NOTAS DE TORIXORÉU

JANEIRO / 1980



01.01- terça

A mudança do ano (que começou aqui em casa, continuou na casa de Marcos e chegou até um amanhecer gostoso e confuso na praia do farol [de Itapuã], com Isabel, Aquino, Géo e não sei quem mais, com um pescador zangado que depois não ficou mais zangado, com um barbudo que achou ser ali o melhor momento para discutir a sunga do Gabeira, etc. etc. etc.), foi maravilhosa. Muita bebida e comida, muita gente, muito som.

Participaram da festa: minha família, o pessoal de Dimas, o pessoal de Aribó, Marquinhos, Aquino, Raimunda, Marcinha, Marçona, Júlia, Geraldo, Diari, Olga, Malandra, Isabel, Vera, Géo, Rita , Aparecida e por aí vai.

Assim entramos nos 80.

02.01 – quarta

Preparativos para a viagem do Projeto Rondon. Tomei vacina contra tifo e quase “mifu”...

04.01 – sexta

Comprei uma camiseta por 70 paus, um tamborim por 150 e esta agenda por 130.
Temo que a minha equipe [do Projeto Rondon] não seja das mais consistentes. Cheguei a comentar com Dimas e Marquinhos. Pô, G não pode tomar chuva, F dá um ataque de choro porque não se deu bem com G, L está confusa (como sempre), E é inexperiente, J até agora não deu as caras. Mas vamos parar por aqui. Vamos ter otimismo. O pessoal é legal, mas a barra no MT não deve ser mole.

05.01 – sábado

Hoje o dia chegou fresco e calmo. As ruas povoadas por vozes de crianças, latidos de cachorros, carros passando ao longe, sem incomodar. Passei no aeroporto e não resisti: comprei uma [revista] Planeta, dois livrinhos sobre literatura e música na década de 70 e mais um livro, Tortura, História e Repressão Política no Brasil de Antônio Carlos Fon.

06.01 – domingo

Geraldo e Diari me ofereceram, ontem, um almoço de despedida. Fomos ao Quiosque de Janaína onde nos esbaldamos nas moquecas de siri catado e de polvo. No caminho Geração me contou o que fizemos na madrugada do dia primeiro quando descemos para a praia. Incrível como eu tenha me esquecido de tantas coisas. Na volta, fiz compras na Unimar e ficamos em casa, auxiliados por Maria do Carmo, grampeando os livretos de Geraldo [Nem a galinha, nem o ovo, edições do autor]. À noite, na aposta do ludo, o lavador de pratos foi Ailton. Na platéia Jair e Tânia que vieram fazer um trabalho com Ailton. L pintou também. Saímos, conversamos, conversamos... Dormi na casa de Marcos.

Hoje saí com Dimas até a casa de Ana e terminamos tomando umas cervas de despedida, com Dulce, Lulú, Iolanda e cia.

11.01 - sexta (em Torixoréu – MT)

... no [Largo do] Campo Grande os ônibus já aguardavam as equipes que viajariam para o Mato Grosso. Em um deles iria a de Alto Garças, chefiada por Lima, e a de Araguaína, por Paraíba. No outro, Ponte Branca, por Angélica, e Torixoréu, por Dimas. Logo ao saltar do carro vi Raimunda e Aquino. Estavam também Géo e Marcinha. Em seguida localizei a equipe: Célia, Adington, Nonô, Marquinhos, Concinha, Suzane. Faltava Isabel.

Às 19h30, após o tradicional sermão dado pelo Cel. Remi, demos largada para os próximos três dias e meio de viagem. Percurso: Salvador – Feira de Santana – Vitória da Conquista - Teófilo Otoni - Governador Valadares – Rio - São Paulo - Presidente Prudente - Campo Grande – Coxim – Rondonópolis - Alto Garças – Araguaina - Ponte Branca - Torixoréu.

Dimas e Raimunda lideraram o auê. Mas, para mim, o destaque dessa viagem de quase quatro dias foram as conversas longas com Isabel [minha colega da faculdade de jornalismo] que vim a conhecer mais profundamente.

