Desafios para um jornalismo mais humano

Carlos Ribeiro*

O curso de jornalismo da UFRB surgiu e vem se consolidando num momento e lugar especiais. Momento e lugar cujas características convergem numa constatação: a de que ambos não cabem num modelo redutor da prática jornalística, a do jornalismo factual, restrito à mera exposição objetiva de nomes, datas e acontecimentos.

Aqui, agora, neste momento histórico – porque vivemos um momento histórico e é importante termos consciência disto –, percebemos que a cidade de Cachoeira e o Recôncavo da Bahia, com sua(s) história(s), com sua natureza exuberante ameaçada por um modelo econômico predatório, com sua complexidade social e étnica, com sua diversidade cultural, com seu patrimônio arquitetônico singular, exigirão dos futuros jornalistas aqui formados muito mais do que habilidade e eficiência no domínio de técnicas.
O jornalista que sair desta universidade para o exercício pleno da profissão precisará ser alguém que pense com profundidade e que sinta as necessidades do ambiente em que vive e atua; que se comprometa integralmente com o desenvolvimento desta região e com o bem estar de suas comunidades. E que tenha consciência clara de que esse desenvolvimento não deve ser visto em um sentido meramente tecnicista, mas num sentido real de melhoria da qualidade de vida da população.

O profissional de jornalismo não deve jamais ser um mero burocrata das letras, nem um inocente útil, nem um praticante do “jornalismo canalha” referido por José Arbex Jr.: aquele que estabelece uma relação promíscua com o poder político e econômico vigentes. Deve ser um crítico e vigia desse poder.

É certo que muitos dos profissionais que saírem do CAHL ganharão mundo, pois o fato do curso estar localizado numa determinada região da Bahia, fora da capital, não a torna regionalista no sentido restritivo do termo. Mas é fato, também, que muitos ficarão aqui, atuando localmente. Não é preciso bola de cristal para imaginar as conseqüências disto: ampliação do mercado cultural, dinamização e redimensionamento dos meios de comunicação social existentes e a serem criados, criação de assessorias de imprensa, reconfiguração dos procedimentos políticos e dos “jogos de poder” e a possibilidade de tornar mais visíveis segmentos até então pouco valorizados da sociedade local.

Nesse sentido há uma esfera jornalística para a qual o município de Cachoeira se presta com perfeição: a do jornalismo literário. Entenda-se como jornalismo literário aquele no qual o repórter imprime na mente e na sensibilidade do leitor uma marca singular: a da experiência. Uma experiência compartilhada que abrange, não apenas fatos e notícias descontextualizados, mas personagens reais, vivências, diálogos, pensamentos, histórias, cenários, ambientes, sentimentos e emoção.

A reportagem – ou grande reportagem, ou narrativa não-ficcional – possibilita ao jornalista colocar o seu ângulo de observação e a marca da sua sensibilidade. Possibilita, tal como na atividade do bom fotógrafo, acrescentar à luz exterior a luz do seu próprio olhar; à “objetividade” dos acontecimentos, a subjetividade enriquecedora dos seus protagonistas e do próprio jornalista que recria o real, embora sempre fiel aos fatos, pois que, sem estes, não há jornalismo.

A ênfase nessa vertente tão necessária da prática jornalística, hoje mais presente na mídia livro do que nos jornais – deve ser observada e acompanhada com atenção pela nossa universidade. Há uma tendência marcante que não deve ser subestimada. Basta ver a atuação da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) que realiza em São Paulo um curso de pós-graduação lato sensu em Jornalismo Literário com resultados interessantes. A publicação, pela entidade, do livro Jornalistas literários (Summus Editorial, 2007) reúne dezesseis reportagens feitas pelos alunos do curso e aponta para a necessidade urgente de se humanizar os textos jornalísticos, levantando informações históricas sobre regiões esquecidas, analisando fenômenos sócio-ambientais, enfocando costumes singulares e retratando seres humanos hoje praticamente excluídos do noticiário “objetivo” dos jornais.

Quantas histórias existem nas cidades, roças e povoados do Recôncavo Baiano que devem ser contadas? Histórias da gente de carne e osso e não apenas as dos heróis do passado, quase sempre idealizadas, quando não falsificadas de acordo com as conveniências dos vencedores. E como elas podem nos ajudar a entender e a transformar a realidade presente!

Acredito que os futuros jornalistas da UFRB serão capazes de contar essas histórias e de testemunhar sobre o tempo presente tendo como principais recursos a capacidade de levantar dados, de observar acuradamente a realidade e de, através da linguagem expressiva, gerar sentidos e construir significados.

* Carlos Ribeiro é professor assistente da UFRB onde ensina as disciplinas Oficina de Textos, Comunicação Jornalística e Ética e Legislação dos Meios de Comunicação.

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