Dia Nacional do Circo

Arte em transformação
Carlos Ribeiro

Circo, pode-se dizer, não sem ressalva, é uma espécie de criatura do dr. Frankenstein, que, ao longo dos séculos, vem agregando, a si mesma, partes díspares, não de corpos, mas dos gestos, das habilidades e dos feitos humanos que nascem do desejo de perfeição. No salto do trapezista, no gesto do domador que se impõe às feras, na precisão milimétrica do lançador de facas, no domínio dos palhaços sobre as emoções, repousa, subjacente, o desejo íntimo de, como ícaro, alcançar alturas proibidas ao homem. Desejo efêmero em suas infinitas repetições. Talvez por isso haja, nele, uma indefinida tristeza, que permeia todas as alegrias que se forjam no picadeiro.
Claro que a comparação com a personagem de Mary Shelley não é feita, aqui, sob o aspecto da aparência exterior. O que importa, neste caso, é a melancolia do sonho que, por alguns momentos, deixa a todos, artistas e platéia, em suspenso – mas que, inevitavelmente, terá que se desfazer.

Longa trajetória
São diversas as origens dos elementos que compõem o repertório do circo, conforme o conhecemos hoje. No texto Circo, Arte Milenar, o pesquisador Roberto Ruiz lança alguma luz sobre esta questão. Diz ele: “A rigor, é muito difícil precisar a data de origem dos espetáculos, em recintos abertos ou fechados, que marcam o surgimento do gênero”.
No ano 70 antes de Cristo, em Pompéia, já existia um enorme anfiteatro, destinado a exibições de habilidades que, mais tarde, seriam caracterizadas como circenses. Mas são os chineses que “reivindicam para si mesmos a remota origem de todo esse mundo de encantamento que se resume numa palavra mágica – circo – como espetáculo completo”. Teria sido na China que a habilidade dos acrobatas e malabaristas se harmonizaria com as expressões artísticas da música e do teatro.

No Ocidente, após a queda do Império Romano, as artes circenses deixaram, gradativamente, os recintos fechados dos anfiteatros. Os artistas tiveram “que habituar-se à improvisação, aproveitando, para as suas exibições, as praças públicas e até mesmo as largas entradas das igrejas”. Estava dada a deixa para os saltimbancos, que percorreriam os caminhos da Idade Média.

O circo, tal como o conhecemos hoje, surgiu há apenas dois séculos, mais precisamente em 1770, quando o inglês Philip Astley organizou seu espetáculo eqüestre, completando-o com saltimbancos, funâmbulos, saltadores e até um palhaço, que se revezavam com os números hípicos. Com Astley, o circo se tornou empreendimento empresarial. O modelo se espalhou rapidamente por outros países, e, em 1883, atravessou o Atlântico para os Estados Unidos, chegando ao Brasil poucos anos depois. Segundo Ruiz, já existiam registros da existência de saltimbancos no Brasil desde o século XVII, mas sempre agregados a representações teatrais.

Expressão brasileira nasce com Piolim
O circo só ganharia um sotaque brasileiro, neste século, com o palhaço Piolim (1897-1974). “Ele foi o primeiro a trazer a brasilidade para o picadeiro”, diz Anselmo Serrat, diretor artístico da Escola Picolino de Artes do Circo. Anselmo enfatiza a grande admiração que modernistas do Movimento de 22, como Mário e Oswald de Andrade, tinham pelo palhaço. Nascido Abelardo Pinto (o nome piolim significa barbante, em espanhol), ele influenciou, de forma definitiva, as artes circenses, no Brasil, razão pela qual foi instituído, no dia 27 de março (data do seu nascimento), o Dia Nacional do Circo. “A data é uma homenagem a esse artista, que morreu em 1974, com quase 80 anos de idade, sem realizar o sonho de criar uma escola de circo no Brasil”, diz Anselmo. Ironicamente, a escola foi criada, em 1975, em São Paulo, apenas um ano depois da morte de Piolim.

O novo circo
A velha estrutura do circo, criada por Philip Astley, no século XIX, está sendo progressivamente trocada por linguagens mais contemporâneas, traduzidas, de forma geral, pelo conceito de novo circo. Este conceito abrange grupos diversos, como o Cirque du Soleil, francês, e os brasileiros Abrakadabra e Intrépida Troupe. Na Bahia, a Escola Picolino de Artes do Circo é um exemplo desta renovação.
O novo circo caracteriza-se, entre outros aspectos, por uma estrutura mais leve, na qual são enfatizados os aspectos artísticos, com ênfase na música e no malabarismo associados à dança. Um exemplo desta visão é o afastamento da exploração dos animais no picadeiro. Segundo Anselmo Serrat, “só existem dois caminhos para o circo no século XX: o das companhias pequenas, que têm maior mobilidade, e o das que se baseiam nos efeitos especiais. O circo tradicional caminha para a extinção. Quem se apegar àquele modelo irá, inevitavelmente, desaparecer”.

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