magro, que não ri. Empurrados de volta pelos seguranças, continuam avançando, até que o cantor ordena, com autoridade, que ninguém mais suba ao palco. “Dizem que o rap é coisa de marginais. Vamos mostrar que não é nada disso. A polícia que está aqui na frente não vai mais precisar usar de violência para deter ninguém”, diz. E todos obedecem. Acusado pela polícia de fazer apologia ao crime, por usar traficantes reais, armados e encapuzados, no videoclipe da música Soldado do Morro, Bill (cujo MV significa “Mensageiro da Verdade”) prestará depoimento, no próximo dia 9, na Divisão de Repressão a Entorpecentes, no Rio de Janeiro. Após o show, concedeu a seguinte entrevista exclusiva para A TARDE.

P – Bill, você se considera um “mensageiro da verdade”. Que verdade é essa?
R – A verdade que eu consigo enxergar todos os dias, mas que muita gente, no Brasil, insiste em não enxergar. Muita gente quer ver o belo, mas eu falo dos excluídos, aqueles dos quais ninguém quer falar, porque não atraem os turistas. Eu prego o rap como quem prega o Evangelho, porque o rap, pra mim, foi a salvação. Veja bem: o Brasil tem maioria negra. Os negros são 70% da população e, no entanto, nós não temos nada. Não temos representantes na política, não temos representantes na TV. Não por falta de competência, mas por falta de oportunidades.

P – A que você atribui essa falta de oportunidades?
R – A luta pelo poder é muito complicada. Ninguém quer dividir. As pessoas querem dar o peixe, mas não querem ensinar a pescar. Hoje, a sociedade hipócrita brasileira está apavorada, e já estão querendo ajudar de alguma forma. Mas vai chegar num ponto que vai ter que dividir. Ou eles dividem a riqueza que nós geramos, ou vão ter que amargar a miséria que eles geram. O Brasil é um país sitiado, onde já existe uma guerra, e quem não morre nas comunidades vive como refugiado.

P – Você não acredita numa solução pacífica para a eliminação dessas desigualdades?
R – Como preto, pobre e favelado, só eu sei o que passo. Sei que, se for pelo lado do amor, só vou levar porrada. Sou contra a violência, mas também sou contra a hipocrisia, contra os que se recusam a dividir as riquezas. Dizem que o povo brasileiro é cordial, mas ele é, apenas, adestrado.

P – Como você vê essa polêmica envolvendo o seu clipe?
R – Vou depor no próximo dia 9, na Divisão de Repressão a Entorpecentes no Rio de Janeiro. O que acho mais importante é a discussão que essa questão levantou, mesmo que proíbam o clipe. Torço para que eu não precise fazer músicas desse tipo, mas, por enquanto, a minha inspiração é esta.

P – O que é o Partido Popular Poder para a Maioria, que você pretende fundar?
R – Eu não sou dono do partido, sou apenas um membro, um simpatizante. Ele é iniciativa de Celso Ataíde (ver entrevista abaixo). Achei a proposta boa, porque a comunidade negra está cansada de partidos que tenham um núcleo racial. Ele vem para mudar a cara da política brasileira, porque, enquanto as pessoas não se envolverem na política, nada vai mudar neste país. Tudo é política.

P – Por que o rap? Os gêneros musicais brasileiros não atendem à necessidade da mensagem que você quer passar através da música?

R – O rap, ao contrário do que muitos pensam, não foi criado nos Estados Unidos. Ele é africano, como a macumba. Não quero dizer que ele é brasileiro, agora, ninguém critica Charlie Brown Jr. porque o rock não é brasileiro, ou Cidade Negra porque o reggae é jamaicano, nem Pelé porque o futebol é inglês.

P – Existe o risco dessa ênfase na defesa da raça negra descambar para uma atitude de hostilidade racial, inclusive contra os brancos que também são pobres e favelados?
R – Branco pobre é preto. Ele só é branco se quiser. Mas, em relação a isto que você pergunta, só o futuro pode dizer. O que eu posso dizer, apenas, é que a revolução já começou, mas ela não foi televisionada. Só sei de que lado vou estar. Você sabe o seu?.

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