NOTAS - ENTREVISTA COM MIGUEL ARCANJO

PROJETO HISTÓRIA DOS BAIRROS DE SALVADOR


ENTREVISTA COM MIGUEL ARCANJO DOS SANTOS (1906 – xxx)
PROFISSÃO: PESCADOR (APOSENTADO) RELIGIÃO: CATÓLICA
ENTREVISTA REALIZADA EM TRÊS ETAPAS, TOTALIZANDO 3 HORAS DE GRAVAÇÃO, NOS DIAS 10 E 13/08 E 03/11/1987
LOCAL DA ENTREVISTA: RUA 7 DE SETEMBRO, 11, ITAPUÃ (CASA DO ENTREVISTADO)
ENTREVISTADOR: CARLOS RIBEIRO
ETAPA 01


P – Seu Miguel Arcanjo dos Santos, um dos mais antigos moradores do bairro de Itapuã, é um sobrevivente do tempo das baleias. Coincidentemente, hoje é o dia de São Lourenço, um dos santos mais considerados pelos pescadores daqui, juntamente com São Pedro, São Francisco e São Tomé...


R - Isso mesmo. No tempo da pesca da baleia, nesse dia de hoje, os pescadores já ficávamos aqui, meio mal, esperando o primeiro madrijo, a primeira baleia, essa baleia era fêmea, num sabe? Que vinha do norte já de arribação pro sul, no dia de São Lourenço. A única embarcação certa só era a pesca da baleia. Os outros pescadores num iam não: só era a baleia, que era esperado o primeiro madrijo e muitos arpoavam e às vezes traziam e matavam, às vezes não matava, mas às vezes matavam.


P – Neste dia de hoje, de São Lourenço, havia alguma festividade aqui no bairro? Alguma comemoração?


R – Não, festividade mesmo não tinha não, sabe, não tinha não, agora o pessoá mandava celebrar missa pro pescador, sabe? Celebrar missa somente, a missa simples, sabe? E aí cada qual agora iam pras suas casas tomar seus pileques, passar o dia, distrair... não tinha mesmo festa popular, sabe? A festa popular que eles faziam pros pescador só era domingo de São Francisco. São Francisco e a de São Tomé. E a da igreja mesmo, é a de Nossa Senhora da Conceição, no dia 2 de fevereiro.


P – Seu Miguel, quais as suas primeiras lembranças daqui, de Itapuã... O senhor nasceu aqui mesmo, no bairro?


R – Bom, eu nasci aqui mesmo... não foi aqui. Eu nasci lá na... na rua Direita que chama hoje a rua Genebaldo Figueiredo: lá foi que nasci, na casa do meu avô.


P – E quais são as suas lembranças de infância. Como era a Itapuã daqueles tempos?


R – Bom, meu amigo, é o seguinte: eu arcansei Itapuã como um bairro, a maioria das casas de palha. A maioria das casas era toda coberta de palha, de sopapo. Aqui mesmo nesta rua, estas casas todas, este corredor que é só de um lado, era tudo casa de palha: não tinha casas de telha. A única casa de telha que tinha só era lá mesmo na rua Direita, num sabe, até lá, ao lado da igreja, é onde chamam rua Genebaldo Figueiredo. Este era o único correio de casa de telha que tinha. O mais tudo era de palha. A casa mesmo do meu avô era de telha, era de telha. Botava o fundo pro mar. Lá foi que nasci.


P – Quando foi que o senhor nasceu?


R – Eu nasci em 1906. Oito de maio de 1906. Portanto, hoje eu já fiz 81. Neste mês de maio agora que passou, fiz 81, já estou caminhando pra 82. Agora, aqui nesta rua, num sabe, depois que eu fui crescendo, fiquei rapazinho, e quando eu completei a idade 16 anos, naquele tempo não tinha onde procurar o que fazer, aqui em Itapuã não se achava. O que fazer que tinha aqui era pescaria e a roça. Quem era de roça, era de roça, quem era de pescaria, era de pescaria. Então eu, como nunca fui apaixonado pela pescaria, era filho de pescador, neto de pescador. Agora, meu pai, que era negociante, mas eu nunca tinha paixão pela pescaria, nunca fui. Então eu botei, com a idade de 16 anos eu botei o pé na rua, pra cidade, procurar o que fazer. O único trabalho que encontrei foi de ajudante de pedreiro: eu enfrentei, tava com 16 anos, enfrentei, o dono destas construção chamava-se Amado Bahia. E o mestre de obras dele chamava-se Tobias, era filho daqui de Itapuã, era o mestre geral. E lá, eu consegui ainda trabalhar 1 ano ou mais ou menos 9 meses ou 11 pra 10 mês. Foi quando Amado Bahia morreu, compreendeu, aí pronto. Ele tinha um casal: era um homem e uma mulher. O filho chamava-se Álvaro Bahia. Então ficou o filho, como administrador das obras dele, ele é quem tinha a maior quantidade de açougue em Itapu..., na Bahia, e casa de morada. Aí era acabando uma, construindo outra, acabando uma casa, assim era que o mestre dele vivia.


P – Mas, o sr. continuava morando em Itapuã?


R – Não, eu morava aqui em Itapuã. Agora... trabalhava na cidade [Salvador], lá eu ficava, morava com uma tinha minha. Uma tia minha que chamava-se Ângela. Ângela, irmã de minha mãe. Ela morava na cidade, então, ali no Estique, lá na Liberdade. Então, eu morava lá com ela.


