A Música dos Bálcãs

NOVIDADE – O maestro búlgaro Boyko Stoyanov fala sobre o show que fará com a mãe Jivka Stoykova e a filha Júlia Stoyanov, no Teatro Diplomata.
Carlos Ribeiro

Com um estilo de regência marcado pelo refinamento, bom gosto e versatilidade, além de um grande carisma pessoal, o maestro búlgaro Boyko Stoyanov tem, aos 49 anos de idade, um currículo excepcional: doutor em música e filosofia, já regeu orquestras em todos os continentes e já recebeu diversos prêmios importantes, tais como o Platinum Record (EUA, ABI 1997), o The Twentieth Century Award for Achievement (Inglaterra, IBC, 1993), o International Composers Competition “Youth for Peace” (Polônia, 1985) e o Varna Award (Bulgária, 1965).

Boyko, que reside no Japão há 20 anos, está em Salvador há um ano e meio, ministrando aulas na pós-graduação da Universidade Federal da Bahia – ele veio ao Brasil trazido pela filha Júlia, 21 anos, que estuda atualmente na Escola de Música da Ufba. Em agosto próximo, o maestro retornará a Tóquio. Antes, entretanto, retribuirá o carinho e a hospitalidade com que foi recebido pelos baianos, com a realização, amanhã, às 21 horas, no Teatro Diplomata, em Patamares, do show Da Bulgária à Bahia – Uma Viagem Musical.

No espetáculo, Boyko se apresentará tocando piano e instrumentos de sopro característicos dos Bálcãs, com repertório baseado no folclore e na música clássica da Bulgária, Japão, Índia e Austrália, além de “uma pitada de Bahia”.

O espetáculo terá, como uma das suas características especiais, o fato de reunir três gerações da família Stoyanov: Boyko, a mãe Jivka Stoykova, 77 anos, famosa cantora do folclore tradicional búlgaro, e Júlia, 21 anos, considerada uma das mais promissoras pianistas do Japão, país onde nasceu, e que tem o Brasil, agora, como sua segunda pátria. “O concerto vai ser uma oportunidade de me aproximar ainda mais desse povo que acolheu a mim e a Júlia tão bem”, afirma Stoyanov, que pretende voltar a Salvador em 2003.

P – É a primeira vez que o senhor faz, no Brasil, esse show, com três gerações da família Stoyanov?
R – No Brasil, sim, mas já fiz concertos no Japão e na Bulgária com minha mãe e com minhas filhas. Tenho, além de Júlia, outra filha que toca piano e que se chama Kaya Akatsu Stoyanov. Nesse show, eu, minha mãe Jivka e minha filha Júlia vamos fazer a mesma coisa: mostrar o folclore da Bulgária. Vamos usar também roupas folclóricas e instrumentos da Bulgária e introduzir, aqui, a bulgarian voice, técnica vocal que usamos na ópera.

P – Quais são as principais características dessa voz?
R – A bulgarian voice é hoje muito famosa no mundo. Os músicos, nos Estados Unidos, gostam mais, como música popular, do que do jazz. Ela foi introduzida, pela primeira vez, naquele país, nos anos 50, através de Philip Koutev. Ele foi o compositor regente que arranjou o folclore búlgaro de forma mais fácil, adptando-o para que os americanos pudessem entendê-lo. Porque, na forma natural, é muito forte (ri), não é para todos. E, agora, chamamos esse estilo de polifonia ou heterofonia búlgara. Todo mundo usa a palavra polifonia, mas é melhor chamar heterofonia.

P – Por quê?

R – Porque é a mesma melodia, é o mesmo ritmo, com variações. Não é como em Bach, na polifonia barroca. Não é esse tipo de polifonia, nem a que Mussorgski usou, com dois ou três contrastes completamente diferentes na melodia. A heterofonia é, na verdade, a primeira forma que existe na música e a mais natural, pois existe na natureza também. É coisa que, agora, está muito moderna, na música contemporânea, mas que é muito antiga. Os mais novos experimentos na música também usam essa forma primitiva de pensamento musical que ainda existe na Bulgária, como uma forma natural. Foi a que minha mãe aprendeu com seus ancestrais. Eles não aprendem em livros e partituras. Aprendem com a mãe, com a avó e não usam uma só melodia.

