Discurso proferido na formatura de alunos do curso de Jornalismo da Faculdade de Tecnologia e Ciências, em fevereiro de 2008

Prezados senhores e senhoras: pais, familiares, amigos, educadores; prezados formandos:

Quero iniciar esta fala, que será breve e objetiva, como nos tem sido recomendado pelos manuais de jornalismo, com uma declaração: a de que, como jornalista e professor de jornalismo, faço, aqui, um ato de fé às novas gerações que adentram o nosso combalido mercado de trabalho, tão desestimulante, por um lado, mas também desafiador, talvez como nunca o foi em outros momentos da nossa história. Acredito nestes doze profissionais que agora enfrentarão a realidade de uma profissão cuja importância é, hoje, inquestionável. Afinal, vivemos numa era em que a informação é instrumento dos mais importantes para a cidadania – e o jornalismo, muitas vezes, a última instância à qual a população, sobretudo a mais carente, apela quando tudo o mais – a justiça, a política e o governo – não mais lhes garantem os seus direitos fundamentais.

Cabe a ela, portanto, o papel fundamental de vigiar o poder, de defender os direitos dos cidadãos, de denunciar os desmandos, a corrupção e tantas outras mazelas do nosso tempo. Ou, simplesmente, de informar e formar os leitores sobre o que realmente interessa saber, e não o que interessa ao poder político e ao mercado, esse dragão da maldade de infinitas máscaras, que ele saiba, e que ele não saiba.

Acredito nestes jovens porque temos o direito e até mesmo o dever de sonhar com uma mudança efetiva num panorama que muitas vezes se nos apresenta desolador: este no qual o profissional que apura e investiga com rigor, tendo em vista o bem comum e a justiça social, cede ao apelo da fama pela fama; às aparências enganadoras do show-business; ao sucesso fácil dos que servem aos seus senhores sem quaisquer critérios éticos e, mesmo, estéticos. Apostamos, portanto, no profissional que não cede ao pseudo-jornalismo da bravata, das inverdades e meias-verdades; ao jornalismo da manipulação, do jabaculê e do mau gosto. Enfim, ao jornalismo que, em maior ou em menor grau, vigora, nas páginas dos jornais diários, das revistas semanais, nas telas da TV e nas freqüências moduladas das nossas emissoras de rádio.

Sim, senhoras e senhores: estes jovens profissionais que aqui estão, não foram formados apenas para redigirem corretamente uma matéria, um lide, um título, uma notícia; eles foram preparados, também, para saberem ler as linhas e as entrelinhas dos discursos que nos envolvem, sedutores como o canto das sereias – e para os quais, tal como Ulisses, da Odisséia, devemos resistir, amarrados ao navio, que singra o mar pardacento, com cordas fortes e resistentes; cordas às quais, aqui, agora, neste momento histórico da nossa travessia, podemos dar um nome: Ética.

Sei, queridos ex-alunos, prezados colegas jornalistas, que vivemos numa sociedade descrente de valores autênticos; numa sociedade em que a educação, entregue à lógica do mercado e do lucro, contradiz-se todo o tempo, pois que, muitas vezes, seus maiores representantes passam muitas vezes ao largo, não somente da ética e da moral, mas da mínima noção de decência e de respeito aos direitos dos cidadãos, sejam estes professores, alunos, funcionários, pais, tios, avós que tanto se sacrificam para verem os seus filhos, sobrinhos e netos educados – enfim, estas pessoas mesmas que estão, agora, neste momento, à nossa frente. E que, aqui, representam a sociedade que vocês deverão honrar com o seu trabalho.

A ela cabe-nos mostrar que sabemos discernir entre o que é jornalismo e o que é espetáculo; entre o que é jornalismo e o que é publicidade; entre o que é jornalismo e o que é política, no sentido menos nobre do termo.

Assim, tal como bem definiram os estudiosos da comunicação, Bill Kovach e Tom Rosenstiel, podemos relacionar as seguintes obrigações do jornalismo:

1) A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade.
2) Sua primeira lealdade é com os cidadãos.
3) Sua essência é a disciplina da verificação.
4) Seus praticantes devem manter independência daqueles a quem cobrem.
5) O jornalismo deve ser um monitor independente do poder.
6) O jornalismo deve abrir espaço para a crítica e o compromisso público
7) O jornalismo deve empenhar-se para apresentar o que é significativo de forma interessante e relevante.
8) O jornalismo deve apresentar as notícias de forma compreensível e proporcional.
9) Os jornalistas devem ser livres para trabalhar de acordo com sua consciência.
Podemos relacionar outras listas, mas o dado fundamental é que o exercício ideal do jornalismo é restringido em sua práxis, todos os dias, em todos os lugares; mas que, vejam bem, devemos persegui-lo, sempre, dentro das nossas possibilidades. Só assim, meus amigos, tais ideais não se traduzirão em hipocrisia.

* * *


Prezados formandos:

Este momento marca uma vitória: uma vitória sobre a dúvida, o medo, a insegurança e a incerteza que tantas vezes lhes assaltaram nos anos em que vocês frequentaram a faculdade. Como professor, não foram poucas as vezes que senti, em vocês, a dúvida: será que estou realmente na profissão certa? São tantas as minhas carências e limitações – disseram ou pensaram, em algum momento, todos vocês. Mas prosseguiram, escrevendo, titulando, diagramando, entrevistando, batendo pernas pela cidade, traçando perfis, denunciando injustiças, fotografando, filmando, elogiando e criticando seus professores, produzindo, elaborando e apresentando, com tanta angústias e incertezas, os seus trabalhos de conclusão de curso – até que, ao final da batalha, como vencedores da primeira entre tantas outras escaramuças, chegam, como sobreviventes, a este momento. Para começar tudo de novo, no desafio mais real da vida que é o da própria subsistência.

Não saberia dizer, queridos alunos, se, como professor, consegui transmitir um pouco que seja do grande amor que tenho por essa profissão. Profissão que tão grandes alegrias me deu e me dá, mesmo hoje quando me dedico quase que exclusivamente ao ensino e à pesquisa na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira.

Como jornalista especializado em meio ambiente, pude observar, in loco, regiões naturais pouco afetadas pela ação humana: parques marinhos com seus corais e arrecifes; os sertões ínvios e bárbaros, como diria o jornalista-mor da nossa pátria, Euclides da Cunha; as florestas amazônicas, com suas águas negras e barrentas, com suas sucuris e seus mistérios; as geladas paisagens antárticas, inalteradas há milhares de anos, cortadas pelos urros dos elefantes marinhos e os grasnados das procelárias; cerrados, grutas, alvos lençóis de areia a se perderem no horizonte; restingas e praias sem fim. Como professor, vejo, com imenso respeito, as paisagens que se descortinam em vocês, prezados alunos: as do sonho e da esperança que, esperamos, se concretizem; e que se traduzam em qualidade de vida, em paz, alegria e dignidade. Obrigado.

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