Discurso de posse de Carlos Ribeiro na Academia de Letras da Bahia

Senhores acadêmicos, senhoras e senhores,

 

Sei como é ingrata, em nosso tempo e lugar, a condição do escritor. Vivemos num mundo de imagens, que celebra e manipula emoções fáceis, num universo complexo de pirotecnias audiovisuais carente de substância, universo ilusório de artifícios e virtuosismos, em que essência e aparência são muitas vezes confundidas. Eis aí, enfim, tudo o que se opõe à construção lenta, paciente, sofrida e meditada de uma obra literária – que por sua vez exige dos leitores o esforço que poucos, muito poucos, querem despender. Quem nos lê? Quem, de fato, nos lerá? Por isso, meus amigos, o prestígio dos títulos e dos rituais, por sua vez tão necessários, não deve se sobrepor ao que verdadeiramente importa. No caso dos escritores: a sua obra. E é ela, somente ela, que justifica, não seu autor, mas a si própria. Só ela concede, de fato, não a imortalidade, mas alguma perenidade. Pois que, na verdade, todos, inclusive os Grandes, passarão.

Se aqui estou, se justifico a minha presença neste espaço privilegiado das letras baianas, inserido numa linhagem na qual constam nomes como os de Afrânio Peixoto, Xavier Marques, Rui Barbosa, Carlos Chiacchio, Estácio de Lima, Walter da Silveira, Carlos Vasconcelos Maia, Godofredo Filho, Thales de Azevedo, Wilson Lins, Jorge Amado, Guido Guerra e Jorge Calmon, só para citar alguns dos nossos mais importantes ficcionistas, poetas, jornalistas e ensaístas, é porque devo acreditar que a minha obra, de alguma forma, me dá o seu aval.

É, portanto, em nome da minha atuação como jornalista e escritor que aceitei o convite de integrar esta Academia. Confesso que me é estranha a idéia de “imortalidade”, mesmo a sábia concepção que nos é dada por este sodalício: a de, através das sucessivas saudações de seus integrantes, preservar a memória dos antecessores, num ritual de presentificação.

Agradeço aos meus prezados confrades, especialmente os queridos amigos que tomaram a iniciativa de indicar o meu nome para esta Academia – James Amado, Ruy Espinheira Filho, Florisvaldo Mattos, Luís Henrique Dias Tavares, Aleilton Fonseca – e a todos os demais membros desta Casa, sem esquecer os que ao longo de minha trajetória jamais deixaram de me dar generoso incentivo. Não poderia deixar de citar, com a mais elevada estima e gratidão, nomes como as das minhas queridas amigas Myriam Fraga e Evelina Hoisel, dos professores Edivaldo Boaventura e, in memoriam, Jorge Calmon, ambos grandes incentivadores da minha carreira jornalística; de Geraldo Machado, que, como diretor da Fundação Cultural do Estado da Bahia, no início dos anos 80, deu o impulso inicial para toda uma geração de autores, através da Coleção dos Novos, então dirigida por Myriam Fraga; de Aramis Ribeiro Costa, de quem fui sempre merecedor de atenção e simpatia; dos professores Waldir Freitas de Oliveira e Cid Teixeira, a quem dedico grande respeito e consideração e, em especial, do ilustre presidente desta Casa, professor Cláudio Veiga. E a tantos outros, a exemplo de Carminha, Genilda e do poeta Carlos Cunha, que me acolheram com tanta generosidade, agradeço, enfim, a honra de pertencer a esta instituição.

De fora destes muros, não poderia jamais esquecer aqueles que, em diversos momentos de minha trajetória, exerceram valiosa influência. Em especial, para não me estender demasiadamente, a minha querida professora Almerinda, em cuja escola Santa Tereza, no Carmo, aos cinco anos de idade, garatujei minhas primeiras palavras, iniciando-me no universo da escrita. Meus professores da Escola de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Adinoel Motta Maia, incentivador dos então jovens escritores, ao final dos anos 70, através do Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia e da revista Aqui Ficção. A querida amiga e orientadora Antonia Herrera, que, juntamente com Myriam Fraga, Evelina Hoisel e Judith Grossmann, promoveram o I e II Encontro de Literatura Emergente, no início dos anos 80. As professoras Lígia Telles e Mirella Márcia Vieira Longo, que me prepararam, de forma sempre instigante, para estudar a obra de Rubem Braga, tema da minha dissertação de Mestrado e da minha tese de doutorado. Aleilton Fonseca e José Inácio Vieira de Melo, grandes amigos, com os quais compartilho um projeto literário vitorioso, a revista Iararana.

Agradeço, portanto, o afeto e a generosidade de todos os que estão aqui, presentes, neste momento de celebração. Celebração da cultura e das letras, das quais sou um representante. Um que é também diverso, na multiplicidade de vozes que povoam esta pessoa que vos fala, em suas personas de jornalista, escritor e professor; de marido, pai e amigo; de mestre e aprendiz, mas que, em essência, permanece o menino que formou sua personalidade num mundo especial: a cidade de Salvador, Bahia.

