Bahia Madastra

Jornal A Tarde – 20/05/06
Carlos Ribeiro

ESQUECIDOS – Um simples olhar para trás, no tempo, é suficiente para descortinar, no panorama da literatura e da ensaística baianas, um rico acervo de obras e autores subestimados e esquecidos. Até mesmo ficcionistas, poetas e ensaístas de grande prestígio, em sua época, são lembrados por um ou dois títulos, que não são reeditados ou, quando muito, ganham edições tímidas, acessíveis a um pequeno número de aficcionados.

São vários os motivos desse esquecimento. O mais evidente deles é a ausência de editoras no Estado e a inexistência de um mercado editorial para o autor baiano, que mais do que esquecido, é, em geral, completamente desconhecido para o grande público. Mas ha outros motivos, a exemplo da percepção, por parte da crítica, de que diversos desses autores estão associados a uma concepção estética superada, que não acompanhou as transformações operadas pelo modernismo.

Talvez o caso mais emblemático de um determinado espírito de época superado, em que o exercício de época superado, em que o exercício literário era, justa ou injustamente, vinculado ao beletrismo e ao diletantismo, seja o de Afrânio Peixoto (1876-1947), cuja obra ficcional e ensaística mereceria, conforme lembra o presidente da Academia de Letras da Bahia, Cláudio Veiga, uma atenção maior. ” Ele é um injustiçado. Os modernistas acabaram com ele, porque disse que a literatura é o sorrido da sociedade. Afrânio é autor de um bom livro,Breviário da Bahia, que, entre outros, merece ser reeditado”.

Veiga lembra também o nome de Almáquio Diniz, autor de uma História da Literatura Baiana do início do século XX. ” Almáquio escrevia muito, tinha muita cultura. Os inimigos o chamavam de Almanaque Diniz. Ele se perdeu pela quantidade de livros que publicou. Valia a pena publicar, além da sua história da literatura, a correspondência passiva dele. São cinco volumes de cartas com intelectuais de vários países”.

Para o presidente da ALB, autor de dois ensaios sobre Pethion de Vilar e Artur de Salles, representantes da poesia parnasiana e simbolista do início do século XX, é importante destacar, dentre os representantes da ficção baiana, num período mais recente, o nome de Ariovaldo Matos (1926-1988), do qual a Academia lancará, ainda este semestre, em parceria com a Assembléia Legislativa da Bahia, o romance inédito Anjos Caiados.

INJUSTIÇA – Outro autor desprezado, em sua própria terra, de acordo com o escritor Guido Guerra, é o poeta abolicionista Luís Gama (1830-1882). ” A Bahia sempre foi madrasta com a obra de Luís Gama. Somente em São Paulo é que se faz alguma coisa. Dele, aqui, só tem um busto, no Largo do Tanque, que Octavio Mangabeira mandou fazer”, diz Guido. Opinião reforçada pelo poeta Carlos Cunha: “Luís Gama é um autor jamais impresso na Bahia. Um autor notável para o qual a Bahia voltou as costas. Grande poesta negreiro, abolicionista, era para ter uma edição cotejada feita em sua terra”.

Na perspectiva da publicação de textos representativos de determinados autores, lembra o poeta e ensaísta Florisvaldo Mattos os romances Iacina, de Lindolfo Rocha (1862-1911), Corja, de Joaão Cordeiro (1905-1938), e o discurso de Octavio Mangabeira sobre Francisco Mangabeira (1879-1904), seu irmão – autor, aliás, de um relato sobre a Guerra de Canudos, Tragégia Épica, clássico estranhamente relegado ao esquecimento, talvez devido à sombra lançada sobre ele por Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Mas pode-se citar muitos outros títulos: Mirantes dos Aflitos, de Dias da Costa (1907-1975), Apicuns, de Aidano Pedreira do Couto Ferraz, Contos Regionais Brasileiros, de Pinto de Aguiar, os ensaios literários de Eugênio Gomes (1897-1972), A Linguagem Popularda Bahia, de Édison Carneiro (1912-1973), e Salões e Damas do Império, de Vanderley Pinho, entre muitos outros. Guido Guerra lembra ainda a poeta Emília Leitão Guerra e os ficcionistas Fernando Ramos, autor de O Demônio eOs EnforcadosGarbogini Quaglia, cujos contos são ligados à temática do mar, e Almir Vasconcelos, autor de Quarto Vazio e de contos antológicos que, segundo Guido, mereceriam ser reunidos numa edição, a exemplo de ” O Canário de Janjão” e “Carta Anônima para Teresa“.