P – É mais difícil de executar?
R – São duas, três vozes, com freqüências muito complicadas, muito difícil para realizar. Precisa de uma técnica vocal grande. Na Bulgária, a voz tem duas ou mais freqüências no espectro. Essa relação entre dois “picos” produz um terceiro, que não existe. É um estilo de técnica vocal para cantar na natureza.

P – Existe um canto de uma camponesa búlgara no disco Cosmos, da série da TV do Carl Sagan, que tem uma força extraordinária.
R – Sim, ela tem uma força muito grande. As mulheres na Bulgária também são muito grandes (risos). Mas, ao contrário do que parece, elas não forçam muito quando cantam. A voz sai naturalmente. É outra estética, mais natural. Isso é o que vamos tentar apresentar: a música búlgara, usando instrumentos como o kaval, o duduk, a dvoianka, bulgaría e gaida. Como gaita, né? Na Bulgária, chama-se gaida. Na verdade, são instrumentos do tempo de Alexandre, o Grande, quando ele fez um grande país, da Macedônia até a Pérsia.

P – Deve-se a ele a influência marcante do Oriente na música da Bulgária?
R – Foi naquela época que entraram esses instrumentos. São instrumentos da Índia, na verdade. Ainda existem muitas influências daquele tempo, na cozinha também, em toda a cultura. E tem a percussão também. O ritmo na Bulgária tem grandes variações de dois e três compassos. São ritmos irregulares búlgaros, usados por Bela Bártok. Eles não são búlgaros, são da Índia, da Arábia, mas, na Bulgária, estão muito mais condensados.

P – Qual será o repertório do show?
R – O repertório será baseado no folclore e na música clássica da Bulgária, incluindo músicas do Japão, da Austrália e uma pitada de Bahia, com algumas surpresas. Mas vamos usar, também, o piano eletrônico. Júlia vai tocar minhas peças mais modernas e de outros compositores, como Philip Koutev, Nicolai Kaufman, Frederic Chopin e Antonin Dvorak.

P – Como você define a sua experiência na Bahia? Como um búlgaro que vive no Japão vê uma cultura tão diversa como a nossa?
R – (Rindo) Vejo da melhor maneira. Uma coisa importante que funciona na Bahia é um processo de mistura racial, musical, cultural, mas no qual tem uma coisa que não mistura. Este é o melhor lugar no mundo para ter a possibilidade de ensinarmos o que nós temos de melhor. É uma fonte onde podemos beber água mais fresca. No Japão, eu tive a possibilidade de construir uma teoria na minha vida, mas era um processo fechado. A Bahia me dá uma coisa nova, sair dessa porta de gravitação e descobrir coisas melhores. Aqui, a cultura tem mais sabor. Acho que o melhor sabor está aqui.

P – Para quem já regeu orquestras em todos os continentes, como foi a experiência de reger a Orquestra Sinfônica da Bahia?
R – A Osba é uma orquestra muito profissional. É uma rocha muito estável, que tem no centro o spalla Salomão Rabinoviz e a esposa dele, Dora, ambos com um valor muito grande. Têm músicos como o trompetista Heinz Schwebel, de competência mundial; tem os irmãos Pedro (clarineta) e Lucas (flauta) Robatto, e um maravilhoso tubista, entre muitos outros. É um núcleo composto por músicos que não são apenas perfeitos instrumentistas, mas pessoas dedicadas à música e não só para fazer dinheiro. Existem, em várias partes do mundo, músicos de nível profissional muito alto, mas que são mecânicos, como máquinas. Podem funcionar bem sozinhos, mas não são orgânicos juntos. A Osba é uma coisa viva, uma terra viva. É isto que faz o milagre no mundo.

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