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É nesta cidade privilegiada, nesta cidade que amo como se cada uma das suas curvas, pátios, varandas, colinas, sacadas, praias, dunas, árvores e esquinas, de alguma maneira misteriosa, fizesse parte de mim, que me flagro como alguém que subitamente percebe ter vivido muitas vidas. De cada uma delas pode-se trazer uma imagem: um quarto minúsculo e infinito, num velho apartamento do Centro Histórico, iluminado por réstias de luz, num remoto final de tarde, no qual um menino encontra-se, solitário, entre chuvas de flechas e répteis pré-históricos vagando entre as mobílias da sala de estar; um mar noturno, numa das 1001 noites míticas do bairro de Itapuã, de onde sopra um vento fresco que sacode os coqueirais numa noite qualquer dos anos 60; dunas alvas, tão remotas e improváveis, nas quais nós, heróis e príncipes de um reinado sem dono, nos lançávamos em aventuras mortais por entre túneis de mato e repastos de cajus e pitangas, mangabas e tamarindos.

Eis, portanto, o espaço privilegiado de uma vida, que se aproxima lentamente do meio dia de sua existência com ares de imortalidade, mas que hoje, neste momento mágico, entre as paredes deste venerável solar, tem mais do que nunca consciência de sua transitoriedade. De que sua vida nada mais é que um breve clarão na planície escura. São os afetos, nossos insubstituíveis afetos, as tochas que carregamos para atravessar esta precária ponte suspensa sobre o abismo. De forma que acreditamos só poder reconstituir, verdadeiramente, nossa vida e uma suposta biografia, através de uma toponímia de afetividades.

É, em nome do afeto, que evoco, especialmente, o bairro de Itapuã. Lugar ao qual quero dedicar esta noite. Ele representa tudo de belo e nobre que envolve a minha existência. Para isto, peço licença para evocar um silêncio profundo do qual nasce, como milagre, o vento que traz sons distantes, murmúrios e batuques, e que vem de remotas eras, como brisa noturna revestindo este espaço de imagens e evocações: lá está o mar de Itapuã, o Morro da Vigia, o Abaeté do Catu, a Pedra de São Thomé, com as marcas dos pés do santo e das patas do seu cachorro; o Buraco da Vovó, o Porto do Siri; os Contratos de Cima e de Baixo, a Lagoa das Trincheiras, de Dois-Dois; o Quebra-Resguardo, a Pedra que Ronca, ou que Aflora, os coqueiros com suas longas cabeleiras dançando na lua cheia, uma voz de lavadeira que canta uma canção imorredoura, e as dunas varridas pelo vento; os chafarizes, as fontes aterradas, em nome do falso progresso, que renascem: Ingazeiras, Pedras, Dendezeiro, Cacimba, Fonte do Boi, do Porto… e a canção entoada pelo pescador, no mar imenso, na noite mais profunda, que vence o esquecimento para ressurgir aqui, neste salão.

Lá estão, meus amigos, os casebres de palha e as lamparinas de óleo de baleia, no tempo em que “o prato de xixarro era um tostão” e que “Itapuã era quase que uma família só”. Lá estão os saveiros do coco e da farinha, a senhora dona das águas; a última baleia pescada, em 1912, por Damásio; o Mestre Dão, que passou três dias perdido no mar, num temporal. Lá está, como disse o velho pescador Miguel Archanjo, de saudosa memória, a terra onde “os homens que têm direito a nome são esquecidos”. A gente anônima, sem medalhas e honrarias, que ocupou a costa do Brasil, lavrando a terra, lançando suas redes de pesca, adentrando o mar alto, enfrentando a fúria dos elementos, lutando o bom combate. Aquele que nos faz homens dignos de um nome.

E é lá, naquela Itapuã que não mais existe, que vejo agora o quarto do menino. Do menino que, à janela que dá para o quintal, se deixa invadir por sonhos coloridos, e desejos, e amores, e temores. O mar é então um sussurro distante, e ele percebe que ali, naquele momento, algo está se perdendo. Sereias e serpentes, macacos e peixes, baleias e calangros, jegues, sariguês, “papa-figos”, lobisomens. Todo um organismo vivo pulsando em flores e matos e brejos e areias. E um mar azul límpido, e canções, cirandas, sambas de roda. As cheganças, os ternos das flores e da Espera. O Baile Pastoril, e as fontes puras nas quais se podia matar a sede. A nossa sede essencial. E o menino promete a si mesmo que nada daquilo se perderá. Que sua voz será, de uma maneira ou de outra, a voz da sua terra e do seu povo; será denúncia e celebração.

É, pois, com a voz daquele menino, meus amigos, que me apresento aqui, nesta Casa. A todos os amigos queridos de Itapuã, pescadores, lavadeiras, ganhadeiras; operários, lavradores, comerciantes, educadores, à memória de dona Francisquinha, dona Áurea, Detinha, Badú e Nissú, veneráveis guardiãs da nossa cultura, à frente do grupo Mantendo a Tradição, à memória do dr. Nelson, meu tio e padrinho, que durante décadas atendeu gratuitamente, na Farmácia Cosme e Damião, a gente simples que o procurava para aliviar suas dores, a seu Menezes, nosso “mago dos transistores”, ao professor José Narciso do Patrocínio, diretor do nosso Colégio Lomanto Júnior, ao jogador Biriba, nosso grande craque dos gramados, às Ganhadeiras, aqui tão bem representadas, aos meus companheiros de luta da Associação dos Moradores de Itapuã, a valorosa AMI, a Eustáquio, negro velho, capinador exímio, com sua larga e generosa risada, à nossa querida Vitória, dos acarajés e quitutes, a todos que, tal como meus pais, Amadeu e Mira, já mortos e tão vivos em nosso coração, tios, primos, amigos, e aos meus queridos irmãos, Ailton, Tina e Amadeu, dedico o que de melhor há no que vocês, todos vocês, me possibilitam ser.