ESTUDOS CRÍTICOS – A edição de títulos esparsos é importante, mas insuficiente. Autores como Afrânio Peixoto, Xavier Marques (1861-1942), Ariovaldo Matos e Vasconcelos Maia (1923-1288) devem ter sua obra completa editada. É importante reunir os estudos feitos sobre eles, para se ter uma idéia do valor estético e histórico da sua obra.

Para isto, é necessário formar um sistema da obra, reunindo fortuna crítica, estudo biográfico e estudo crítico contemporâneo. Neste caso, pode-se incluir ainda os nomes de Édison Carneiro (1912-1973), Manuel Querino(1851-1923) e Theodoro Sampaio(1855-1937), entre outros. Uma boa iniciativa, nesse sentido, é a publicação, ainda este ano, da obra coligida do escritor feirense Eurico Alves (1909-1974). Organizada pela filha de Alves, Maria Eugênia Boaventura, professora de Literatura da Unicamp, a obra reunirá artigos e ensaios já publicados e inéditos.

Em alguns casos, como o do poeta Durval de Morais (1882-1948), tal estudo depende apenas de recuros financeiros que o viabilizem e a decisão de realizá-lo, já que toda a sua obra, incluindo seu livro mais importante, A sombra Fecunda, foi doada pelo filho dele para a ALB. Em outros, a situação é mais complicada, principalmente no que se refere à obtenção dos direitos autorais.

Este é o caso, segundo o assessor para assuntos de cultura da presidência da Assembléia Legislativa da Bahia, Délio Pinheiro, dos livrosPorto Calendário, de Osório Alves de Castro (1901-1978), Teixeira Moleque, de Rui Santos, e Miçangas (ensaios), de Afrânio Peixoto, além da própria obra de Francisco Mangabeira – todos na mira do programa editorial da Assembléia, que tem previsto, para este ano, através de convênio com a ALB, a publicação de Figuras de Azulejo, livro de crônicas e ensaios de Pedro Calmon (1902-1985), além do citado romance inédito de Ariovaldo Matos.

Além destes, a Assembléia lançará, através da Coleção Ponte da Memória, os seguintes títulos: O Leque de Oxum (contos), de Vasconcelos Maia, e O Mundo Estranho dos Cangaceiros (ensaio histórico), de Estácio de Lima. Trata-se, segundo Guido Guerra, ddo único ensaio primário feito diretamente com os cangaceiros. “Estácio fez o percurso que os cangaceiros faziam, acompanhado do cangaceiro Ângelo”.

MEMÓRIA – Dentre as iniciativas de edição e reedição de autores clássicos baianos, destaca-se a iniciativa do Conselho Estadual de Cultura, com o projeto Memória da Bahia, lançado há cerca de dez anos pelo historiador Waldir Freitas de Oliveira. Nele já foram editados os romances Gado Humano, de Nestor Duarte, As Voltas da Estrada, de Xavier Marques, a obra poética reunida em um só volume, do poeta Sosígenes Costa, e a edição fac-similar da revista Samba, do final dos anos 20 do século passado.

” Temos em vista, para publicação, os livros Canção do Beco eMirantes dos Aflitos, de Dias da Costa, Dois Metros e Cinco, de Francisco Cardoso de Oliveira, grande novela picaresca da Bahia que teve duas edições pela Briguiet do Rio de Janeiro, na década de 10,Lavras Diamantinas, de Marcelino José das Neves, que considero ser o melhor romance sobre a Chapada Diamantina, e Água Barrenta, de Rui Santos, cujo centenário de nascimento comemora-se este ano”, diz Waldir Freitas.

Outras obras na mira do projeto são Teixeira Moleque (romance de costumes urbanos, o mesmo que o projeto da Assembléia Legislativa pretende editar), A Ilha de Itaparica, de Ubaldo Osório, e o romanceMercado Modelo, de Guilherme Dias Gomes, irmão do dramaturgo Dias Gomes. Os critérios de publicação do projeto Memória da Bahia, segundo Waldir Freitas, referem-se à qualidade do texto e ao valor documental, como informação e principalmente na questão dos costumes. “São depoimentos sobre a Bahia do passado”.

