Armadilha do terror

NOVA IORQUE SITIADA – O risco da violência e da tortura no combate ao terrorismo é retratado no filme dirigido por Edward Zwick.
Carlos Ribeiro 
Jornal A Tarde

A sensação de ser atacado por um inimigo invisível, que pode surgir a qualquer momento, de qualquer parte, é um dos elementos perturbadores presentes nos mais horríveis pesadelos. Na antiguidade, esse inimigo podia ser um monstro marinho, que surgia inesperadamente das profundezas do oceano diante dos olhos de um intrépido herói; na Idade Média, um demônio, que, como na lenda do Fausto, materializava-se, em meio a sombras, para apropriar-se das almas de homens incautos e orgulhosos; ou, ainda, uma peste que, como num conto de Edgar Alan Poe, insinuava-se num baile à fantasia para eliminar aqueles que pensavam estar livres da morte.

No século XX, nada representou melhor esse inimigo que os sistemas políticos totalitários, exemplificados, em sua forma mais extrema, no romance 1984, de George Orwell. Agora, na aurora do século XXI, e a despeito de toda a esperança de fraternidade trazida pelo fim da Guerra Fria, o inimigo sem rosto ressurge, numa bela e pacífica manhã, na forma de duas grandes aeronaves, que “caem” de um céu azul-claro soterrando milhares de pessoas, e assombrando, ao vivo e em cores, o mundo.

Fala-se que a tragédia verificada terça-feira passada, em Nova Iorque e Washington, foi um dos acontecimentos históricos mais inesperados da história da humanidade. Mas terá sido mesmo? Ou, pelo contrário, teria sido, como no romance Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, uma espécie de fatalidade; algo que, mais cedo ou mais tarde, haveria de acontecer, ali mesmo, onde terminou acontecendo?

A favor da segunda hipótese, pode-se afirmar que uma tragédia de grandes proporções, como esta, já teria sido, veemente e repetidamente, antecipada, em romances, filmes e até num programa de rádio: a célebre invasão fictícia de marcianos, narrada num programa de rádio por Orson Welles, nos anos 50.

Essa antecipação já não estava presente na advertência feita pela impassível figura do extraterrestre incorporada pelo ator Michael Rennie, no filme O Dia em que a Terra Parou? Ou nos assustadores alienígenas que tomavam os corpos das pessoas, no clássico da science fiction, Vampiro de Almas, de Don Siegel?

Nos anos 70, a possibilidade de um aterrorizante pesadelo nuclear foi retratado no filme O Dia Seguinte (The Day After), mas foi nas últimas duas décadas do século XX, com o aprimoramento dos efeitos especiais, que a destruição tornou-se mais explícita, seja através de um monstro marinho, ressuscitado por experimentos nucleares (Godzilla), seja pela aproximação de um imenso meteoro (Armageddon).

Mas é em Nova Iorque Sitiada (The Siege, 2000) que melhor se enquadra a perspectiva do terror, diante da qual o mundo está, de certa forma, condenado a viver. No filme, dirigido por Edward Zwick, e estrelado por Denzel Washington, uma série de atentados, desferidos em Nova Iorque por terroristas árabes, provoca o acirramento de uma paranóia que desemboca na tomada da cidade por tropas do Exército. Tropas que a sitiam, colocando a população árabe em guetos e prisões que lembram os campos de concentração nazistas.

Embora se trate apenas de um razoável thriller, Nova Iorque Sitiada coloca uma questão que merece ser levada em conta no momento atual: a da armadilha que é o acirramento da violência, capitaneada pela ultradireita, como forma de combater o terrorismo. E, também, o risco de se generalizar a culpa dos atentados, atribuindo-a a um determinado grupo ou etnia – no caso do filme, aos árabes residentes em Nova Iorque, a maioria integrada à sociedade americana.

Não se deve, em hipótese alguma, reprimir pessoas inocentes por ações cometidas por um grupo de extremistas. Eis a mensagem. Em Nova Iorque Sitiada, as medidas adotadas pelas Forças Armadas conseguem o feito surpreendente de unir árabes e israelenses, cristãos e muçulmanos, negros e brancos contra um inimigo comum: o Estado autoritário, que se insurge contra a democracia. O filme, claro, não vai mais fundo, mostrando as contradições dessa democracia, mas funciona como exemplo de um remédio que, na ânsia de eliminar a doença, termina matando o doente.

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