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Senhores acadêmicos,

Acredito, tal como Pirandello, que a arte literária, num sentido superior, deve assumir um valor universal. Para fazê-la, são necessários escritores cuja natureza é mais propriamente filosófica. Um autor é filosófico, diz ele, não porque traga um conteúdo filosófico que venha através de um discurso, mas sim, uma sabedoria que está aderida à linguagem, que se revela na linguagem. Esta é a característica maior de um grande escritor brasileiro, Guimarães Rosa, para quem a arte é um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno. Definia, assim, ao lado do seu ideal de estilo, de precisão micromilimétrica, o seu ideal de narrativa como fábula, como transcendência.

Vivemos um tempo no qual a expressão literária é vazia de transcendência, carente de epifanias, desvinculada do sentido original de fábula. Um tempo em que se desacredita cada vez mais da linguagem expressiva como ato de revelação e alumbramento.

Devo declarar a minha convicção de que retomaremos, mais cedo ou mais tarde, esse sentido de transcendência, a percepção de que, ao fim do sofrimento mais agudo, o homem há de retomar o sentido da redenção. É nela, como na prodigiosa novela de Leon Tolstoi, A morte de Ivan Illitch, que se configura o sentido da condição humana.

Há de vir, um novo momento que surgirá, não desse modelo de urbanidade, hoje predominante nas nossas metrópoles, este labirinto vazio de heroísmo, mas do sertão, este desertão presente no íntimo de todos nós, mesmo os mais urbanos, este sertão que não morreu e que não morrerá. Para nele chegarmos, senhores, precisaremos, como demonstra uma cantiga das lavadeiras dos sertões do São Francisco e do Vale do Jequitinhonha, merecer beber a água da fonte: água tão doce, fonte tão bela. E a palavra tão carregada de significados virá em sua simplicidade, nem sempre submetida às normas cultas da linguagem erudita. Mas veículo de uma sabedoria que precede todas as gramáticas. Precisamos estar abertos para ela.

Após tantos anos vagando no labirinto sem saída que é o absurdo da vida moderna, como bem o representou Franz Kafka, creio que, em meio à parafernália da vida pós-moderna, com seus computadores, com suas câmeras que tudo vê e registra, com seus microfones que tudo ouvem, com seus satélites que tudo devassam, com suas armas que tudo devastam, com a capacidade de desvendarmos as zonas mais remotas do mundo subatômico, de nos virtualizarmos ao ponto de nos tornarmos simulacros, projeções de algo que muitas vezes já nem sabemos o que é, em meio a tudo isto, senhores, retomaremos o sentido da transcendência, retomaremos, num patamar mais alto, os valores humanísticos perdidos, redescobrindo em nós o humano. Quem sabe não seja esta a mais nobre missão do escritor do século XXI: a de reencantar o olhar, para reencantar o mundo reificado dos pobres de espírito? Sim, precisamos recuperar a nossa aura.

Essa aura, prezados senhores, está presente, conforme arguta observação do crítico francês George Steiner, no quadro Le philosophe lisant, do pintor francês Chardin, do século XVIII. Nele, um homem lê um livro aberto – e, na postura mesma em que o lê, revela um conjunto de valores que nos parecem estar cada dia mais ausentes desta nossa sociedade fragmentária, superficial e instantânea. Que valores são estes? Diremos aqui, de forma resumida: Em primeiro lugar, a formalidade e solenidade inerentes a um ato que é revestido de grande importância: “O leitor não vai ao encontro do livro em trajes informais ou em desalinho”. Ele vai ao encontro do livro levando a cortesia em seu coração, como quem recebe uma visita importante. Em segundo, a noção do tempo: a condição passageira do leitor (e do homem) em contraste com a longa sobrevivência dos (grandes) livros. “O tempo passa, mas o livro permanece. A vida do leitor mede-se em horas; a do livro, em milênios”, diz Steiner. Em terceiro, também relacionada ao tempo, é a consciência da brevidade do mundo material quando comparado com a longevidade das palavras. “Verba volant, scripta manent”, “As palavras voam, a escrita permanece”, diz o antigo provérbio medieval, que se sustenta, mesmo nesta era de ditadura das imagens. Em quarto, a obrigação de resposta inerente ao ato da leitura. Leitura esta que, longe da concepção atual de entretenimento, configura-se como uma interação em níveis profundos da compreensão envolvida no ato de ler. Ler bem é “estabelecer uma relação de reciprocidade com o livro que está sendo lido; é embarcar em uma troca total”. E, por último, algo que envolve todos esses elementos presentes no quadro – o silêncio. Um silêncio que, na pintura, “se manifesta inequivocamente pela qualidade da luz, pela textura da composição”. A leitura é, para o leitor do século XVIII, representado na obra, um ato silencioso e solitário. “Trata-se”, diz Steiner, “de um silêncio vibrante de emoção e de uma solidão abarrotada de vida”.

