Apresentação de Gláucia Lemos – Projeto Com a Palavra O Escritor

Fundação casa de Jorge Amado, em 02 de setembro de 2009

Gláucia Lemos surgiu, para este a quem ela concede a honra de apresentá-la neste prestigiado evento, num momento particularmente feliz: recentemente introduzido no campo do fazer literário, com apenas dois contos publicados no Jornal da Bahia, no final dos anos 70, aquele estudante de jornalismo, ali na casa dos 19 anos, magro, cabeludo e um tanto reservado, acompanhava, aos domingos, nas páginas daquele então prestigiado jornal, o vaivém de escritores que ali eram revelados através do Concurso de Contos coordenado por Adinoel Motta Maia.

Eram muitos os que ali transitavam, semana após semana, mas dois nomes me chamaram de imediato a atenção pela qualidade de seus textos: Orlando Pereira dos Santos, com o vigor de suas imagens, de suas descrições, de sua linguagem precisa, crua e despida de ornamentos, como no antológico Sol do meio-dia; e, em flagrante contraste com ele, o de Gláucia Lemos: neste caso, pela leveza, colorido e fluidez de suas histórias; pelo toque do fantástico que, embora ameno no tom, guardava, no âmago de suas tramas e dos seus personagens, uma dor profunda, um desencontro sempre renovado.

É de desencontro em desencontro que esta escritora, nascida em Salvador, vem tecendo, ao longo dos anos, a sua teia ficcional. O que nos motivaria, caso cedêssemos  ao recurso fácil de confundir as instâncias do narrador, do personagem e do autor, a indagar: teria Gláucia Lemos, por trás desse rosto sempre sorridente, da leveza de seus gestos e palavras, e de uma vida tão marcada pela constância, aparentemente isenta de saltos e sobressaltos, algum mistério profundo, irrevelado? Algo que, de modo francamente paradoxal, a aparentasse com algumas daquelas personagens dos filmes noir? Fiquem tranquilos. Não pretendemos analisá-la, deus nos proteja; e bem sabemos que soaria absurdo lançar sobre sua obra sombras que lhe são alheias. MAS! Podemos, pelo menos, indagar (e aqui me antecipo à simpática e amorosa platéia nas perguntas que serão feitas após a sua apresentação): por que, Gláucia, suas personagens femininas parecem tão frequentemente estar fadadas a um fim melancólico, marcado pela perda, pelo dilaceramento, quando não pelo desespero? Por que, na paisagem luminosa dos seus contos e romances, recolhem-se elas a sombras tão densas, quando não às trevas? Logo você, Gláucia, que ao ler o meu conto publicado na coletânea Contos cruéis, exclamou, através de um e-mail a mim enviado: “Deus do céu, que horror!  Se a intenção do livro é chocar já conseguiu. Acho que com tanta violência nas ruas, jornais e tevê, por que  não um livro  ameno que nos alivie de tanta tensão?  Sei que o intuito é o registro de um tempo, mas parece que alimenta o terrível…  Não há necessidade.” Mas, ao final, ponderou: “Bem, vale pela literatura, sempre vale”.

Vale também abrir aqui um parêntesis para lembrar um trecho do perfil de Tolstoi feita por Máximo Gorki, no livro Três russos e como me tornei um escritor, quando, segundo este, o autor de Guerra e paz fala sobre a necessidade de se representar, na literatura e nas artes, também o aspecto infame e asqueroso da vida. Após relatar a cena repugnante de uma mulher bêbada, caída na lama, ao lado do filho, “um menino loirinho, de olhos cinzas”, cujas “lágrimas corriam pelas faces”, diz ele para Górki: “Sim, sim, é horrível! Você viu mulheres bêbadas muitas vezes? Muitas, ah, meu Deus. Não escreva sobre isso, não é preciso (…), é vergonhoso escrever sobre coisas nojentas. Aliás, escrever por quê?”.

Mas, após meditar sobre as suas palavras, acrescenta que “é preciso escrever de tudo, sobre tudo, senão o menino loirinho ficará ofendido e dirá com censura: não há verdade, não há toda a verdade”.

O menino, diz Tolstói, “é exigente com as verdades. Nós devemos ser exigentes com as verdades”.
Bem sei, minha amiga, que nos seus contos, você parece esforçar-se para não alimentar o terrível, embora não tenha conseguido impedir, no conto “Sangue mau”, que Sabino tenha caído de um salto sobre Mariana, e, com o punhal, feito o sangue dela tingir a areia da praia e caído nas malhas rasgadas da velha rede vazia. Pela literatura, sempre vale, não é mesmo?

Mas, ao contrário do já citado Orlando Pereira dos Santos, cujos contos chegam a ser indigestos para os gostos mais sensíveis, nos seus textos, na tragédia das personagens – e, mais especificamente, das personagens femininas – há toda uma gama de simbolismos, metáforas e elipses, que amenizam, de alguma forma, a tragédia da condição humana, poetizando-a. Assim, a realidade crua da existência transmuta-se, tornando-se mais suportável. Característica que a insere numa tradição romântica, ou neo-romântica, que de certa forma se opõe à tradição moderna advinda de Baudelaire: a do poeta que perde o seu halo e circula pela cidade revelando a sua baixeza.