Além de Gonçalo, motorista da carroça que nos levou de Ponte Branca a Torixoréu, e do prefeito, Sebastião de tal, que mais parece o João Bafo de Onça, conhecemos Viumundo, um rapaz que muito nos ajudou, Leni, a diretora do ginásio e Stela, a professora.

Observação: Pirãozinho viajou conosco.

Outras pessoas: Hagamenon, Massimiano, Viumar, Pe. Karl Maria Binder.
Acontecimentos: baba na quadra do ginásio, apresentação da equipe com samba de roda, festa em Baliza (na outra margem do rio Araguaia), casamento numa fazenda. Visual: casinha no meio do mato, um córrego, luz de lampiões, forró de sanfona e pandeiro.

17.01 – quinta

Estou muito confortavelmente instalado na varanda da casa do Pe. Karl. Faz calor, como sempre. Uma tarde tranqüila, após uma noite de discussões da equipe e de fortes chuvas, raios e trovões. Mas é tudo calmo agora. Ouço ao longe o ruído de um motor funcionando, cigarras, passarinhos e carros passando na rua próxima. Todos da equipe estão ocupados.

A cidade e a equipe - Esta, até o momento, está sendo a operação mais fraca do projeto Rondon dentre as que participei. Se cheguei a criticar na operação passada a cidade de Bonito [Pará, feita em 1979], nem sei o que dizer desta. Realmente a cidade me decepcionou bastante. Nunca vi um lugar tão sem vida como este. Ninguém aparece para nada. Este, aliás, é um dos motivos que estão levando a equipe a um estado de insatisfação que quase chegou a prejudicar a sua união. Os outros motivos são a quase total desorganização do projeto, a falta de material, de medicamentos etc., além da maneira como foi composta: escolhida sem um maior conhecimento anterior dos seus membros e uma falta de consciência em relação a...

(Fui interrompido pela chegada do Pe. Karl, com quem bati um longo e agradável papo. Falamos sobre os problemas desta região, sobre São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, do qual ele disse ser um grande admirador, sobre a Bahia e a Alemanha. Achei-o simples, simpático, alegre, dinâmico. Pareceu-me, entretanto, ser do tipo “não me comprometa”. Ele faz o seu trabalho de rezar, de organizar grupos de jovens para excursões etc., mas sem se envolver politicamente, nem tomar partido. Mas posso estar completamente enganado).

18.01 – sexta

Grandes novidades. Estou muito perto de realizar um projeto que há um tempo atrás me parecia dificílimo: conhecer o bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia Dom Pedro Casaldáliga. A coisa aconteceu assim: antes de ontem fui com Dimas, Mariângela, Marquinhos e Concinha, na camioneta do prefeito, dirigida por um cara de nome Bernardino, para Barra do Garças. Lá chegando, após um delicioso churrasco, fomos telefonar para Cuiabá em Aragarças, na outra margem do rio Araguaia e do rio Garças que ali se encontram. Recebemos total apoio da PM de Barra do Garças e no quartel conhecemos o capitão Aloísio e o tenente Kerginaldo, este último um mulato alto, forte e gozador. Lá ficamos sabendo que na terça-feira próxima haverá um vôo direto de um avião da FAB para São Félix. Fiquei eufórico. Pegamos então uma carona na viatura até Aragarças onde nos inscrevemos, no CAN, para a viagem. Acertamos a estadia de segunda para terça lá no Campus Avançado do Rondon, com a diretora Zilah e um participante chamado Zanoni.
Fizemos também uma visita à FUNAI onde vi alguns índios xavantes.

21.01 - segunda.

Bira, da equipe de Ponte Branca, nos visitou trazendo a polêmica mala de Dimas que foi desviada na viagem e finalmente chegou ao seu destino.
No sábado tomamos a maior goleada do time de Torixoréu. Por volta de 12 a 3, não tenho certeza. O time foi composto por mim, Dimas, Bira, Nonô, Marquinhos e um goleiro arranjado por eles e que foi tirado após engolir quatro frangos inacreditáveis.

