Rubem Braga: um cronista com dicção poética (ou com alma de poeta)

Antonia Torreão Herrera
UFBA

Encontro-me nesta mesa, não como especialista na obra de Rubem Braga, apenas como uma leitora com uma possível capacidade analítica. Estou aqui para atender um pedido de meu amigo, o escritor Carlos Ribeiro.

Minha intenção é fazer uma ponte entre essas duas sensibilidades: do estudioso e do estudado, trazendo para a cena acadêmica, o clima, o tom, a tônica de Rubem Braga que tem muito a ver com a tônica do escritor, acadêmico, Carlos Ribeiro.

Primeiramente, quero dizer do trabalho amoroso, dedicado e competente de Carlos Ribeiro no seu primeiro livro, Caçador de ventos e melancolias, no qual soube captar o lirismo do cronista, deixando aflorar a sua sensibilidade lírica nos recortes, e em sua escrita. E agora, nesse Rubem Braga, um escritor combativo, para fazer ver o perfil pouco estudado do Braga crítico da sociedade, que teve a coragem de se pronunciar sobre as mazelas da sociedade e as falcatruas dos governos, sob os quais viveu como cidadão. O cidadão, o jornalista, o homem das letras não se eximiu de pontuar e de denunciar a tortura, a censura, o preconceito e os abusos do poder público.

Associo o bom trabalho ao amor ou paixão que o anima, aquele trabalho que nos toca e acrescenta alguma coisa à nossa reflexão sobre a vida.  O objeto de estudo torna-se assim um sujeito com o qual se dialoga, se enternece, e se convive com boas horas de pensamento e de sentimento em busca do que ele tem a nos dizer. Daí surge uma escrita, um texto, uma tarefa suplementar, para a qual o crítico ou estudioso deve estar preparado, no sentido de possuir operadores de leitura, acuidade e, acima de tudo, sensibilidade e humildade, mas nunca previamente uma teoria a tiracolo para imputar ao texto.

O que Jorge Luis Borges disse à platéia que o ouvia lecionar sobre poesia serve como lema para nós:

“Todas as vezes que mergulhei em livros de estética tive a sensação desconfortável de ter estado a ler livros de astrônomos que nunca olharam para as estrelas. O que quero dizer é que escrevem sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa e não o que realmente é: uma paixão e uma alegria.” (Jorge Luis Borges. Este ofício de poeta. Lisboa: Teorema, 2010, p.8.)

Carlos Ribeiro soube com admiração e sensibilidade ser um leitor apaixonado de Rubem Braga. O seu livro, que tive o prazer de reler nesse novo formato, diz de uma sensibilidade que se debruça com uma escuta, uma leitura e uma escrita sobre outra sensibilidade, outra escrita. Uma inserção de seu olhar para, selecionando e organizando, demarcar para os leitores uma feição, um recorte, frente à quantidade e grandeza das crônicas a seu dispor.

Se no primeiro livro analisou o lirismo das crônicas, nesse segundo, a tarefa foi mais complexa, pois que o recorte é mais árido, mais polêmico e mais contraditório, apesar de aparentemente se tratar de assunto mais leigo: o cunho social de um texto literário ou jornalístico-literário.

Como tema de estudo teórico, a função social da literatura, causou ao longo das discussões especializadas posições opostas: arte engajada versus alienada ou arte pela arte versus arte política. A posição teórica mais conciliatória afirma uma função social da literatura sem, todavia perder seu caráter artístico, seu compromisso com a arte. Podem-se dizer algumas bem fundadas teorias sobre sua função, todavia paira sempre um tom defensivo e argumentativo de quem precisa provar para a sociedade alguma utilidade da arte. Todavia, razões e argumentos não são convincentes, a arte sim.

Ora, parece que marcou a sensibilidade dos estudiosos aquela expulsão da literatura da República Utópica de Sócrates, tão bem fundamentada por Platão. Que se ostentem em defender ou acusar, os poetas continuam em seu labor vital a fazer poesia, o romancista a narrar, o dramaturgo a precipitar dramas.

Toda teoria passa a ser uma resposta a Platão. Eu o acolho perfeitamente. Platão/Sócrates soube ver com acuidade a periculosidade da literatura, o simulacro insidioso que quer subir à superfície para impor sua visão. Está aí a grandeza da literatura: dizer aonde outros calam, construir uma realidade paralela àquela que se impõe à visão e à percepção comum, sublevar os signos, não de modo anárquico, mas por fidelidade à sua própria natureza, fazendo-os falar por imagens, por cadência, por ritmo, que abalam os corações, que agitam as mentes amortecidas e as fazem ver, na clave mais precisa da palavra, o real que se esquiva.