Numa linha mais ensaística, a Editora P555, em parceria com o Theatro XVIII, sob a coordenação da poeta Aninha Franco, criou a Coleção A/C Brasil (auto-conhecimento Brasil), pela qual já foram editados Memória a Respeito dos Escravos e Tráfico da Escravatura entre a Costa d´África e Brasil, de Luís Antônio de Olviera Mendes (1750-1814), e oAnimismo Feitichista dos Negros Baianos, do maranhense Nina Rodrigues (1862-1906). Para este ano estão previstos três títulos: A Raça Africana e seus Costumes na Bahia, de Manuel Querino, Capítulos da História Colonial, do cearense Capistrano de Abreu (1853-1927), e Correspondência da Guerra nos Palmares, com seleção de textos feita por Aninha Franco.


RENASCIMENTO À VISTA

Carlos Ribeiro

Três iniciativas importantes marcarão, este ano, o “renascimento” de personalidades marcantes da cultura baiana no século XX. Uma delas é a edição, pela Secretaria da Cultura e Turismo/Fundação Pedro Calmon, sob a organização do cineasta José Humberto, e com empenho pessoal do poeta e diretor da Fundação, Claudius Portugal, da obra completa do crítico de cinema Walter da Silveira. Serão quatro volumes, totalizando 1.680 páginas, reunindo todos os seus ensaios, artigos e o discurso de posse na ALB.

Outro destaque é o lançamento, pelo Centro de Estudos Baianos, com financiamento da Fundação Emílio Odebrecht, dos diários inéditos do poeta Godofredo Filho, organizado pelo poeta e ensaísta Fernando da Rocha Peres e pela professora do Instituto de Letras da Ufba Vera Hollemberg.

O diário, segundo Peres, cobre três décadas da existência do poeta e é fruto de seleção feita pelo próprio autor. A edição trará notas, índice remissivo, um caderno com fotografias e uma introdução do próprio Peres explicando todo o processo de elaboração do livro.

Finalmente, a edição da obra completa da poeta Jacinta Passos (1914-1973), organizada pela historiadora e escritora Janaína Amado (também filha de Jacinta), reunindo os quatro livros de poemas que ela publicou em vida, artigos de jornal que nunca foram publicados em livro e mais alguns inéditos que ela escreveu nos últimos anos de vida.

A este material serão acrescentados a fortuna crítica publicada sobre a obra dela, de críticos como Antonio Candido, Sergio Milliet, Roger Bastide e Aníbal Machado, ensaios feitos especialmente para a edição, por Hélio Pólvora, Florisvaldo Mattos, Guido Guerra e Gilfrancisco, entre outros, e uma biografia da poeta feita por Janaína.

Além da obra impressa, está sendo contruído o site www.jacintapassos.

com.br, reunindo parte deste material. “O site deverá estar no ar dentro dos próximos dias. Espero que, com estas iniciativas, a obra desta poeta importante possa se tornar mais conhecida”, diz a organizadora.

São diversas as iniciativas de reedição desses autores, mas, ao final de cada relançamento, o problema persiste: os livros caem no esquecimento sem atingir o público leitor que não seja interessado especificamente neste ou naquele autor. Tais livros, em sua grande maioria, sequer chegam às prateleiras das livrarias (sobretudo após o fechamento da Livraria da Torre e da Grandes Autores), à exceção do Espaço do Autor Baiano, mantido pelo governo do Estado, como mero paliativo, na Biblioteca Central e no Pelourinho.

A falta, por parte do governo, de mecanismos para vender o livro, a ausência de editoras comerciais, o completo desinteresse governamental no sentido de incluir esses autores, mortos e vivos, no currículo das escolas, além da completa ignorância da população quanto a esse rico acervo, que sobrevive de migalhas, revelam quão pequeno é o interesse político e mercadológico desse segmento (CR).

SILÊNCIO SOBRE A PRODUÇÃO FEMININA

Carlos Ribeiro

Se os escritores citados anteriormente podem ser rotulados de “esquecidos”, o que mais se pode dizer das mulheres escritoras que produziram seus poemas, contos, novelas, romances, artigos e memórias antes dos já distantes anos 40 do século passado? Se considerarmos correto o cânone estabelecido na antologia A Poesia Baiana do Século XX, organizada por Assis Brasil, a primeira poeta digna de registro é Jacinta Passos, cujos poemas começaram a ser publicados na década de 50. E só a partir da década de 60 haveria o reconhecimento de autoras importantes como Myriam Fraga, na poesia, e Sônia Coutinho, na ficção.