Aqui estão, de forma resumida, alguns elementos que trago comigo, ao ultrapassar o pórtico desta instituição: a cortesia no coração, também disposto ao entendimento e à confraternização; a reverência ao que representa a memória de todos os que por aqui passaram; a percepção de nossa efemeridade perante a permanência das grandes obras e das grandes realizações; a disposição de interagir, de participar, de contribuir para o engrandecimento desta Casa; a procura do silêncio como fonte de inspiração para a celebração do que aqui temos como o nosso mais valioso patrimônio: o respeito à diversidade e a síntese dialética das diferenças traduzidas no bem comum.

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Neste momento, portanto, em que passo a ocupar a cadeira de número 5 desta Academia de Letras da Bahia, declaro, com satisfação, a afinidade e admiração que tenho com seus ocupantes anteriores, com destaque, entre eles, para o eminente médico José Silveira, para o ensaísta, poeta e cronista Carlos Chiacchio e o nosso saudoso amigo, o cronista, jornalista e ficcionista Guido Guerra. Este, talvez a mais irreverente personalidade literária que passou por esta venerável instituição, representa, de forma exemplar, o profissional das letras que se divide entre os fatos do dia-a-dia, que logo amarelecem no tempo, com o seu principal veículo, as páginas dos jornais, e aquela outra abordagem da realidade, talvez mais real, pois que perene, que é recriada através da subjetividade do escritor.

Vejo, portanto, em Carlos Chiacchio e Guido Guerra, exemplos de jornalistas-escritores, que, graças ao seu imenso talento, escaparam da contingência dos fatos – e que permanecem. Homens que não temeram expor, publicamente, as suas idéias – e de deixarem assim gravadas em nossa história literária, suas marcas. Homens que, como jornalistas, cumpriram a missão mais nobre desta profissão hoje tão desprestigiada: a de formar consciências, de denunciar imposturas, de incentivar talentos emergentes e de contribuir com a renovação da nossa cultura.

Vejam que já me encontro cumprindo uma formalidade do discurso de posse dos acadêmicos: a de fazer o elogio dos antecessores.

Do patrono da cadeira nº 5, Luiz Antônio de Oliveira Mendes, peço compreensão por falar pouco, pois que dele pouco se sabe. Era, por volta de 1808, segundo informa o historiador Pedro Calmon, em sua História da Literatura Baiana, advogado e sócio da Academia de Ciências de Lisboa. Sabe-se que nasceu por volta de 1748, sendo, entretanto, desconhecida a data de sua morte. Informa-nos o Breviário desta Academia de uma carta escrita pelo eminente advogado e endereçada ao frei Joaquim de Sant´Anna, em 1814. Sinal de que viveu bastante, e esperamos que bem, o Sr. Luiz Antônio de Oliveira Mendes.

Do seu fundador, o jornalista, poeta e crítico literário, Carlos Chiacchio, afirmamos o contrário. Tão grande foi o impacto da sua atuação intelectual, que se torna impossível passar pela história cultural do nosso estado, no século XX, sem admirar-se com a amplitude de sua presença. Mineiro de nascimento, baiano por adoção e convicção, Chiacchio, nascido em 1884, em Januária, mudou-se com a família, em 1895, portanto, aos 11 anos, para Salvador. Aqui, formou-se, em 1910, em Ciências Médicas e Cirúrgicas, pela Faculdade de Medicina. Mas, logo se manifestou, no jovem intelectual, sua diversidade de aptidões: foi professor de Filosofia, de estudos Brasileiros e de Estética, em diversas instituições, conforme mostra Dulce Mascarenhas, em seu ensaio Carlos Chiacchio: Homens e Obras.

Mas foi na seara da literatura, do jornalismo e da cultura, que Chicacchio alcançou a plenitude da sua vocação: a de líder e agitador cultural de sua geração, ou, como definiu Dulce Mascarenhas, de “guarda-avançado da tradição intelectual baiana de cunho simbolista”. Na encruzilhada do novo com o velho, que foi a primeira metade do século XX, na Bahia, na qual conceitos e preconceitos fundamente arraigados ainda não haviam sido abalados pelo Modernismo já consolidado, desde 1922, no sul do país, ele desempenhou seu papel com desenvoltura, mas também com certa ambigüidade: o baiano de Januária, se me permitem o trocadilho, foi, ao seu modo, um modernista saudoso do espírito e das formas do simbolismo; como crítico, foi vigilante e mordaz na sua cruzada contra plagiários, impostores, pastichadores, pingapulhas, pilhapilhas, empalmafichas, açambarcadores, coribantes, cabotinos e engrola-turbas, para lembrar apenas alguns dos adjetivos usados pelo eminente jornalista preso ao legado romântico da crítica francesa do século XIX. Inovador e conservador foi, entretanto, figura emblemática do intelectual combativo que tanta falta nos faz, neste início do século XXI.

Vale destacar, sobretudo, a atuação do enérgico e temido polemista, na vanguarda da Ala das Letras e das Artes, movimento que ajudou a criar, e da revista Arco e Flecha, porta-voz dos primeiros modernistas em nosso estado. Há reservas à atuação de Chiacchio como crítico literário, mas, no cômputo geral, é altamente positiva sua atuação, de forma que seu nome persiste e persistirá como um dos grandes do seu tempo.

