Caleidoscópio jornalístico

A produção jornalística de Thales de Azevedo aparece de forma secundária no conjunto de sua obra. Razões, talvez, não faltem para isto. Seu livro mais conhecido, Povoamento da Cidade de Salvador, tal como outras obras capitais da nossa história literária e cultural, tende a projetar uma extensa sombra sobre outros textos, às vezes considerados “menores”, que merecem um olhar mais atento do pesquisador.

A releitura de Thales de Azevedo é, portanto, oportunidade valiosa para observarmos outros aspectos da sua produção, sobretudo aqueles que, além ou à margem do âmbito acadêmico-universitário, espraiam-se largamente no território das artes e da imprensa diária. Primeiro porque, devido ao fato dele ser mais conhecido e referido por sua obra ensaística publicada em livro ou em periódicos especializados, que, aliás, constitui um corpus bastante amplo, nas áreas da medicina, da antropologia, da historiografia e da sociologia, entre outras, é muitas vezes, em seus escritos jornalísticos e literários que se encontram algumas chaves para a devida compreensão e reavaliação de sua influência no pensamento dos seus contemporâneos; segundo, porque nela mesma possa existir uma grandeza não devidamente avaliada no tempo em que foi concebida.

Ambos os aspectos podem ser evocados na leitura da sua extensa produção, que, iniciada em 1923, em Ilhéus, quando ainda estudante de Medicina, consolidar-se-ia, anos mais tarde, com os artigos publicados no Diário Oficial, no Diário da Bahia e finalmente no jornal A Tarde, estendendo-se por mais de 70 anos!, até a sua morte, em 5 de agosto de 1995.

Pode-se dizer que o jornalista Thales nasceu antes do antropólogo, do historiador e, mesmo, do médico, mas somente do ponto de vista cronológico, considerando-se que sua atividade prática em medicina só se daria a partir de 1928, e a de professor universitário em 1943. Ele mesmo dirá, em suas Memórias, que, “No meu tempo de acadêmico, os moços que precisavam ganhar uns milreisinhos para seus gastos imediatos procuravam um lugar nos jornais para corrigir provas tipográficas, outros para redigir notícias ou fazer reportagens, entrevistas, traduções de telegramas do estrangeiro”[1]. Admitido, ainda nos anos 20, no Diário Oficial, prosseguiria sua trajetória no Diário da Bahia onde se deu, de fato, sua iniciação no jornalismo, inicialmente como revisor e, mais tarde, como noticiarista, em A Tarde onde se consolidou como articulista.

Ali escreveria sobre uma ampla variedade de temas, englobando questões históricas, urbanísticas, sociais, políticas, culturais, acadêmicas, raciais e comportamentais as mais diversas, deixando, em todas elas, a densidade e argúcia das suas análises, posicionamentos e reflexões.

Há, entretanto, um dado significativo a se considerar: que em toda a sua produção ensaística publicada em periódicos da grande imprensa, encontram-se o olhar, o método analítico e a marca singular do cientista social. Nesse sentido, é praticamente impossível dissociar as diversas faces e fases do polígrafo na medida em que o seu amplo espectro de assuntos transita, incansavelmente, das páginas dos jornais para as de revistas, livros, teses, opúsculos, monografias, catálogos, anais e coletâneas, compondo um mosaico que ultrapassa e, muitas vezes, desconhece as fronteiras impostas aos gêneros e mídias. Assim, páginas de jornais, pouco afeitas à pretensão de imortalidade, trazem artigos com temas que serão posteriormente desenvolvidos em ensaios para revistas especializadas e livros; ou, ao contrário, recebem destes a reflexão já devidamente maturada, mas num estilo fluido, sem saltos altos, sempre acessível a um público mais amplo que sempre o prestigiou ao longo de sua trajetória intelectual.

Numa visita ao site www.thalesdeazevedo.com.br, selecionamos alguns artigos, todos eles publicados no jornal A Tarde, entre 1960 e 1995, relacionados a temas como a Bahia e Salvador: aspectos históricos e ecológicos, temas leves ligados ao que muito apropriadamente se convencionou chamar de “etnografia do cotidiano”, questões políticas e sociais, Igreja e religião, discriminação racial e o próprio jornalismo. Alguns dos quais comentaremos, com a brevidade que o espaço para esta apresentação exige, com o objetivo de assinalar a importância dessa área de atuação do ilustre mestre e professor.

