PÁSSARO DOURADO


PRIMEIRO CAPÍTULO

GESTAÇÃO


Desintegraram-se no quarto os últimos vestígios da noite. Legiões de seres desapareceram num turbilhão, sonhos esvaíram-se como sombras levadas pelas setas de luz que se multiplicavam entre as camas, a mesinha e o guarda-roupa.
A imagem de Cristina, na porta, ganhava consistência. Ela ouvira no rádio a notícia que se espalhava como uma onda, no quarto, no mundo.
– O Papa morreu.
Não seria o primeiro nem o último papa a passar desta para melhor. Por que perturbar-me? Mexi os ossos sob a coberta. Pensei em Nostradamus com suas enigmáticas profecias.

No ano de 1999 e sete meses
Dos céus virá o rei do terror.

Um galo anunciava o sol. Na ausência de grilos e sapos, no ruído dos automóveis circulando, no canto apagado das cigarras, percebia que a realidade dos meus sonhos era também fugidia, tênue, transparente. Despedia-se um mundo. Renascia um outro que reunia ações, compromissos, convivência, deveres, obrigações, planos para o futuro.
Mas, que futuro?

Logo o dia nublou-se, luz suave impregnando pessoas e objetos de irrealidade. À janela observava o quintal, oásis verde na avenida tomada por construções metálicas. Seres anônimos circulavam incessantemente. Sobre as árvores, a chuva inundava a manhã com um acento de melancolia. As galinhas nos poleiros, um bando de saguis, um pássaro solitário, um lagarto cruzando o terreiro entre arbustos – tudo era uma sinfonia que me despertava para o momento, concerto de formas e movimentos a reivindicar saídas. Era imperioso o choque, necessário o confronto. Mas por quê? Com o quê?
Nascer, crescer, morrer. Sentia o corpo formigar, músculos flácidos. O horizonte deflagrado de expectativas dava-me a sensação de que algo de novo estava para acontecer.
Afluía-me a imagem de um guerreiro medieval conquistando os espaços equívocos do coração e da honra. A casa era silêncio. No café, conversávamos cerimoniosamente sobre os últimos acontecimentos. Minha mãe, eu, dois irmãos, uma irmã: cinco mentes apreensivas, um mundo em crise, em transformação.
Talheres entrechocando-se, ruídos familiares. A incerteza quanto ao futuro nos aproximava. Éramos um coração a sentir e a pulsar. Uma espiral projetava-se no infinito e se revelava ali nos inquietos pintos furtando ás asas da galinha o calor necessário à vida, na pequena corredeira levando folhas e formigas para o brejo habitado por cobras e sapos, na família reunida em torno da mesa. O sentido. Tão longe iria buscá-lo...

Passei o dia em casa observando, apreensivo, a idéia que surgia, evoluindo de um vago sentimento para uma possível realidade. Uma vida dedicada ao estudo, a um emprego, à família e, finalmente, à morte, cedia à aventura de uma lenta e solitária peregrinação pelo mundo afora, de cidade em cidade, nas mais remotas povoações do interior do país, trabalhando o suficiente para comer, permitindo ao dia sem horas cobrir o corpo com dádivas de calor e frio, ao pó das estradas a marca dos pés desenhando um caminho, inaugurando mais uma experiência.
Noite. No quarto, em silêncio, meditava com espanto sobre a importante missão que eu me havia atribuído, quando a lembrança de um acontecimento recente juntou-se aos meus planos. Referia-se a uma notícia publicada num jornal local, datado de 29 de julho de 1978. Num canto qualquer da página uma pequena nota anunciava: “Danniken vem procurar o Eldorado no Brasil”, e prosseguia informando que “o escritor alemão Erich Von Danniken, autor do best seller ‘De volta às estrelas’, confirmou numa carta dirigida ao líder indígena Tatunca Nara, da tribo dos Nawas, que virá a Roraima até o fim do ano para organizar uma expedição e localizar o Eldorado, uma cidade subterrânea cheia de riquezas que existiria em algum ponto do território, em direção leste”.
Continuava:
“Tatunca Nara, que se diz filho de um cacique dos índios Nawas com uma freira alemã, está procurando pessoas interessadas em participar da expedição, oferecendo pagamentos que vão de 20 a 10 mil curzeiros. Como prova de que age com honestidade ele mostra uma carta recebida de Erich Von Danniken, em papel timbrado, e a tradução em português garantindo que a expedição será realizada”.
E concluía:
“A expedição sairá da região do Catrimirim a 180 quilômetros de Boa Vista, indo em direção leste até chegar a uma região semi-virgem onde Tatunca Nara espera localizar, depois de um rio subterrâneo, a entrada para a cidade perdida. ‘O lugar existe, meu pai e meu avô falavam muito dela e até me deram mapas. Sei que vou achá-lo’. As riquezas, segundo o líder indígena serão entregues ao governo brasileiro”.
E então? – interroguei-me quando li a notícia. Por que não poderia, eu mesmo, participar da expedição? Não era aquela a chance que há muito tempo eu esperava?
As semanas seguintes ao achado foram de intensos preparativos. Contatei antropólogos, consultei revistas e livros sobre expedições e cidades desaparecidas, o Eldorado e suas variantes; o Cel. Fawcett que sumiu sem deixar vestígios na floresta amazônica e sobre o qual, ainda hoje, circulam boatos os mais estapafúrdios. Escrevi para Danniken informando-o da minha intenção de participar da expedição. Aguardei a resposta, primeiro com ansiedade, depois com apreensão, por fim com indiferença. Aos poucos desacreditava da possibilidade dessa aventura e terminei por esquecer. Agora, ali, a idéia renascia e sobrepondo-se à lenta e penosa peregrinação, ressuscitava-me enfiado na misteriosa floresta amazônica, seguindo pistas, orientando-me por mapas, decifrando enigmas, superando obstáculos e deslumbrado, enfim, ante a monumental cidade de ouro. Era a glória!
Mas não me agradava a idéia de me meter numa aventura desta, sozinho. Sem dúvida, seria muito mais divertido compartilhar momentos tão grandiosos com um amigo mais chegado com o qual, nos intervalos da penosa jornada, poderia conversar sobre a nossa terra e o tédio dos que ficaram vivendo as suas rotinas mesquinhas. Não foi necessário pensar muito. Quem mais toparia uma aventura dessa senão o meu amigo Geraldo?
E, assim, naquele momento solene decidi que iríamos, eu e Geraldo, descobrir o Eldorado.