A letra como arma é uma metáfora comum, mas não esgotada. A palavra tem a mobilidade que se lhe dá o falante ou usuário, e uma palavra bem articulada pode comover ou atiçar multidões. Assim, o trabalho de um cronista que escreve para ser lido de imediato, é um compromisso com a potência da palavra e a sua recepção para o leitor que a acolhe ou a rejeita. Carlos Ribeiro soube bem delinear essa face combativa e menos acentuada do cronista Rubem Braga, tecendo ao longo de seu estudo as diversas frentes de combate do cronista que se posicionou com a escrita contra qualquer assunto que ferisse a ética da natureza ou das relações humanas: a derrubada de uma árvore, o comércio ilegal de aves e ao mesmo tempo a miséria da fome que leva meninos raquíticos a fazer esse comércio, a corrupção da polícia, da política, das autoridades. Disse sim à vida em todos os momentos em que essa o convocou: a viver ou apontar os agravos contra ela.

Do recorte de Carlos Ribeiro, direi apenas que por mais que tentasse mostrar a face combativa de Rubem Braga, o lírico deslocado no século XX emergia com força, melancolia e apreço pelas palavras. Deixemo-lo ser lírico mesmo quando combatia explicitamente em prol de questões sócias. Ademais, ser lírico por si só já é um modo de dizer ao mundo que algo falta, que o social é insatisfatório, que o poeta precisa recolher suas palavras para dizer de sua solidão. Porque mesmo a comunhão com a natureza denuncia a solidão na sociedade. O detalhe individual ilumina a precariedade do social e cria uma rasura no estabelecido e aí se abre uma brecha para a comunicação entre seres pelo viés lírico, confirmando a exímia tese adorniana: o mergulho no individual faz emergir o social:

No ensaio Lírica e sociedade, Adorno analisa a dialética do individual e do social presente na poesia, esclarecendo que o mergulho no individual eleva o poema lírico ao universal: “  ..o mergulho no individuado eleva o poema lírico ao universal porque põe em cena algo de não desfigurado, de não captado, de ainda não subsumido, e desse modo anuncia, por antecipação, algo de um estado em que nenhum universal postiço, ou seja, particular em suas raízes mais profundas, acorrente o outro, o universal humano. Da mais irrestrita individuação a formação lírica tem esperança de extrair o universal.” (p.194).

Rubem Braga inseriu-se liricamente no mundo ao fazer um pacto com a linguagem para, da potência criadora da palavra, de seu poder imagístico, construir uma forma e, pelo viés artístico, tentar comunicar pela voz da solidão, a do poeta, do artista, do cronista, a voz dos homens “Essa universalidade do conteúdo lírico, todavia, é essencialmente social. Só entende aquilo que o poema diz quem escuta em sua solidão a voz da humanidade: mais ainda a própria solidão da palavra lírica é pré-traçada pela sociedade individualista…” p194

O desconforto diante do mundo e o amor a esse mesmo mundo põem em movimento um liame entre o individual e o social que se manifesta ora pelo olhar melancólico ora irônico, mas nunca indiferente. Contra a indiferença é também o compromisso de Rubem Braga com sua tarefa diária de cronista: a moça feia, a moça bonita, a moça triste, a criança faminta, a árvore derrubada, a irreverência do passarinho, o pobre, o rico, enfim os inúmeros temas abordados nas inúmeras crônicas de Rubem Braga mostram um olhar interessado na vida, nas pequenas coisas e ou nas retumbantes, mas no pulsar constante da vida em uma cidade.

“A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, à dominação de mercadorias sobre homens que se difundiu desde o começo da idade moderna e que desde a revolução industrial se desdobrou em poder dominante da vida”. (ADORNO, p.195).

O espanto ante a reificação da natureza e dos seres, ante o embotamento dos sentimentos é um modo de combate que está no substrato da arte assim como o substrato social está presente na formação da obra de arte.

O Braga combativo, como explicitado pela pesquisa de Carlos Ribeiro, não estava amarrado a uma ideologia, e se posicionava de acordo com sua consciência do momento. Embora contraditório ou mesmo incoerente (e eu pergunto para que ser coerente?),  segue os influxos de sua sensibilidade e  de sua percepção. Em obra de arte, a expressão direta de uma ideologia falseia a arte e, por outro lado, compromete qualquer ideologia. A velha querela propaganda ou arte é bem respondida por Adorno, ainda no ensaio supracitado:

“Pois ideologia é inverdade, consciência falsa, mentira. Ela se manifesta no malogro da obra de arte, no que esta tem em si de errado, e é alvo da crítica.” P 194-195. E mais adiante:

“Obras de arte, todavia, têm sua grandeza unicamente em deixarem falar aquilo que a ideologia esconde. Seu próprio êxito quer elas o ambicionem ou não, passa além da falsa consciência” p 195

Liberdade é a palavra que, para mim, mais define Rubem Braga. Foi criticado e julgado, mas dentro do espaço-tempo que lhe foi dado e no qual podia se movimentar conduziu sua vida e suas palavras sob o signo da liberdade. Relativa como tudo que nos concerne, mas sempre um símbolo de liberdade, eu diria uma liberdade humana porque dentro dos nossos limites. Somente os heróis trágicos se alçam a uma dimensão excedente e estão à altura de pagar o preço da desmedida. De qualquer modo, a liberdade pessoal sempre causa algum constrangimento no social.