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A Chiacchio sucedeu o médico sanitarista Luís Antonio Cavalcante de Albuquerque de Barros Barreto. Dele, guarda-se o registro de uma atuação importante na área da saúde do nosso Estado. Nascido no Engenho do Meio da Várzea, nos arrabaldes de Recife, em 11 de março de 1892, foi ele que, no governo de Góes Calmon, de quem, aliás, foi genro, tornou-se responsável pela modernização da Saúde Pública na Bahia. Orador fluente, segundo José Silveira, além de “excelente didata, expositor claro e objetivo. Eleito membro deste sodalício em 11 de março de 1948, Barros Barreto usufruiu do convívio com seus pares por apenas seis anos, vindo a falecer em 26 de junho de 1954.

Foi das lavras diamantinas que se originou o ocupante seguinte da cadeira nº 5, o juiz, estudioso dos problemas de Direito e poeta Carlos Benjamin de Viveiros. Nascido em 1889, na cidade de Lençóis, Viveiros publicou pouco. Dele é mais conhecida e festejada a tradução do poema-teatral Salomé, de Oscar Wilde. Sua produção poética, de talhe parnasiano, foi publicada nos livros Taça, vinho e mulheres e Eros, este último em edição póstuma por ocasião do centenário do seu nascimento. Nele estão sonetos sobre os quais, nas orelhas do livro, escreveu Antonio Loureiro de Souza as seguintes palavras: “Viveiros tinha pássaros no coração. Por isso não foi outra coisa na vida senão poeta, à maneira de um Alberto de Oliveira, que lhe herdou a forma hierática na elaboração do verso. Toda a sua poesia se reveste, assim, de majestade. Sonetista, conservou-se no tempo como um parnasiano, vibrando, para lembrarmos Bilac, a lança em prol do estilo”.

Com seu conhecimento jurídico, fraseado elegante e poética à maneira fidalga, como dele testemunhou Camillo de Jesus Lima, Viveiros tornou-se membro desta instituição a 6 de outubro de 1955. Morreu em 27 de março de 1970, embora, como declarou na primeira estrofe do poema Perenidade

Não morrerei, que a vida hei de deixar em cada
Estrofe, que auroreça em minha mente, e estenda
Pelo infinito o incêndio enorme da alvorada,
Que acenda chispas de oiro em minha áspera senda.


O passo seguinte desta louvação, prezados senhores, é largo – e certamente estará aquém da sua importância o elogio que farei aqui do próximo ocupante desta cadeira, o médico e cientista José Silveira.

A história do eminente baiano nascido a 3 de novembro de 1904, em São Bento das Lages, antigo povoado do município de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, é contada pelo próprio Silveira em suas memórias, publicadas com o título Vela Acesa, pela Editora Civilização Brasileira, em 1980. Neste livro, escrito numa linguagem simples, mas bastante viva e humana, como convém a uma boa autobiografia, o autor narra não apenas a sua trajetória pessoal – de menino pobre do interior a personalidade consagrada internacionalmente, no âmbito das ciências médicas –, mas, sobretudo, a da sua geração.

Jorge Amado assinalou, com propriedade, esta característica da obra, quando disse, na apresentação do livro, intitulada “Mestre Silveira, da Bahia”, que, “Por vários motivos, a leitura de Vela Acesa se faz útil e necessária ao maior público possível. Primeiro, pelo prazer da leitura, simplesmente, pois Silveira, não sendo um profissional da escrita e, sim, um sábio, narra com uma deliciosa singeleza e uma força de verdade que fazem do romance dessa vida ardente, leitura tão apaixonante como a dos mais atraentes livros de ficção. Segundo, pelos ambientes descritos e pelas figuras retratadas – a partir da infância, São Bento das Lages, Santo Amaro, Feira de Santana, os tempos de ginasiano, seguindo-se os anos felizes e tão movimentados do estudante de medicina, o mundo dos padres e o mundo dos médicos; perfis esplêndidos de mestres e colegas, de uma quantidade de figuras ilustres e de outras infelizmente menores, de triste caráter e medíocre inteligência, cujos nomes o mestre silencia pois esse homem de bem e de caráter é o exemplo maior de delicadeza. Sua sensibilidade se revela a cada página, a cada parágrafo”.

De fato, o livro de Silveira nos remete a uma Bahia que se arrastava, lenta e penosamente, para fora da sua condição de província. Pelo menos, era esta a aspiração de uma reduzida elite letrada, oriunda de famílias mais abastadas, que lutava para garantir o seu lugar entre os muros, solidamente fortificados, de uma sociedade ciosa das suas diferenças de classe social, econômica e cultural. Além desses muros, como, aliás, ainda hoje acontece, estava a população desassistida da cidade – e além, mais além, os sertões. Os sertões brutos e ínvios, tão bem retratados por Euclides da Cunha. Lembremos que a Guerra de Canudos ocorrera apenas sete anos antes do nascimento de Silveira, e que a obra magna de Euclides fora publicada exatamente dois anos antes, no final de 1992.

Não foram poucos os percalços encontrados no caminho, pelo meu ilustre antecessor. Não poucas, segundo suas próprias palavras, foram as escaramuças e tramóias, desmandos e artimanhas, escusas sorrateiras, para obrigá-lo a mudar de direção. Sobretudo quando, já formado pela tradicional Faculdade de Medicina da Bahia, atendeu à ordem do seu chefe e amigo Prado Valadares, de trocar o ramo da radiologia, no qual já vinha se especializando, para dedicar-se à tisiologia. Diz Silveira, em suas memórias: “A tuberculose, doença contagiosa e fatal naqueles tempos, pelo sofrimento que causava às suas vítimas e condenação ao isolamento, obrigando-as a se separarem da sociedade e dos seus entes queridos, era a mais cruel das doenças; desprezada até pelos médicos, que pouco se interessavam pelo seu estudo”.