Domingo: dia de descanso. Recebemos a visita do (segundo as más línguas) grileiro Valdon Varjão que nos convidou para ir a Barra do Garças. Iremos na quinta. Quero saber mais coisas dessa turma: Varjão, Stela, Generoso, Rodrigues, Nativo, Bafo de Onça, Ilzebron, dona Pitita e Cia. Ltda.

22.01 – terça

Estou no ar, sobrevoando o MT num bandeirante rumo a São Félix do Araguaia. O avião comporta dez pessoas e ainda há uma poltrona na parte traseira, para carga. Aqui viajam o piloto, o co-piloto, três militares e sete passageiros, incluindo eu e Marquinhos, meu companheiro nesta aventura.

Lá fora, pela janela, vejo o rio Araguaia que daqui é pequeno e sinuoso. No mais uns fiapos de nuvens que passam sem pressa e o imenso verde. Faz calor. Noto uma mudança na vegetação desde quando decolamos há cerca de vinte minutos. O terreno está mais pantanoso. Sinais da Ilha do Bananal.

A viagem é monótona. O ruído contínuo do motor do avião e um certo mal estar, uma tonteira provocada pela mudança de altitude. Penso sobre o que me espera: São Félix, uma pequena cidade perdida nesse fim de mundo de violência, de medo, de conflitos de terra, de resistência.

Sinto um gosto amargo na boca. Respiro fundo. Tontura. Estou um pouco enjoado. O avião balança de vez em quando, mas não muito.

Santo Deus! Que mundo de verde, de azul e branco! Céu, nuvens, vegetação. Tudo em abundância, enchendo os olhos até se perder de vista. Sinto que não tenha havido lugar pra todos. Dimas, Manena e Concinha sobraram. Só havia dois lugares, além de não haver garantia de volta. Talvez precisemos voltar de ônibus. São dois dias de viagem numa estrada em péssimas condições.
Estamos sobre a Ilha do Bananal. Apertar os cintos. Próximos do nosso destino. O pantanal lá embaixo é imenso. Água pra todos os lados. Rios, riachos, lagoas. Algumas praias, bancos de areia... O avião está descendo... Opa! opa!... Vejo casas, agora... Estamos de lado, descendo. Que beleza! Lá está a pista e uma cidadezinha que me parece ser Santa Isabel. É agora. Atenção... Epa! epa! Estamos de novo na terra. Sãos e salvos.

23.01 – quarta

Chove em Santa Isabel do Morro, Ilha do Bananal. Sopra uma brisa. Até bem pouco tempo fazia um calor de lascar o cano.

Aqui o rio Araguaia é largo e bonito. Lá, no outro lado, São Félix, cidade onde vive Dom Pedro Casaldáliga, que está ausente. Que zebra!
Mas não tem nada não. Ainda tenho esperança de encontrá-lo. Neste exato momento estou mui confortavelmente instalado numa rede próximo a Paulinho, hóspede na casa de Nair Tanaka, que conheci por intermédio de Araújo, chefe de posto de uma aldeia karajá, em Tapirapé, próximo a Santa Terezinha, a poucas horas de lancha daqui e para onde irei a convite do mesmo.

Só para esclarecer: Paulinho é um jovem médico paulista que foi convidado por Nair, que também é uma jovem médica paulista, descendente direta de japoneses de Hiroshima, que trabalha pela Funai aqui em Santa Isabel, na aldeia dos índios karajás. Há ainda uma também jovem, só que dentista e baiana, chamada Amália, que trabalha aqui e que adora Serafim e seus Quatro Filhos [música de Ruy Mauriti que eu, freqüentemente, tocava no violão]. Será o fim?