A experiência nos jornais representou para o autor de Cultura e situação racial no Brasil um processo de iniciação em sua vida profissional. “Escrever em jornal foi desde muito uma das maneiras de formação do acadêmico nas escolas superiores do Brasil”. Uma formação que se dava, não apenas no aprendizado da comunicação direta com o público através da palavra escrita, como também no fértil convívio com intelectuais e “colaboradores de estofo” que habitavam os jornais (isto no tempo em que havia intelectuais de estofo nas redações dos jornais). Em várias oportunidades, Thales expressou sua gratidão a personalidades como Arthur Arésio da Fonseca, Henrique Câncio, Ranulfo de Oliveira, Aloysio de Carvalho (Lulu Parola), Wenceslau Galo, Jorge Calmon e ao próprio Ernesto Simões Filho, fundador e proprietário de A Tarde.

O conhecimento íntimo e profundo dos mecanismos de um jornal diário permitiu-lhe incluir este mesmo tema dentre os seus objetos de análise. Ao mesmo tempo em que participou da engrenagem das redações, teve o devido distanciamento para traçar e interpretar a “fisionomia do jornal” na posição privilegiada de quem pode lê-lo “com certo espírito de análise e preocupado em verificar de que modo a imprensa se coloca entre os meios de comunicação com as massas” (“Jornais e jornalistas”, 2/4/1976).

O funcionamento detalhado das redações é descrito a partir da definição dos papeis daqueles que o fazem (repórteres, colunistas, redatores especializados), das suas seções, da maneira de noticiar e das exigências e interesses do seu público leitor. Tinha em mente que “os jornais, os quotidianos, os diários são a contrapartida por assim dizer popular e política das publicações periódicas de interesse filosófico, literário e científico surgidas durante o século dezoito aos grandes centros de cultura”, (“O jornal como ação e informação”, 31/10/1970), o que parece dizer algo do caráter participante do intelectual contemporâneo – dele próprio – que, embora atuante nos segmentos mais especializados, não abre mão do contato com o leitor comum, com o público amplo e indeterminado das ruas.

A militância no jornalismo era a forma mais eficaz de intervenção nas questões políticas, sociais, culturais e ambientais do seu tempo. E nisto ele foi também pioneiro. Por exemplo, quando abordou questões ecológicas da maior importância, mas até então de pouca visibilidade na grande imprensa, denunciando, com minúcias de observador arguto, o desaparecimento de diversas espécies vegetais – as palmeiras imperiais “esguias, muito altas e elegantes”, os algodoeiros-da-praia “que sombreavam o Largo do Teatro, o Boulevard de Itaparica, várias ruas e as praias de nossa cidade e de muitas das pequenas cidades do nosso litoral”, os tamarindeiros, pitangueiras que formavam alamedas “à entrada das casas de veraneio”, além de nomear flores cujo, odor “ao mesmo tempo forte e agradável” desaparecia, pouco a pouco, da nossa paisagem física, cultural e afetiva. (“As árvores antigas”, 4/2/1970).

A estas questões, somavam-se a derrubada contínua das florestas, o comércio de peles de animais silvestres, a poluição do ar, dos rios e da nossa Baía de Todos-os-Santos, a “rutura dos ecossistemas regionais”, “a redução dos espaços e dos revestimentos florísticos das chácaras, pomares e quintais”, entre outras práticas deletérias que “vão transformando as nossas cidades, mesmo as menores, em lugares inóspitos e desagradáveis pela falta de parques, de jardins públicos, de áreas verdes”. (“Problemas da máxima urgência”, 17/9/1971).

A visão ecológica de Thales era também uma análise em profundidade do modelo de desenvolvimento industrial adotado no estado e no país como um todo. “A refinação e aproveitamento do petróleo, a captação de gases naturais, o fabrico de cimento, de produtos químicos, de negro-de-fumo, de asfalto, a siderurgia e outras indústrias, em Itapagipe, no Retiro, em Aratu, em Arembepe, em Mapele, em Candeias e vários lugares, começam a constituir-se em motivo de queixas e de justas apreensões”.