Foi, portanto, a luta contra a tuberculose a grande bandeira sustentada pelo Alemão do Canela. Mais do que uma bandeira, segundo suas próprias palavras, sua grande obsessão. A fundação do Instituto Brasileiro para a Investigação da Tuberculose – o IBIT, em 21 de fevereiro de 1937, é um marco de altíssima importância no combate a um mal, que, na época, era considerado um flagelo social.

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Do ocupante posterior desta cadeira, a memória é ainda muito recente. Por isto torna-se mais difícil saudá-lo com o devido distanciamento. Mesmo porque, a presença marcante de Guido Guerra permanece – e permanecerá, ainda, por muito tempo – em diversas instâncias da cultura no nosso estado: na Fundação Cultural, no Conselho de Cultura do Estado, e nesta própria Casa, na qual exerceu, de forma exemplar, sua condição de acadêmico. Sim, porque ele aqui chegou para honrar esta Academia com a sua participação dinâmica e construtiva. Uma surpresa, sobretudo, para os que temiam aqui a presença de um rebelde.

Nascido a 19 de janeiro de 1943, em Santaluz, no alto sertão baiano, Guido Guerra era um homem de paradoxos e contrastes. Magérrimo, de saúde frágil, enfrentou, com coragem e tenacidade, os generais que se instalaram no poder, no Brasil, após o Golpe de 1964. Irreverente e ferino, ao ponto de lhe terem dado, em tempos idos, as alcunhas de “Língua de Trapo” e “Papagaio Devasso”, foi homem de notável integridade moral, em todas as esferas da sua vida, a pública e a privada, como podem dar testemunho sua eterna mulher, Celi Guerra, sua única e adorada filha, Isadora, bem como todos os seus amigos – e, mesmo, os inimigos, que sempre o respeitaram.

Guido foi um exemplo de ternura – a ternura dos fortes, à qual se referiu o médico-guerrilheiro argentino Ernesto (Che) Guevara. Jamais perdeu o sentimento de afeto e compreensão, dedicado, sobretudo, em sua vida e obra, aos humilhados e ofendidos. Por isso, como bem assinalou Isadora, em discurso nesta mesma Academia, “As suas histórias não nasciam em gabinetes cercados de livros”, mas sim “nas ruas, nos bares”.

Em diversos volumes de contos, romances e crônicas, dentre os quais destacamos os títulos Lili Passeata, Ela se chama Joana Felicidade, Quatro estrelas no pijama, O último salão grená e Vila Nova da Rainha Doida, Guido exerceu, com maestria, a condição de “romancista dos deserdados de Deus e do Diabo”, conforme definição de Mário da Silva Brito. “A degradação que, por paradoxo, se aproxima da santidade”, segundo este crítico, é resultado de um trabalho duro e profundamente meditado. Mais do que meditado, vivenciado, pois que Guido jamais foi um burocrata das letras. Em suas páginas ficcionais, como bem observou Cid Seixas, “o universo das criaturas se desenrola como o centro de um sistema solar, a atrair o comprometimento emocional do criador”.

É, portanto, em volta desse centro emocional que gravitam seus personagens, uma extensa e profusa multidão de tipos populares, a exemplo do seu tantas vezes referido Moleque Bololó, meio-doido, com seu olhar vesgo e sorriso expressivo, a negra Zefa, xodó de garoto, que mesmo indo-se, ficou, como bem irremediavelmente perdido, Joana Cacete, que morreu em pleno carnaval, “seu” Cocônio, Bilau, Boca Rica, que perdeu o juízo, Vinte-e-um, homem de veneta, dona Rosa, a fogueteira, Martinha, doida mansa, Formiguinha Sabe-Tudo, para quem “mulher da vida não merece atenção”, Capenga, que morreu num tarde de sol, sem ver concretizado seu maior desejo: ficar bom, Pé na Cova, da Funerária Help, “que enterra a Bahia com a maior delicadeza”, seu Zé Cheira Finado, Mestre Ventura, o Valoroso, Zé Comprido, Pulga Prenha, Juca Zarolho, Bananinha da Silva, Seu Cacetão, Dudu Sorriso Colgate, Lito Ceroula, Lábia de Ouro, Antônio Cururu, Américo Papa-Defunto, o senador Vavá Calçola, Tonico Piolho e tantos outros.

Em sua incansável peleja de dar jeito pro sem jeito, Guido Guerra trouxe também para suas páginas figuras femininas combativas e transgressoras. Exemplo maior destas foi sua Lili Passeata, personagem complexo e multifacetado, exemplo maior do sonho de liberdade destruído naqueles tempos obscuros da ditadura militar. Outra faceta da sua arte é voltada para o interior do estado: vertente prolífica, que tem como microcosmo do Brasil a cidade fictícia de Mirantes dos Aflitos.

Ruy Espinheira Filho refere-se à tradição humanística a que pertence o escritor Guido Guerra. “Tradição”, diz ele, “que está envolta na condição humana, estudando-a, criticando-a, revelando-a, denunciando-a, propondo-lhe novos caminhos, soluções”. E prossegue: “Não é de surpreender que tais artistas, com tais preocupações a tão altas quimeras, sejam perseguidos – perseguidos como fostes, Guido Guerra – pelos que desejam o homem sempre conformista, submisso, explorado, escravizado”.