Araújo, por sua vez, também jovem, só que paraibano, é um cara legal, mas bastante agitado e decidido, que conheci ontem num bar em São Félix, após ter contatado um grupo de paulistas que estão dando um curso em um colégio local.
Marquinhos foi descartado ontem pelo comandante do avião da FAB. Ele disse que não o levaria de jeito nenhum, que o avião não era para ficar passeando e tal. [Desconfio que ele ficou bravo por saber que andamos procurando o Pedro Casaldáliga, mas não tenho certeza]. Tentou hoje a Votec, mas também não conseguiu. Amanhã ele vai tentar de novo.

Mas é isso. O destino é imprevisível. Seguirei amanhã ou depois com Araújo para Tapirapé que ele diz ser um lugar maravilhoso e que há muito trabalho para se fazer lá.

Os índios karajás são bastante amáveis, dóceis e risonhos, a não ser quando bebem e, claro, quando estão bravos. Terei bastante tempo para observá-los.

25.01 – sexta

Ontem, quinta, fui a Fontoura, aldeia karajá, a pouco menos de duas horas de voadeira. Marquinhos ontem mesmo viajou pela Votec para Goiânia.
O passeio a Fontoura foi especial. Fomos em duas lanchas: Nair, Paulinho e Araújo com o índio Karuvina, e eu aqui, com alguns vaqueiros, em outra. Na volta viemos juntos com Karuvina.

Magnífico o Araguaia. Largo e sinuoso com diversos braços entrando pelo cerrado, pássaros: jacus, colhereiros, mergulhões. Uma beleza!

Na ida um temporal ou banzeiro como dizem aqui nos surpreendeu. Tive que tirar a roupa e ir de cueca, curtindo o frio e os pingos de chuva que castigavam minhas costas.

Os karajás estão mesmo num estado lastimável. Doença e cachaça, dois grandes males que o tori introduziu entre eles.

Fontoura conta com cerca de 500 índios. Suas cabanas são em sua grande maioria de palha com chão de barro batido. O chefe de posto da aldeia, Salin, tem 22 anos de experiência no trato com os índios. É um cara bastante simpático.
Na sexta fui com Paulinho a São Félix, onde encontramos Nair. Almoçamos com os paulistas no colégio. Tive também na casa de Dom Pedro que mais parece o QG da prelazia. Lá conheci alguns jovens que trabalham com ele. Fiz uma barganha: o “Peço a Palavra” e o “Aqui Ficção” pelo “Alvorada”.

26.01 – sábado

Depois de uma bela noite de pesadelos (suspense, terror, aranhas cabeludas), uma tremenda zebra: Araújo só viajará para Tapirapé na segunda. Minha decisão foi imediata: peguei meus “trens” e vim para São Félix. Viajarei amanhã cedo, de ônibus, para Barra do Garças. Um dia ou dois de estrada, buracos e atoleiros. Tem nada não. Torixoréu me espera. Estou com uma saudade danada da minha turma, dos carinhos de Isabel, das frescuras de Didi, dos gritos de Raimunda, das malandragens de Dimas, do snooker, das cervas, dos passeios, dos banhos na bica e por aí vai.

Há poucos minutos conversei com o pessoal da prelazia. Cascão, Regina, Fernanda e mais o Paulinho. Assuntos: trabalhos desenvolvidos, atividades comunitárias, movimento negro, método Paulo Freire etc.

Estou neste momento, num quarto alugado, no hotel Santos Dumont, na monótona e quente tarde de São Félix. Na espera.

29.01 – terça

Torixoréu – Estou de volta, são e salvo, apesar de...

Sábado de tardinha quase anoitecendo. Em frente ao hotel Santos Dumont, de frente para o Araguaia, confortavelmente instalado numa cadeira, observava o movimento da rua: crianças brincando, tomando banho no rio, um ou outro carro passando, calor, mosquitos. Conheci Gil, filho da dona da pensão, estudante de Direito, formado em História, gente boa. Conversamos bastante e, graças a essa amizade, filei o jantar com ele e a família. O pai dele, seu João, me contou muitas coisas sobre a repressão à guerrilha, em 72-73, pelos militares, aos posseiros e à prelazia, inclusive ao próprio Dom Pedro. Me hospedei gratuitamente no hotel sem pagar um tostão.