Em paralelo à destruição do patrimônio natural, a preservação do patrimônio histórico era-lhe fonte de profunda inquietação. Em “A história e a fisionomia da cidade” (22/11/1975), lamenta e denuncia “A inesperada demolição do templo anglicano do Campo Grande”, considerado “uma perda para a fisionomia e para a história desta capital”. Perda antecedida de tantas outras. “Não faltam exemplos, na Vitória, no centro da cidade e noutros bairros, de mutilações e depredações que desfiguram a velha Salvador, de tal maneira que sua imagem me vai retroagindo a áreas cada vez menores e típicas apenas de determinado período remoto de nossa formação urbana”. (“A história e a fisionomia da cidade”, 22/11/1975).

A desumanização da cidade de Salvador e do próprio conceito de cidade no Brasil é exemplificada pela proliferação de prédios de apartamentos ou de um “casario sem estilo e sem espaços circundantes nos novos bairros” para onde a população é agora empurrada e comprimida. Os apartamentos e a maioria das casas, diz ele, tornam-se meras “máquinas de morar”, “sem o sabor próprio de uma civilização acentuadamente humana como é ainda a baiana, mas que se descaracteriza aceleradamente sob o influxo daquilo a que Fernando Peres, no grito de alerta que é sua ‘Memória da Sé’, apelida de progressismo demolidor”. Daí a necessidade de “uma urgente tomada de consciência de que o crescimento e o progresso não devem levar de cambulhada aquilo que ainda nos é, por bem dizer, exclusivo entre as maiores cidades brasileiras (…), para que não nos tornemos em abominações tais como as que malsinam outras metrópoles”.

Pouco mais de dez anos antes desta grave advertência, Thales, após longo período passado fora da Bahia, ainda podia – e achava mesmo necessário – falar dela como uma “boa terra”, “sem as aspas que fazem daquela locução, não raro, uma ironia”. Bahia que era admirada, no exterior, por onde andara, por sua música, perlo romance de Jorge Amado, por sua atividade artística, pela “combinação de uma natureza virgem com uma arquitetura antiga”, mas, sobretudo, por “um modo de vida ainda pouco tocado da agitação da competição industrial e algo de novo, de moderno, de atual, um clima suave e leve”. (“A sedução da Bahia sobre os europeus”, 18/11/1963).Alerta que, infelizmente, meio século depois ainda não foi ouvido pelas autoridades que nos governam.

Outros problemas que subsistiam, ao longo dos séculos, mudando apenas sua roupagem, não escapariam ao olhar do sociólogo. Em “Um crime de todos nós” (29/5/1981), denuncia a violência que ocorria “na prisão situada nos porões da Secretaria de Segurança, chamada sinistramente de Depósito de Presos”. Utilizara, então, o mesmo título de um artigo publicado 23 anos antes, “porque me parecia que todos os baianos éramos cúmplices, uma vez que não protestávamos, como devíamos, contra as violências e desumanidades que ali se cometiam”. Ao estender a reflexão “às chocantes imperfeições dos nossos sistemas penitenciários e carcerários”, trazia à tona uma questão que se agravaria, ao longo dos anos, e que permanece hoje mais do que nunca atual: a da extrema desumanização e violência existentes nos presídios, refletindo-se na sociedade como um todo.

Assim ocorre com outros temas que permanecem atuais, ainda que com outros personagens e circunstâncias, a exemplo da intolerância religiosa no Brasil, como se pode ver em “Uma virtude brasileira” (28/6/1973), e, em uma área mais polêmica, a questão racial. Em “A questão do racismo no Brasil: velhas ‘ideias novas’” (17/1/1986), ele sumaria concepções de diversos cientistas e pensadores, desde o século XIX, “sobre a natureza do ser humano e sobre a posição das raças humanas”, algumas delas desenvolvidas sob a influência política das potências europeias colonialistas. Ideias que continuariam “muito tempo a posicionar outros pesquisadores brasileiros, apesar das objeções que lhe iam sendo levantadas”.

Relembra mesmo posicionamento tomado, fazia 58 anos, em relação aos índios, “sobre as concepções de doença e a medicina dos povoadores mananciais do nosso território”, mostrando “a inconsistência científica do racismo, o erro político dos planos do nosso ‘branqueamento’, o equívoco da oposição entre os grupos étnicos que concorrem para nosso povoamento e para a nossa cultura; aí caracterizo os preconceitos e discriminações ainda existentes entre nós, como denúncia indispensável à correção de rumos que levem às separações e antagonismos que negam nossa tradição e herança cultural, trazidos de civilizações que procuram hoje curar-se desses terríveis males sociais e políticos”.