Não falarei mais aqui da arte do autor de Percegonho Céu Azul do Sol Poente, pois que dela já falaram, com bastante propriedade, críticos e escritores, tais como Jorge Amado, Torrieri Guimarães, James Amado, Cid Seixas, Carlos Cunha, Benício Medeiros, Hélio Pólvora, Bruna Becherucci, João Antonio e Mário da Silva Brito. Destacam, em sua prosa, qualidades como a densidade e humanidade, sua força e inventividade, sua linguagem ágil e flexível, sua concisão e imprevisibilidade, sua capacidade de “criar um ritmo que escande a dor da vida e a magia da morte”, sua ironia demolidora e sua ternura.

Se podemos ter uma idéia dos interesses de Guido através de seus personagens, outras pistas nos dão as personalidades reais que compunham seu repertório afetivo. Neste caso, a frase “dizem-me com quem anda que direi quem és” se aplica, de forma bastante favorável, ao escritor. Jorge Amado, Raul Sá, Ariovaldo Matos, Carlos Anísio Melhor, Dom Timóteo Amoroso Anastácio, sempre citados por ele, representam o que tivemos de melhor dentre os homens que construíram a nossa história política e cultural no século XX. Homens aos quais podemos usar as mesmas palavras proferidas por Guido, em seu discurso de posse, a respeito de Jorge Amado: aqueles que nos enriqueceram humanamente e nos ensinaram a colocar o ser acima do ter, a valorizar a esperança contra o desespero, a alegria contra a dor, o oprimido contra o opressor, a liberdade contra a tirania. Usamos estas mesmas palavras, agora, aqui, Guido Guerra, para definir a vossa própria pessoa. Para incluí-lo nesta valorosa estirpe dos homens de caráter, de homens de bem.

Vós, que adentrastes a carreira jornalística no momento mais rico da nossa imprensa, no Jornal da Bahia de João Carlos Teixeira Gomes, João Ubaldo Ribeiro, Ariovaldo Matos, Flávio Costa, José Gorender, David Sales, Paulo Gil Soares e Florisvaldo Mattos, entre outros, exercestes, também, em outros órgãos da imprensa, a exemplo de O Estado da Bahia e do Diário de Notícias, a resistência devida aos “caprichos da violência indiscriminada que se estendia das ruas aos cárceres, dos cárceres às salas de tortura à prova de som, de que não se excluíam as tentações dos paus de arara, do choque elétrico, das lavagens cerebrais, dos acidentes engenhosamente montados, dos desaparecidos atirados à vala comum dos cemitérios clandestinos”. Por isto – e por outras “atividades subversivas” mais prosaicas, como a de proferir, pela primeira vez, num programa de TV a palavra “porreta” – respondestes a 17 inquéritos e interpelações do regime militar. Devemos admitir, ao bem da verdade, que éreis, de fato, segundo a definição lapidar de Cid Seixas, um “irreverente guardião dos maus costumes”.

* * * *


Senhoras e senhores,

Já me aproximando do final deste discurso, quero realizar, conforme disse nossa querida confreira, a escritora Cleise Mendes, o meu ritual de agradecimento como ato solene de presentificação. Quero ressaltar, antes de tudo, minha profunda gratidão aos meus pais. Ele, Amadeu Alves Ribeiro, primogênito da tradicional família Ribeiro, do município de Conceição de Jacuípe, mais especificamente da localidade de Gameleira, no interior da Bahia. Ela, Maria Mirena, dona Mira, que, nascida na cidade de Pedrinhas, no interior de Sergipe, migrou, nos distantes anos 40 do século passado, para uma Salvador provinciana; uma Salvador na qual, muito diversamente da pressa que hoje nos devora os dias, as horas se arrastavam, dolentemente, numa paisagem sépia, como a vejo, agora, retrospectivamente, cortada por bondes preguiçosos que hoje gemem em ruas distantes da memória.

Professor de Português e Francês e vice-diretor do Colégio Estadual Governador Lomanto Jr, em Itapuã, meu pai foi um homem singular, de idéias avançadas para o seu tempo. Tive o privilégio de conviver com ele nos primeiros 14 anos de minha vida, até que o destino o colheu, naquela tarde de sábado de 7 de julho de 1973, num acidente de carro, em Amélia Rodrigues. Sete anos depois, em 1980, minha mãe também partiria, em conseqüência de uma cirurgia mal sucedida, no COT do Canela. Despedia-se de nós, prematuramente, aos 55 anos, uma mulher simples e amorosa, sem educação formal, mas excelente doceira que soube transmitir para os seus filhos valores que soubemos preservar como um tesouro inestimável.

Tive, portanto, meus prezados amigos, a felicidade de ter convivido com pessoas especiais – de duas famílias numerosas, cujos pilares, do lado paterno, estão bem representados nas figuras do meu avô Tranqüilino e da minha avó Anália. Ele um sertanejo severo, patriarca de duros gestos e infinita bondade; ela, de doces gestos e inesgotável ternura. E meus tios: Amâncio, que não conheci, Armando, Macedônio, João, Eulálio, Amado, Bela, Teresa, Nelson e América, minha madrinha. E, do lado materno, minhas queridas tias-primas, Rizo, Lurdes, Nicinha, Dalva, Austerclino, Lurdes, sergipana retada, com quem subia a ladeira do Carmo, em manhãs frias dos invernos dantanho, enfrentando rajadas de vento, como o Capitão Scott em sua jornada para o Pólo Sul, até a escola da professora Almerinda – lá, onde aprendi a juntar as primeiras letras deste discurso, que, vejam bem, já havia começado a escrever lá atrás.

