As Ganhadeira Estão Chegando

Apresentação do CD As ganhadeiras de Itapuã
Gravado no estúdio Coaxo do Sapo / Jacuípe / Bahia em agosto de 2012
Produção musical Alê Siqueira / Direção Musical e arranjos: Amadeu Alves
http://ganhadeirasdeitapua.blogspot.com.br/
https://www.facebook.com/AsGanhadeirasdeItapua

A história da ocupação da extensa costa do estado da Bahia ainda não deu conta do importantíssimo papel desempenhado pelas mulheres, especialmente escravas e ex-escravas, que depois de longo período atuando como servas e ajudantes dos senhores, pais e maridos na dura lida da sobrevivência, sem direito a nenhum ganho, passaram a obter deles a possibilidade de irem para as ruas, para as freguesias, vender algum tipo de produto, prestar algum serviço já tendo o acerto prévio de receber um determinado valor por dia, pagando o que excedesse a esse valor que elas ganhavam.

É justamente nessa atividade de ganho que está a origem do termo “Ganhadeiras” aplicado às jovens e senhoras, antes de tudo fortes que percorriam longas distâncias a pé, comercializando frutas, peixes, tecidos e outros produtos, enchendo as ruas da cidade com as canções simples que entoavam falando da realidade simples, dura e não raras vezes poética de suas existências. Dentre estas, sobressaíram-se as habitantes da então longínqua aldeia de pescadores de Itapuã que iam ao centro da cidade com os balaios cheios de peixes para vender e, assim, ganhar o sustento da família.

No processo impiedoso de perdas culturais verificadas na cidade de Salvador, ao longo do século XX, a tradição das Ganhadeiras cairia no esquecimento, com seu valioso acervo poético, não fosse a valorosa iniciativa do grupo Mantendo a Tradição, que tinha à frente figuras luminares da memória do bairro, a exemplo das saudosas Francisquinha, Helena, Áurea e Nissu. Anos depois, a partir da ação do GRITA – Grupo de Revitalização de Itapuã, em 1997, iniciava-se um novo processo que foi decisivo para a criação do Grupo Cultural As Ganhadeiras de Itapuã em 13 de março de 2004.

O grupo, com a formação de 19 senhoras, além de jovens, crianças e músicos, ganhou de imediato o respeito e a admiração de personalidades importantes do meio artístico, autoridades e do público que aplaude suas apresentações nos principais espaços culturais de Salvador, mas também no interior do estado e em outras capitais.

Desenvolve um repertório de cantigas, sambas-de-roda e performances teatrais, que contam a história do antigo povoado de pescadores de Itapuã. Parte das cantigas foi resgatada pela memória afetiva das mulheres, em sua maioria ex-lavadeiras do Abaeté e vendedoras de acarajé; outra parte criada a partir da formação do grupo por talentosos compositores, como seu Reginaldo Raimundo de Souza, autor de canções que falam dos costumes antigos, do tempo em que se dormia com as portas abertas; Jenner Salgado, que traduziu de forma poética o labor das lavadeiras, que além das roupas, lavam também almas e homenageou, na bela canção Maré Mansa outro grande representante da cultura local, o bloco afro Malê Debalê; Dona Eunice, magistralmente contando histórias do passado e presente, e Amadeu Alves constelando a paisagem, os aromas, frutos, crenças e tradições em Histórias das Ganhadeiras e Festa na Aldeia.

Hoje, o grupo tem uma harmonia e uma naturalidade cativantes, trabalhando arranjos para diversos instrumentos, como flauta, bandolim, cavaquinho, violino, baixo e violão que com a percussão e a voz são a base do samba-de-roda de Mar Aberto, com sotaque praieiro. Conseguiu essa forma natural de apresentar esse valioso acervo de músicas e canções importantes porque já estavam ali, no coração das pessoas e que foram despertadas com a ideia de que isso deveria ser preservado para não se perder ao longo do tempo.

A resposta foi realmente muito rápida e atinge um ponto alto agora com a gravação do primeiro CD – este que o leitor e ouvinte tem em mãos – no prestigiado estúdio Coaxo do Sapo do cantor e compositor Guilherme Arantes, produzido por Alê Siqueira, com direção musical de Amadeu Alves e participações especiais de Margareth Menezes e Mariene de Castro.

Com ele a voz tanto tempo anulada e esquecida das antigas escravas e ex-escravas que vendiam seus produtos nas ruas, ladeiras e becos da velha São Salvador e lavavam roupas de ganho, renasce na aurora do Terceiro Milênio, iluminando a esperança de que a melhor tradição indígena, africana e portuguesa tem seu lugar de honra no concerto dissonante da pós-modernidade.

Carlos Ribeiro e Gabriel Gomes

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