Para finalizar esta já extensa apresentação, destacamos mais duas vertentes da produção do antropólogo. Uma delas diz respeito à grande atenção dada por ele à instituição universitária. São muitos os textos em que analisa, descreve, critica e propõe novos rumos para a universidade brasileira[2], chamando a atenção, entre outras coisas, para “a incapacidade da Universidade de reagir como um todo para atualizar-se e para encontrar a sua missão na circunstância brasileira moderna” (“A crise universitária: estrutura e função”, 22/2/1961). Em “Contra ‘estes’ vestibulares” (12/2/1977), aborda uma questão que, além de manter-se atual, é agravada hoje por uma muitas vezes ilusória ideia de inclusão social mediante o simples acesso ao ensino superior, sem considerar sérias dificuldades relacionadas a um “alarmante desemprego acadêmico”, criando-se, consequentemente, uma “legião de frustrados”. Está ainda a fazer-se (ou, pelo menos, divulgar-se) um estudo sério sobre o número de jovens egressos de instituições de nível superior para o mercado de trabalho – sobretudo após o aumento exorbitante das faculdades particulares nos anos 90/2000 – que nem de longe encontram um quadro minimamente favorável às suas expectativas.

O último ponto, não menos importante, ao contrário, de especial relevância na obra aqui analisada, é a dos aspectos cotidianos da vida – aqueles que, por sua aparente desimportância ou obviedade, ficaram até então ausentes no âmbito da antropologia. Questões que, ao serem desveladas, expressam um grande avanço na compreensão de hábitos, costumes e tendências sociais, constituindo-se em um campo praticamente inexplorado e ao qual Thales de Azevedo imprimiu a marca indelével da sua análise.

Com delicioso sabor de crônica, estes textos trazem considerações sobre temas como o cafezinho brasileiro, o futebol, o carnaval, modistas e cozinheiras, palavrões e nomes feios, entre tantos outros.[3]

É evidente, na obra de Thales de Azevedo, o fato de que seus temas e motivos não se limitam à sua erudição e formação livresca. Ela vem, de forma marcante e enriquecedora, de uma sensibilidade apurada em relação à própria vida, que viveu com intensidade e que observou e estudou em minúcias. Daí talvez a sua originalidade e o seu frescor, como mostra o seguinte depoimento de sua filha, a socióloga Maria de Azevedo Brandão.

“Antes de tudo, essa sensibilidade pelo cotidiano vem de casa. De um mundo sob outros ritmos, não intoxicado pela técnica e pelo consumo compulsivo, imensamente menos encapsulado pela ideologia, onde ao trato entre os vizinhos e parentes, distante e respeitoso, somava-se o ir frequentemente a pé de um lugar a outro, o viver em diferentes moradas, o fazer lentas viagens, cheias de paragens e pousos em lugares novos, dando margem a ver o mundo como através de um caleidoscópio: faces, coisas, modos de ser, tudo; cada um como uma redescoberta do ouvido falar, mas irremediavelmente fascinante pelo insuspeitável de cada novo gesto, palavra e sentimento”[4].

 

[1] Trecho das Memórias de Thales de Azevedo publicado no Suplemento Cultural do jornal A TARDE, em 16 de setembro de 1995, com o título “Carreira de jornalista”.

[2] Dentre os artigos que constam no site do autor, identificamos os seguintes: “Um confronto entre sistemas universitários” (1/6/1960), “A crise universitária: ‘conhecimento da situação’” (18/1/1961), “A crise universitária: elementos estruturais” (1/2/1961), “A crise universitária: estrutura e função” (22/2/1961), “Missão da nova faculdade” (22/3/1961), “A crise universitária: a reforma” (17/5/1961), “Princípios e normas para a reforma universitária” (26/8/1966), “Os sete males da Universidade” (4/6/1976) e “Contra ‘estes’ vestibulares” (12/2/1977).

[3] Em Memória do saber (Rio de Janeiro: Fundação Miguel de Cervantes, 2013, página 119), Maria de Azevedo  Brandão enumera alguns temas relacionados a uma socioetnografia do cotidiano, tais como o preço da carne, a mancebia, a prostituição, a vadiagem, a alimentação, os temperos, o sal, os talheres, o sabão, os jejuns, o vomitório, a morte.

[4] BRANDÃO, Maria de Azevedo R. Memória do saber. Rio de Janeiro: Fundação Miguel de Cervantes, 2013, p. 123.

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