“A Terapêutica Natural Não Exclui a Alopatia”

Carlos Ribeiro

O médico Fernando Hoisel vem utilizando, há muitos anos, uma terapêutica natural no tratamento dos seus pacientes. Terapêutica esta que implica em mudanças muitas vezes radicais nos hábitos de vida. (Entenda-se aí a palavra “radical” no seu melhor sentido, que é o de atingir a raiz, a essência dos problemas.) Crítico contundente dos aspectos nocivos da sociedade industrial, relacionados principalmente à indústria dos alimentos e à dos medicamentos, preocupadas mais com o lucro do que com a saúde das pessoas, Hoisel, entretanto, jamais condenou a chamada medicina alopática. “A quimioterapia quando bem utilizada é capaz de salvar vidas. O problema é o mau uso”, exemplificou, há exatamente um ano, numa entrevista concedida à repórter Cleidiana Ramos, deste jornal. Fernando coordena atualmente o II Curso Clínica Natural, iniciado sexta-feira passada e que prossegue até 30 de dezembro, no auditório do Instituto Social da Bahia – Isba, em Ondina, numa promoção da Associação Novo Encanto (os interessados podem entrar em contato pelo telefone 359-0015). Na entrevista a seguir ele esclarece o que é a terapêutica natural e qual a sua importância para tratar, ou, melhor ainda, evitar, o que chama de “doenças da civilização”.

P – Fernando, como você define o seu trabalho? Você é um médico “naturista” ou “naturalista”, como as pessoas costumam dizer? 
R – Eu sou médico clínico geral, formado pela Universidade Federal da Bahia, em 1974. O único título que tenho é este. Trabalho há 27 anos e a base da minha terapêutica é a dietaterapia (terapia através dos alimentos) e a fitoterapia (terapia através das plantas medicinais). Uma coisa que gosto sempre de esclarecer é que não existe uma medicina natural, nem uma medicina homeopática, nem uma medicina alopática. A medicina é uma só. A anatomia, a fisiologia, a fisiopatologia e a propedêutica, que são todos os exames usados para chegar a um diagnóstico, são as mesmas para todos os médicos.

P – O que diferencia, então, essas diversas vertentes?
R – O que muda é a terapêutica. Existe a terapia alopática, que utiliza medicamentos sintéticos, e que é insubstituível nos momentos de crise, de emergência, salvando diariamente milhões de vidas. Existe também a terapêutica homeopática, que prepara medicamentos a partir de plantas, minerais e até animais, e é dinamizador. E a terapêutica natural, que tem sua origem em Hipócrates, considerado o pai da medicina científica ocidental, que tinha como base nos seus tratamentos a dieta alimentar, as plantas medicinais e o estímulo a hábitos saudáveis de vida.

P – Mas existe uma oposição entre essas diversas terapêuticas?
R – Essas formas de terapêutica não se excluem. Elas podem ser usadas dentro de uma necessidade, de forma conjunta, em benefício dos pacientes. O importante é que cada médico, dentro da sua especialidade, possa atender às necessidades daqueles que o procuram.

P – Você, entretanto, aponta diversos males provocados por hábitos de vida não naturais. O que são, exatamente, as chamadas “doenças da civilização”?
R – As doenças da civilização são doenças que não existiam, ou que eram pouco freqüentes, e que surgiram a partir das transformações que o homem provocou no meio em que vivemos. Por exemplo: hoje, as estatísticas mostram que as doenças cardíacas (AVC) matam cerca de 45% da população no mundo civilizado. Essas doenças não tinham sido descritas na literatura médica até 100 anos atrás. Outro exemplo: a diabete é conhecida desde a civilização egípcia – descrita em papiros egípcios – há 4 mil anos. Mas a realidade hoje é que a Organização Mundial de Saúde demonstrou que existem, atualmente, 150 milhões de diabéticos no mundo e que já existe a previsão de que serão 300 milhões em 2.025. A OMS reconhece o problema como uma epidemia. Uma pesquisa mostrou que, em 1817, cada inglês comia em média 4 Kg de açúcar por ano. No Brasil, hoje, essa média é de 75 Kg, e, nos Estados Unidos, de 120 Kg. Hoje consumimos em uma semana o que os ingleses consumiam em um ano.

P – A terceira é o câncer…
R – Sim. Quando eu estudava na Faculdade de Medicina da Ufba, há 27 anos, os professores nos ensinavam que o câncer era doença de pessoas idosas. Nós íamos aos hospitais especializados e só encontrávamos pessoas idosas com essa doença. Hoje, aqui em Salvador, temos um hospital especializado no tratamento de câncer infantil e temos duas associações de apoio ao câncer infantil. Já tive a oportunidade de, em uma semana, atender duas crianças com menos de dez anos com câncer. Recentemente recebi uma família que tinha uma criança com sete meses, com um tumor maligno. O aumento progressivo dessa enfermidade tem acontecido através da transformação e poluição que a humanidade tem feito com o ar, com a água e os alimentos, fatores essenciais para a boa saúde.

P – Mas a utilização de medicamentos sintéticos não contribui também para esse problema?
R – O que tenho alertado é que o mau uso de medicamentos químicos sintéticos pode contribuir para a cronificação destas e de outras enfermidades. Isto não significa, entretanto, condenar a alopatia, que, como já disse anteriormente, salva diariamente milhões de vidas.

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