Na mesa do bar, com o olhar perdido entre garrafas de cerveja, no mar pontilhado de jangadas, amadurecíamos a idéia.
Não deveríamos tomar uma decisão desta assim tão precipitadamente, claro. Estávamos quase no fim do semestre letivo, dois meses mais e viriam as férias, poderíamos fazer o que bem entendêssemos sem prejuízo para a nossa “carreira”. Seria, digamos, mais sensato.
– Mas observe uma coisa: para que esperarmos as férias se queremos justamente romper com tudo?
Geraldo me olhava, inexpressivo.
– Não estamos mais a fim de cursar faculdade, fazer carreira, viver uma vida de bacharel, não é mesmo? Se vamos romper com tudo, pra que esperar? Não acha isso uma incoerência?
Esticou os beiços.
– É agora ou nunca!
Pediu mais uma ao garçon.
– O problema – disse ele – é que não temos dinheiro.
– Mas isso nós podemos conseguir! – falei exaltado.
– Como? – disse ele, apreensivo. – Assaltando a caderneta de poupança?
– Bem... podemos vender o que temos...
– Mas nós não temos nada!
Fizemos um inventário.
Geraldo:
Pra vender – 1 máquina de escrever, 1 campo de botão, livros.
Mais – Salário do emprego que vai abandonar, quantia x (empréstimo do pai, a definir).
Carlos:
Pra vender – Equipamento para revelação de fotografias (1 ampliador, duas banheiras e substâncias químicas), 5 engradados de cerveja e 7 de refrigerantes, restos de um bar naufragado.
Mais – Renda do aluguel de uma casa.
Próximo passo: falar com os nossos familiares.
Como dizer à minha mãe que ia “largar tudo” e “sair por aí”?
– Não precisa dizer isto desta forma assim tão dramática – disse Ailton, meu irmão mais velho, com sua habitual sensatez. – Por que não uma turné pelo Nordeste para esfriar a cabeça? Algo assim menos radical? Um passeio...
– Certíssimo! – concordei. – Assim evitaremos derramamento de lágrimas.
No dia seguinte, à mesa do almoço, não resisti.
– Mãe, o que você diria se um dia resolvêssemos botar o pé na estrada? – perguntei com a cara mais inocente do mundo.
– Nada – disse ela. – Ninguém pode fugir do seu destino. Eu o abençoaria e que fosse com Deus.
Mal contive o entusiasmo. Controlei-me a custo para não jogar o caso no mato.
– Por quê? –perguntou ela, desconfiada...