Leitura da crônica “Meu ideal seria escrever…”

Nessa crônica está delineado com precisão que, ao pinçar situações individuais, subjetivas, denuncia-se a doença maior que é a precariedade do social que não acolhe e atende todos os cidadãos. É ainda à precariedade da própria condição humana que o cronista quer socorrer, amenizando o sofrimento. O desejo que move sua escrita é chegar ao outro, é ter efeito mágico de transformar, de “como um raio de sol” levar a alegria para suas vidas. Que função social mais contundente que essa? A arte utopicamente quer consertar o mundo e não se cansa de tentar incessantemente.

A realidade da cidade que um olhar interessado, amoroso, pode ver e buscar comunicar a seus leitores: a vida que passa, a vida do homem comum, dos marginalizados, elementos do cotidiano que pedem uma voz, uma simbolização e que encontra nas crônicas de Rubem Braga um acolhimento: um modo peculiar de serem registradas. Com ironia, mas particularmente com humor.

A ironia e a Utopia aparentemente não têm nada em comum a não ser a rima em nossa língua. Todavia, uma traz a semente da outra. A Utopia, que acende desejos em todo coração de um artista e se configura em uma forma, seja ela poema, conto, novela, romance, peça teatral ou crônica, encontra na ironia seu contraponto, seu rastro de realidade. Sendo a ironia resultado de uma consciência da defasagem entre o signo e a coisa, essa irrisão que destrói qualquer pretensão mimética que dê conta de uma realidade, a fissura do signo, a quebra ilusória da representação, a Utopia é, todavia o sustentáculo fiel que elege e coroa o simulacro como o possível da arte, o que alimenta o desejo do real. A pulsão utópica como desejo de um mundo melhor está presente nas crônicas de Rubem Braga. E a ironia, como traço de seu estilo, barra a projeção ilusória desse mundo. A ação de suas crônicas é no aqui e agora do momento vivido. Age no presente da história, interage com os acontecimentos, não os deixando cair no esquecimento, no lixo da história. Como registro de momentos pontuais, alerta o leitor para a sua realidade presente.

A cidade é a grande Musa do cronista, ela e seus habitantes, seus governantes, espaço de relações e perdições, de diferenças sociais e econômicas. A geografia de uma cidade e o desenrolar dos acontecimentos no tempo são os ingredientes que se impõem ao olhar do cronista. Seus leitores são cidadãos com quem conversa diariamente e com quem constrói uma empatia e uma cumplicidade, convocando-os a ver, sentir e pensar os momentos eleitos pela sua crônica.

Hoje, ano de 2013, em que se comemora o centenário de Rubem Braga, as ruas das cidades têm sido palco de uma grande manifestação de massa, reclamando direitos, e cobrando deveres do poder público. Implodiu um clamor que diz não às falcatruas, ao cinismo e à falta de ética, presentes em nossa sociedade. E eu penso no Braga aqui presente para ver, sentir e comentar magistralmente em suas crônicas, não como analista político-econômico ou ideólogo, mas com todo vigor humano de quem valorizou a ética, a liberdade e soube afirmar o valor maior da vida. O inferno urbano das grandes cidades levou às ruas jovens, e também outras faixas etárias, para dizer não a tudo que é contrário ao bem viver. Uma massa sem consciência do “campo econômico-político, no qual se movimenta”, no dizer de Marilena Chaui, foi às ruas (e ainda está indo) para expressar desejo de melhor mobilidade física e social, para dizer somos cidadãos, a cidade é nossa e a queremos melhor. Velho Braga, seu espírito paira nessas palavras de ordem e no sentimento de indignação e de solidariedade humana. São as mesmas que permeiam as letras de suas crônicas. Certamente, você como bom observador, recolheria um olhar, um gesto e o ligaria a um outro pormenor da vida. Esses jovens que hoje fazem história talvez não o tenham lido, mas podem saber que a crônica age nos interstícios da história e a tece na sua escrita. Um olhar subjetivo que, pela força da imagem, do recorte seletivo, diz de uma objetividade mais premente que os meros fatos ditos em uma pretensa linguagem neutra. As reivindicações, passadas tantas décadas, são as mesmas. O descalabro, o descompromisso do poder público com o bem-estar social da grande massa dos habitantes de uma cidade estão registrados em suas crônicas e estão sendo gritados nas ruas pelo povo.

Velho Braga, nada foi em vão: em algum coração, mesmo não tendo sido seu leitor, ainda é possível se encantar com borboletas e passarinhos, se espantar com as injustiças sociais, dizer sim à vida. Digo espanto também no sentido da palavra grega, thaumas que, segundo Platão, origina o filosofar: nossa capacidade de se espantar diante da vida e dos feitos humanos. De admiração. O que, acrescento, é contrário a banalizar, a ignorar, a ser indiferente.

[ADORNO, Theodor W. Discurso sobre a lírica e sociedade. In: COSTA LIMA, Luiz (org). Teoria da Literatura em suas fontes. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1975.]

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