Ficam, portanto, esquecidos entre os esquecidos (e não há aqui um julgamento de valor, já que é preciso conhecer essa produção para se poder avaliá-la devidamente) nomes como os de Anna Ribeiro de Góes Bittencourt (18431930), Edith Gama Abreu (18981982) e Amélia Rodrigues (18611926), entre outras.

Já existem, entretanto, nas universidades, estudos literários e históricos que procuram rever ou re-ler a importância dos escritos dessas mulheres quase sempre produzidos na esfera doméstica. Uma novidade importante nesse sentido é o livro Entre a Tinta e o Papel – Memórias de Leituras e Escritas Femininas na Bahia (1870-1920), da historiadora Márcia Maria da Silva Barreiros Leite, professora da Universidade Católica do Salvador e da Uefs. A seguir, uma entrevista que a autora concedeu ao repórter Carlos Ribeiro.

O que lhe motivou a escrever este livro? O livro é fruto da minha tese de doutorado, pela PUC-SP, elaborada de 2000 a 2005, sob a orientação da profª drª Maria Odila Leite da Silva Dias. Eu sempre fui envolvida com o movimento feminista. Sempre fui engajada com demandas do nosso presente. A historiadora vai sempre voltar ao passado para compreender essas questões do presente. Eu sempre quis me dedicar às mulheres do século XIX e da primeira metade do século XX, porque sabia que essas mulheres escreviam, mas nunca tínhamos acesso aos escritos delas. Sabia que elas existiam, escreviam, tinham produção, mas eu não tinha acesso.

Achava estranho o silêncio sobre a produção feminina e da produção feminina.

Mas, como pesquisadora, foi difícil o acesso a essa produção? Não. Nas caminhadas nas bibliotecas, nos arquivos, eu achava esse material e via essa contradição. Eu achava esses escritos mas esses arquivos não vinham à tona. Não tinham visibilidade.

No que consiste esse material? 
Trabalhei com um tipo de documentação que é chamado de arquivos privados, pessoais: correspondências, cartas, retratos, memórias.
São papéis esquecidos e que para o historiador se constituem num senhor documento histórico.

O que a surpreendeu nessa garimpagem?
Trabalhei com diversas mulheres.
Agora, o interessante é que saí do lugar comum que coloca as mulheres, em todos os tempos históricos, como vítimas. Encontrei mulheres extremamente atuantes, que através da escrita conseguiram transgredir e às vezes transigir valores e modelos culturais impostos.

Pode dar exemplos?
Um caso emblemático é da autora Ana Autran, filha de pessoas super importantes da elite baiana, que travou, na década de 1870, uma polêmica com o jornalista importante do período, Belarmino Barreto, e que veio a público nas páginas do Diário da Bahia.

Que tipo de polêmica?
Era uma polêmica sobre direitos femininos. Ela defendia ardorosamente os direitos femininos. Uma menina jovem, de 16, 17 anos, saída da adolescência, defendeu, entre réplicas e tréplicas, pois a polêmica rendeu vários meses, o direito da mulher escrever, adentrar o campo das artes, da literatura, que era exclusivamente masculino.

Como você, que é historiadora, trata no livro a questão do valor estético desses escritos?
O aspecto estético não é secundário.
Como historiadora, fiz um diálogo interdisciplinar com professoras da área de letras. Elas que devem fazer essa avaliação estética.
Eu peguei uma historiografia literária que está pronta e estabeleci um diálogo com ela. Análises literárias de autoras como Ívia Alves, Lizir Archanjo, na Bahia, e Norma Teles Maria Eleutério, em São Paulo. Enfim, como historiadora, não tenho arcabouço cultural teórico para avaliar essas questões, mas posso garantir que muitas dessas mulheres não tinham trabalhos de má qualidade.

Quais as características da escrita feminina desse período?
É um tipo de escrita muito sentimental, que se faz com o sentimento, com o coração, que parece ao cânone como uma temática frívola.
Então os homens relegam essa temática à frivolidade. Mas isso não autoriza essa crítica masculina a dizer que nenhum tipo de escrita feminina não tem valor.

Existe, portanto, na sua opinião, uma voz feminina?
Com certeza temos uma voz e uma escrita femininas, que vêm do século XIX, e que nós captamos através dos documentos, de uma documentação primária que inclui os jornais.

ENTRE A TINTA E O PAPEL – Memórias de Leituras e Escritas Femininas na Bahia (1870-1920)
Márcia Maria da Silva Barreiros Leite
Quarteto Editora 336 págs.
(71) 3353-5364 R$ 35 

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