À noite fomos a uma festa no clube local onde encontramos Araújo. Curtimos um bocado juntos, eu, o maluco e o lânguido.

Domingo quase perdi o ônibus que saiu [de São Félix] às seis da madruga. Uma viagem cansativa, porém divertida. Da cidade até um povoado de nome Chapadinha fui conversando com uma irmã da prelazia. Depois um tal Sr. Armando se chegou e puxou conversa. Fiquei desconfiado, mas depois dei alguma trela. Com ele viajava Julimar, um gaúcho de gestos largos, que conversava e comia mais que tudo. Estava na região como hidrogeólogo para trabalhar com o Sr. Armando que é do INCRA. Depois fiquei sabendo que era paraquedista, tendo atuado em Xambioá na época da guerrilha.

À noite, juntamente com outro senhor, simpático, administrador da fazenda de uma multinacional, jantamos e conversamos animadamente. Mais tarde, quando retornamos à estrada, dormi e tive alucinações, vendo miragens. Via a cidade de Barra do Garças onde só havia mato. Ia desse jeito até que o ônibus atolou e interrompeu o delírio. Amanheci o dia na estrada, os pés atolados na lama, empurrando o ônibus, conversando fiado, ouvindo piadas, gozando a má sorte. Fomos a um boteco na beira da estrada onde tomamos uma pinga e um cafezinho. Foi lá que o Julimar me disse que o seu Armando era oficial da Aeronáutica e que havia sido um dos envolvidos na Revolta de Aragarças. Nesse momento pintou um caminhão no qual peguei uma carona juntamente com um mulato paranaense e mais três gajos. Um deles, posseiro, falou-me sobre os problemas que está tendo com a tal fazenda Tubarão que quer tomar-lhe as terras. Conversamos e, papo vai, papo vem, ele me disse que havia dois investigadores no ônibus. Liguei as coisas, com uma pulga mordendo minhas orelhas.

Duas horas sacolejando em cima do caminhão que voou sobre os buracos até Barra do Garças onde tomei um banho no hotel Amazonas. Fiquei zanzando pela cidade até que às 15h30 peguei o ônibus pra Torixoréu. Conheci Geraldo, fiscal do Mobral (simpático à primeira vista e antipático à segunda) que à noite veio nos visitar.

No alojamento, a recepção. Matar as saudades. O pessoal está bem. Didi foi a Rondonópolis buscar medicamentos. Dimas e Isabel estiveram muito doentes, gripados. Antes de dormir conversei ligeiramente com Isabel.

Obs: Recebi carta de Geraldo.

Enfim, tudo em paz.

FEVEREIRO / 1980

04.02 – segunda

Final de operação. Depois de amanhã viajaremos. Marquinhos e Didi foram ontem por conta própria e por motivos maiores. Somos onze agora.

(...)

Há pouco dei uma palestra sobre comunicação (técnica e história) para as professoras do colégio, inclusive a Lenir. O Deu para batermos um papo bem proveitoso. Os MCM dentro da estrutura do capitalismo. Os MCM como veículos de alienação cultural e política. A farsa dos MCM como veículo cultural etc. As professoras ficaram meio balançadas e houve discussão, o que é muito bom. Aos poucos o povo vai tomando consciência dos seus direitos e deveres. A ditadura não poderá calar essa gente, não dominará seus pensamentos por muito tempo mais.

Nesses últimos dias dediquei-me à feitura do jornalzinho mimeografado. Hoje, enfim, terminei. São oito páginas e um editorial bastante crítico ao Projeto Rondon, um artigo sobre a catira [dança típica do Mato Grosso], um histórico de Torixoréu, uma entrevista com Dimas, uma outra com Nativo, um balanço das atividades realizadas e um poema do Sr. Osvaldo Sá, tio de Menon, sobre o Araguaia. Está regular.