Vejamos alguns exemplos, retirados do livro de contos editado pela Secretaria da Cultura, em 1996, através do selo As Letras da Bahia: Em “Procissão do Senhor Morto”, um operário negro, que ora atende por Emanuel dos Santos, ora por Emanuel de Jesus, tem seu calvário, nas ruas de uma cidade desumanizada e hostil, ou na infindável fila para pagamento de sua aposentadoria, narrado em contraponto com uma procissão na qual o diálogo entre uma criança e sua mãe funciona como leitmotiv:

– Mãe, quem morreu?
– Jesus, o Filho de Deus.
– O Cristo?
– O Cristo.
– Morreu???

“Cristo morreu, mãe?”, repete ela, como num estribilho, ecoando, talvez, a idéia nietzscheana da morte do Deus – e do vazio que lhe segue.

Em “Antes que retorne julho”, o abandono da personagem-narradora pelo amante a faz crer que somente a morte dele restituirá sua liberdade, pois que, enquanto ele parte, livre, ela permanece prisioneira de suas lembranças. “Agora fico a esperar que a morte sobrevenha e te arrebate e me liberte. Ainda falta tanto para que retorne julho. Mas a morte é como a porta. A entrada da porta é a saída. E, no entanto, parece que foi no dia anterior. É só por isso que ainda temo que a morte se atrase”, diz a narradora. Julho passa depressa. A chuva prolonga-se por agosto e setembro. E a morte do ex-amante se concretiza, simbolicamente, com a elaboração de um livro – e outro, e outro. A palavra como pharmakon. O esquecimento é a morte do amante, tão fervorosamente desejada: aquela que o acompanha pelo território do esquecimento, como “uma amante gelada”.

Outro abandono, outro amante, Filipe, “o doce Filipe, de olhos distantes, quase incompreensíveis, que tinha um oceano inteiro dentro do coração”, homem com alma de vagabundo, que não assenta ferros em lugar nenhum, marcam fortemente as páginas de “Os lampadários do céu”. E Lina, em vez de escrever um livro, sobe à torre mais alta da igreja, com os pés apoiados nas pontas dos dedos, apaga, uma a uma, as estrelas do céu, até que a treva se fizesse. Densa. Definitiva.

Há ainda a mulher de “A leoa”, vazia, anulada, despersonalizada e desprezada pelo marido insensível, que, sob a água fria do chuveiro, evapora-se e desfaz-se com um chiado de água fria em cima de brasas. E o homem que, numa estranha festa, recebe de uma mulher belíssima um quadro que ela mesma pintara e no qual estão retratadas araras vermelhas e azuis, e que consistia na “mais expressiva obra pictórica que já tivera a oportunidade de apreciar”. Mulher e quadro que desapareceriam na manhã seguinte, após o despertar, restando-lhe, entretanto, “as duas araras vermelhas que acorrentara, provisoriamente, ao gradil da sacada. E que também espiavam para ele com seus olhos redondos e brilhantes”.

E o que diríamos, ainda, de Celeste, personagem de Bicho de conchas, de 2008, vencedor do II Prêmio de Literatura UBE/Scortecci 2007, na categoria romance: aquela que, numa praia deserta, onde vivia na companhia solitária do faroleiro Lídio, deixa-se fascinar pela imagem de um lençol que se desprende do pegador e voa levado pelo vento. E que tangida pelo desejo de virar gaivota, foge para o outro lado do mar. Lá onde a realidade se impõe, e do qual retorna para Lídio, mulher feita, com um filho de outro homem na barriga, disposta a nunca mais “acenar para os barcos que passam distante quando o horizonte fica vermelho, nem a acreditar na liberdade do vento e do vôo das gaivotas”. Ou melhor, segundo Lídio, consciente de que pode acenar, mas que não espere resposta; que pode acreditar, mas que não sonhe em se tornar passageira do vento, nem irmã das gaivotas – porque a realidade a ensinou, a duras penas, que não é assim. Da sua experiência, Celeste havia “perdido o medo dos ventos das noites de escuro”; mas, ao final de tudo, tudo lhe haveria de ser tirado, restando-lhe apenas o farol que habitava o silêncio, a solidão e os “uivos assombrados da ventania no arvoredo e a janela do quarto de Maria, sua filha, batendo, batendo, na teimosia do vento, em ritmo agourento”.

E, ao final de tudo, o que resta a Celeste, e a Lina, e à mulher das tardes frias de julho, e à leoa desprezada, e a Ami, filha do mameluco Mire, do conto “A lenda da Casuarina”, e à mulher que apaga, uma a uma, as estrelas do céu? Hélio Pólvora, nas orelhas do romance, nos dá uma pista: a inquieta Celeste, “atada a um rochedo [o da praia do farol] qual Prometeu Acorrentado, se lança no mundo, para uma série de peripécias que trará sempre o selo existencial da inquirição”. No caso de Celeste, com o objetivo de desvendar suas nascentes. São todas, portanto, mulheres que encaram a vida e suas dores para encontrar um significado. E, se em muitas delas, esta busca se dá sob o signo da dor profunda, há as que, pontualmente, arrancam da vida o que desejam. E, assim, escapar do labirinto – e do monstro que, entretanto, persevera nas sombras dessa obra instigante e não poucas vezes perturbadora.

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