Em uma semana quase toda Itapuã sabia que íamos “largar tudo” e “sair por aí”. Nos bares, todas as noites, nos reuníamos com pessoas excitadas. Olhavam-nos estranhamente, como se dizendo: “são eles!” e todos reclamavam da rotina, da vida sem graça que levavam, etc., mas quando sugeríamos que “rompessem com tudo”, desconversavam, dizendo: “Ah! Se eu pudesse!”, e concluíam: “Vocês é que são corajosos, heim?” Assim os dias transcorriam em bebedeiras e polêmicas. Nossas mães ouviam estranhos boatos sobre seus rebentos e já nos olhavam desconfiadas.
– Vê lá o que vão fazer, heim? – diziam severamente. Ao que replicávamos:
– Histórias. Invencionices.
– E aquela história de sair por aí.
– Nada a ver.
Já tínhamos bebido em quase todos os bares do bairro. Em vez de render, o dinheiro desaparecia. Mas o Dia D se aproximava e a empolgação inicial dava lugar a uma febril determinação que nos assustava pelo grau de seriedade que adquiria. Não podíamos voltar atrás, todos cobravam a nossa partida ainda que dizendo: “Deixem isso pra lá!”, “isto não leva a nada!” e coisas do gênero. Faziam até apostas sobre o tempo que levaríamos fora. Pra uns, não agüentaríamos um mês longe de casa; pra outros, uma semana. Alguns achavam que não chegaríamos sequer a partir. Era uma questão de honra.
Assim fomos desfazendo os compromissos, botando as coisas em dia e nos embriagando de Bahia. Percorri os quatro cantos da cidade despedindo-me longamente “daquela que foi o meu berço”, saboreando exaustivamente suas ruas, sobrados, praias, igrejas, tortuosos caminhos da minha infância, da minha adolescência. Revia meus diários, desenhos e anotações; revistas, jornais e livros, encaixotando ou queimando os papéis num ritual que celebrava uma transformação. No silêncio da noite as luminosas e irrequietas chamas eram como um augúrio de uma Nova Era. Algo indefinido, ainda, mas definitivo. Passada a euforia dos primeiros dias uma estranha sensação de gravidade assomava-nos o íntimo forjando aquilo que iríamos cultivar como principal substância da nossa aventura: a esperança. Uma esperança às vezes terna, enigmática; às vezes indomável, eloquente; às vezes triste, mas que nos conservava em expectante alegria. As chamas despediam um passado certo que dava lugar a uma busca incerta. As sombras do futuro em constante ameaça impunham-nos o anseio da conquista do espaço das nossas vidas no que a terra nos permitiria ter. As brincadeiras diluíam-se, as vozes em volta de nós já não tinham importância. E quando menos esperava, num dia em que os olhos do pensamento saboreavam as eternas imagens da infância – mar enigmático, infindo, rochas perenes, solitárias – chegou a resposta. Uma carta em inglês, assinada por Danniken, participava-me da impossibilidade dele dar-me a devida atenção por motivo de encontrar-se envolvido em explorações no México e no Canadá. Mas colocava à minha disposição um grande número de propostas para a venda de livros do próprio Danniken, excursões turísticas a cidades maravilhosas, etc.
Nenhuma referência ao Eldorado. Enviada pelo departamento de relações públicas do escritor, excluía o contato direto com o próprio Danniken. Fiquei desapontado, mas logo reagi. Pensei que o Eldorado não era uma possibilidade descartada, mas seria, mesmo, o objetivo maior da nossa aventura. Afinal, haveria tesouros maiores que os existentes em nós mesmos? Não eram esses os tesouros que iríamos buscar pondo-nos a prova, conhecendo-nos melhor em situações diversas das que nos habituáramos a viver?
Delineavam-se, enfim, os nossos objetivos. A partida era inevitável.

E agora? – perguntou Geraldo, vendo o céu clarear.
Observei as tênues formas que se anunciavam no horizonte. Senti uma profunda sensação de paz, como em criança, quando me era grande o fascínio do vôo e sabia ser alcançável o universo. Nada mais precisava ser dito. Então, pude sentir que era única aquela manhã, mas que haveria outras e nada era em vão. O nosso encontro se realizaria. Os passos iniciais foram dados, tudo o mais era questão de tempo, persistência, paciência, audácia. Nós éramos capazes.
– Veja... o sol!
E os cavalos alados tornaram-se visíveis, e os guerreiros, e os misteriosos habitantes do país do Nada: um exército de nuvens cobria o vasto espaço sobre as nossas cabeças. Entre elas os raios de sol renovavam as formas das coisas.

Embarcamos aos 20 minutos do dia 9 de novembro de 1988, após intensos preparativos e prolongadas despedidas. Família, amigos, parentes, todos compareceram à partida dos “rapazes que iam botar o pé na estrada”. A rodoviária, tomada de assalto, era uma miscelânea de faces até então sonolentas, agora surpresas, espantadas, indignadas. Tanto barulho por nada.
– Ônibus leito? – exclamou Aquino. – Mas...
– Shhh! Vocês querem estragar tudo? Querem que as nossas mães sofram ainda mais? Já não basta o que estão passando? Ora, nós temos que manter as aparências. Lembre-se: nós vamos fazer uma tournée.
– É isso mesmo! – disse Geraldo. – Saímos de leito agora, é uma concessão. Temos que mostrar para elas que a nossa viagem não é nada do que estão falando por aí.
Mas não havia como esconder nossas verdadeiras intenções. Elas estavam na cara – nas nossas e nas dos nossos amigos.
O ônibus saiu na hora marcada, acho que para fugir do barulho. Abraçamos todos. Conselhos, advertências. Aos poucos se distanciaram. Palavras e gestos perdendo-se na noite, depois o ruído contínuo do motor, as luzes da cidade, os faróis dos automóveis, a estrada silenciosa apontando para um destino ignorado. A rodomoça serviu biscoitos e refrigerantes. Apertei a mão de Geraldo e, como um só, nossos corações eram todos esperança.