A integração com a comunidade nesses últimos dias foi bem maior. Na quarta ou quinta, não lembro bem, um grupo de catira de Torixoréu fez uma apresentação para nós. Gostei bastante da música e da dança, mas achei-as muito repetitivas.
Temos ido sempre ao Espigão onde dançamos sempre os mesmos sambinhas e ouvimos sempre as mesmas músicas de Roberto Carlos. Outra curtição são as serestas. A turma de Menon, Júlio César e outros, como o irmão dele, João Batista, e as meninas, Quênia e Ynes, tem se chegado bastante.

No sábado choveu e não houve a grande festa de despedida que estava programada. Houve sim algumas discussões entre mim, Dimas e Mariângela com Didi e depois Nonô. Mas tudo terminou em paz.

Ontem almocei com Suzane na casa de Menon. Depois fomos com toda a equipe (menos Marquinhos e Didi que já tinham viajado) e mais Bira de Ponte Branca e três caras da Sanemat para a Pedra Branca, uma cascata linda onde curtimos um bocado. Lá estavam também o João Batista e as meninas, Quênia e Ynes que foram e voltaram de carro.

O passeio foi ótimo, mas a volta não estava no programa. Os caminhões, um deles pesando cerca de oito toneladas e outro na base de seis, atolaram e não houve jeito de tirá-los. Resultado: assamos uma carne que alguém levou e, já tudo escuro, retornamos a pé. Eram mais de 18 quilômetros até Torixoréu. A sorte foi que o pessoal (Júlio César, Barriga e o gaúcho) sentiu a nossa falta e foi nos buscar num caminhãozinho. Chegamos à casa por volta das 23 h e ainda aproveitamos um toró que caiu para tomarmos banho [na calha do alojamento].

Recebi carta de casa. Boas notícias: Rita, Maria Teresa, Sônia e Aribó passaram no vestibular. Nenhuma notícia de Gal.

Hoje reiniciei a leitura de Manuelzão e Minguilim, de João Guimarães Rosa.
Pretendo, junto com Dimas, Isabel e Mariângela, seguir viagem para Manaus. Só uma coisa está pegando: grana. Só estou com mil e quinhentos. Mas vamos ver se o avião da FAB funciona de novo.

05.02 – Terça-feira

Final de operação. Último dia em Torixoréu. O que fica? O que marcou? Um balanço.

Momentos:

• A grande jornada. O samba, os churrascos, o rio, a mala perdida, o Galeão, os vastos cerrados matogrossenses.

• A chegada: Entrosamento. O baba, o casamento na roça, festa em Baliza, a chuva incessante.

• A chegada de Dimas, as reuniões, as discussões. Auê-auê!

• Barra do Garças: o churrasco, a PM, a Funai, o Campus Avançado. Silêncio absoluto.

• Novamente Baliza: O samba, a capoeira, a calça rasgada.

• A cobra misteriosa. O susto. O medo. “Brincadeiras de mau gosto”.

• Atividades: o passeio ciclístico, os cursos, as palestras: “História e técnicas de comunicação”, o teatro, a catira.

• MT visto de cima. Um bandeirantes cortando os céus; fiapos de nuvens, a Ilha do Bananal: Tori, Macrê tchorosá, Manacrê torerá, Taterium, Hawirê. Ah, que belo rio. Um Araguaia diferente, largo, belo, misterioso. Bem longe estão: Araújo, Nair, Paulinho, Cascão, Regina, Fernanda, Gil e D. Pedro que não cheguei a conhecer. Como chove em Santa Isabel do Morro! Como chove... lágrimas... Chove lágrimas em Santa Isabel do Morro! As lágrimas dos Karajás... Hawirê, irmãos!

• Enfim a estrada. Barro, buracos. Seu Armando, um investigador? E o gaúcho? Não bastou Xambioá? Serão os seus gestos largos inocentes? O que há por trás disso, tchê?