Sou, portanto, um pequeno afluente desses dois rios, que se encontraram, como mágica, na misteriosa alquimia que une a poderosa força da vida, e o amor. Meus pais são os alicerces de um vasto território de afetividades. Nele, ocupam lugar privilegiado meus irmãos, Ailton Ribeiro, biólogo, comerciante de peixes e plantas ornamentais, paisagista criativo, foi, desde quando me entendo por gente, meu grande mestre e instrutor. Tina Ribeiro, cantora talentosa, e Amadeu Alves, compositor e agitador cultural, ambos fiéis às nossas raízes, à Itapuã mítica e lendária que nos trazem, das sombras do esquecimento, através de suas canções.

Lugar especial, neste inventário de afetividades, está reservado para a minha mulher, Terezinha Berber, e os meus filhos: Rodrigo, fruto de nossa comunhão física e espiritual, e Felipe, que conheci quando ele tinha apenas sete anos de idade – e que, hoje, aos 27, mostra-se motivo de orgulho e satisfação para mim, que sempre me esforcei para ocupar o vazio deixado pelo seu pai, o fotógrafo Wagner Berber, falecido em 1982. A Terezinha devo a alegria de uma família, preservada, como um bom poema, com inspiração, mas também com esforço e determinação.

A eles somam-se amigos com os quais tive o privilégio de conviver, desde a minha infância: Bira, Antonio e Flávio Silvane, meus grandes companheiros de sempre Raimundo Rocha e Geraldo Alves, Dimas, Aquino, Raimunda, nossa saudosa irmã de criação, Raimunda Pedro, amiga de todas as horas, Ney Sá, companheiro das longas caminhadas pelo interior baiano, Luiz Cláudio Marigo, Xando Pereira, Luís Trinchão e Carlos Rizério. E, em especial, meus amigos-irmãos, companheiros de longas viagens pelos territórios encantados de um sonho: o de construir a paz e a fraternidade universal. A estes, tão numerosos que me torna impossível citar nomes sem cometer injustiças, mas representados, aqui, na doce e amorosa figura de Maria do Carmo Barreto, agradeço, imensamente, de coração, a honra de compartilhar este momento.

* * * *

Lembro-me, meus amigos, de uma tarde distante do ano de 1975. Eu fazia uma redação, no Colégio Central, quando me veio um pensamento incomum: o de que não tinha mais o que aprender sobre a arte de escrever. Eu tinha 15 anos de idade e cinco mil anos de pretensão. De lá para cá vim encontrando, dia após dia, ano após ano, imensas dificuldades, tremendas limitações neste penoso ofício que me escolheu. Quantas vezes tive dificuldade para escrever um simples bilhete? Quanto suei para avançar em duas linhas numa reportagem, num conto, num artigo?

Na minha atividade como jornalista ambiental, muitas vezes fui posto à prova na tentativa de expressar experiências e visões que estavam muito além das palavras. Afinal, como transmitir para as pessoas o êxtase proporcionado pela visão de um grande cardume de cororocas desenvolvendo um balé subaquático sinuoso e sincronizado? Como descrever a sensação provocada pela observação do caminhar em fila indiana de meia dúzia de lagostas no solo marinho? Que recursos usar para transmitir a beleza majestosa de uma tartaruga verde nadando em direção ao litoral em um dia típico de verão para a postura de centenas de ovos a 70 centímetros do solo em uma noite recheada de estrelas?

Aqui evoco imagens que marcaram, para sempre, minha experiência como jornalista: um pôr do sol e uma lua cheia nascendo, simultâneos, numa deserta praia de Jericoacoara dos anos 80; duas arraias gigantes, nadando, abaixo de mim, sobre os corais de Abrolhos; o vôo lento e circular de um gavião peneira sobre as serras avermelhadas do Raso da Catarina. Uma ariranha deslizando sobre o tronco de uma samaúma para mergulhar nas águas escuras do lago Mamirauá, no Alto Amazonas. Aqui estão as paisagens grandiosas da Antártida, com suas geleiras, montanhas cinzentas coroadas de neve, catedrais de gelo mesclando verde, azul e branco em combinações fascinantes; icebergs deslizando no mar, focas, pingüins, estações científicas estrangeiras, navios e helicópteros na movimentada rota do fim do mundo. Observem, a harpia traçando círculos no céu luminoso deste país que aprendi a amar e as lamparinas ainda nos trazem, do fundo dos tempos, o cheiro doce do óleo da baleia; e o velho trem sacolejante corta a noite do sertão – café-com-pão-bolacha-não, café-com-pão-bolacha-não – e ele passa banhado pelo luar, que como este mió não há, e que derrama sua luz leitosa sobre as barrancas, caatingas e falésias – e se estende para este salão, para este privilegiado território de afetividades.
Sim, são os afetos, nossos insubstituíveis afetos, as tochas que carregamos para atravessar esta precária ponte suspensa sobre o abismo.

Muito obrigado.

 

Salvador, 31 de maio de 2007

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