• Final de operação. Gosto de despedida. Amanhã olharei para trás e os verei: Agamenon, João Sá, João Bafo de Onça, Nativo, Ilzebron, Stela, Lenir, Vilmar, Vilmundo, Varjão, Júlio César, Lia, Quênia e mais ...

• Uma tarde fresca, gostosa. Uma garota fresca, gostosa. Uma sala vazia. Exposição de arte, dia de festa, presente a Iemanjá. Lábios quentes, corpo quente, conversas fúteis.

• Verei também uma estrada, dois caminhões da Sanemat. A Pedra Branca.
A cascata. O mergulho da rocha. Eu e Bel. Tão bonita, Bel. Os cabelos molhados,
um jeito lindo de se dar. A noite chegando, o mato, a escuridão, os caminhões atolados. Como é duro trabalhar!

Assim é. Tudo muito válido. Mais agora que fica para trás, na lembrança, no tempo. Torixoréu, uma experiência vivida. Quem sabe um sonho! A galinhada. A madrugada chegando tão só. E nós aqui sempre esperando um novo dia.
Hoje, eu amo o mundo!

Equipe:

A: Mano véi. Um monitor esforçado, conciliador. Faltou-lhe, a meu ver, um pouco mais de moral, de decisão. No mais, o curtidor, o malandro, o amigo.

B: Nervosa, estourada, não mais a aquela de Canapi e de Bonito. Compreensível devido aos momentos difíceis no campo emocional que está passando. Mesmo assim continua a ser indispensável dentro da equipe.

C: Este sim foi o curtidor da equipe. Nem pensar em trabalho. Snooker, samba, birita e viagens. Não levou a sério o pouco trabalho que lhe competiu.

D: O mascote. Exigimos dele um posicionamento de adulto. Apesar de suas chatices, de suas estrepolias, acho-o um bom menino.

E: Devagar e sempre realizou um trabalho com muito amor e dedicação. Organizada, realizou muito na sua área.

F: Agitada, faladora, sempre alerta, observando, analisando, a baixinha foi, a meu ver, ao mesmo tempo que alegre, às vezes enjoada, tirada a mandona. Talvez seja engano meu, não sei. Quanto ao seu trabalho, eu diria que foi regular, porém feito com dedicação.

G: Um meninão fresco, com certas vontades que não consigo admitir num homem e muito menos num médico que precisa ter uma certa solidariedade com o próximo. Mas não é um mau rapaz. Apesar de tudo, gosto dele.

H: O amigo de todas as horas, no início da operação. Depois, um chato beberrão. Equilibrando as pontas, um cara legal.

I, J e K: As belas adormecidas. Se formos contar as palavras que as três disseram em toda a operação não dava para encher uma página.

L: Trabalhou muito, mas quase sempre contrafeita. Entendo as razões dela: a saturação, a vontade de buscar coisas novas, de seguir novos rumos, a insatisfação. Reconheço-lhe, entretanto, a força de vontade, a persistência. Acho que cumpriu sua tarefa.

Não acho que dei o que podia dar. Acomodei-me pelo saco que estava do Rondon. Meus interesses eram mais particulares: conhecer São Félix, ficar a par dos problemas vividos pelos posseiros etc. Pouco me dava o sucesso ou não da operação. Não cumpri 100% o meu papel.

TORIXORÉU: A cidade foi completamente diferente do que eu esperava: um pequeno povoado no meio da selva, o rio Araguaia repleto de peixes, banhos, pescarias, caçadas. Nada disso. Apenas uma cidade sem sal. Mesmo que, se agora, no final da operação, o pessoal tenha se chegado mais, tenhamos feito sambas, serestas e churrascos, não acho que esta seja uma cidade animada. Não se compara, por exemplo, a Canapi, que nela bate longe.

Mas, é isso mesmo. A operação chegou ao fim. Torixoréu está bem longe e, mesmo que nela eu tenha passado bons momentos, por ela não derramei nenhuma lágrima.

The end. Adeus, Rondon, para sempre... é o que espero.

Campo Grande, 10.02.80