P – Para as pessoas que moram em Itapuã e trabalham na cidade, hoje em dia, não é muito fácil, com o transporte que tem aí...


R – Aaaa!!


P – Tanto que as pessoas até falam “morar na cidade”, como se aqui fosse fora da cidade. Como era naquele tempo, quando não tinha nem transporte coletivo?


R – Naquele tempo, quem ia trabalhar na cidade, tinha que ficar morando lá mesmo. Só vinha de tempo em tempo. No tempo de festa, como eu mesmo, só vinha em tempo de festa. Sete de setembro, que era festa em Itapuã, 2 de fevereiro que era a grande festa, que a gente vinha. Mas não podia vim, porque se a gente viesse aqui pra Itapuã, pra no outro dia descer pra trabalhar, tinha que estar acordado pelo menos 2 horas da madrugada. Pra botar o pé na rua, nós tinha que ir à pé até a Baixa do Cabula. Agora, na Baixa do Cabula tinha que ficar esperando o bonde, viu, que vinha, saía do barracão de lá da Barroquinha, direto pra Calçada, fim de linha da Calçada, a gente esperava ele vim da Calçada, pra ir pra cidade. Agora a gente tomava o bonde pra ir pra cidade, trabalhar. Mas tinha que sair daqui 2 horas da madrugada, à pé, viu, daqui até a Baixa do Vabula. Portanto, ninguém podia vim morar aqui em Itapuã pra todo dia ir trabalhar, né? Mas hoje, não: hoje já mora aqui, vai todo dia, porque tem transporte pra lá e pra cá, pra todo lado. Mas, naquele tempo, tempo atrasado, era isso. De forma que a vida era essa: pra gente sair daqui de Itapuã pra trabalhar por lá, tinha que morar lá mesmo. Tinha de arranjar um jeito por lá, um parente, a casa de um parente, uma coisa pra ficar morando lá e só vinha em tempo de festa. Agora, no dia que a gente descia mesmo pra trabalhar, já sabia, o horário era esse: acordar 2 horas da madrugada. A gente tinha galo, essa coisa, eu mesmo assim que eu comecei a trabalhar, comprei logo um calhambequezinho dum despertador. (Risos)


P – Quer dizer que antes do despertador, acordava com o galo mesmo.


R – É, antes do despertador... eu sempre criei galinha, também no tempo de sorteiro, minha mãe é quem tomava conta, de forma que eu tinha um galo aqui, certeiro, quando dava 1 hora da madrugada ele abria o bico.

P – Não dava para regular o galo para 2 horas, né? Tinha que acordar 1 hora antes.

R – Não, tinha que acordar 1 hora, eu botava o relógio para 1 hora, sabe? Era, pra poder eu ter tempo de descansar o corpo, pra poder, agora, 2 horas, botar o pé na rua. De forma que o...

P – Quer dizer, seu Migeul, que nessa época as pessoas trabalhavam, ou na pescaria, ou na roça.

R – Ou na roça, é. A não ser aqueles que tinham casas de negócio.

P – Então, vamos começar pela roça, pelo trabalho de plantação. Como era a plantação aqui, em Itapuã? Como era que se distribuía? O que se plantava?


R – Bom, a plantação, antigamente, aqui, que eu conheci, era mandioca, ou simplesmente, né, a batata, a abobra, ou melancia, e quiabo, maxixe, o giló, essas plantação. Não tinha esse negócio de cacau, aqui nunca teve. Nem cacau, nem café, nunca teve aqui. A plantação aqui era mandioca, pra fazer a farinha, né, o aipim também pra gente comprar pra comer, pra cozinhar pra comer, pra tomar café, e a batata doce...


P – Tinha grandes plantações, ou era mais uma coisa de fundo de quintal?


R – Não, não, não. Tinha, tinha, tinha cidadãos que tinha dez, doze tarefas ou duas tarefas, uma tarefa, meia tarefa de roça, né, que usava da roça. Tinha aqueles mais levados que tava nos quinta, que sendo que os quinta daqui era grande. Os nossos quintá nós tinha as nossas plantação de tempero. Aqui mesmo no meu quinta, que eu já tenho aqui 65 anos de posse, com a idade de 16 anos que eu comprei essa barraca, quando eu trabalhava de ajudante de pedreiro, que juntei dinheiro e comprei essa barraca na mão de uma tia minha e minha madrinha, irmã de minha mãe, por cem mirréis. Mas, a casa, tava em ruínas, sabe? Era de palha, como a casa que o marido dela fez e abriu venda para proteger um tio meu, que era casado com a irmã de minha avó, que era pescador, sabe, ele então tirou ele da pesca, ficou já velho, tirou ele da pescaria, era muito amigo, para proteger, abriu essa bibocazinha pra ele. Ele vivia aqui, dessa biboca.


P – Interessante, seu Miguel, observando aqui, o senhor falando deste lugar, parece que o sr. Gosta muito daqui desta sua casa na qual o sr. vive há muito tempo, na rua 7 de setembro, que é uma rua muito movimentada...


R – Sempre foi...


P – E a gente olha em frente da rua onde tem umas casas comerciais, um lugar de venda de móveis usados e um barzinho chamado “O cajueiro”...


R – É...


P – Eu acredito que antigamente devia ter um cajueiro aí, real, né?


R – Não, não. Cajueiro, antigamente, aqui, tinha onde hoje é Brasília [o bairro de Nova Brasília], onde hoje é Conquista [Nova Conquista], onde hoje é o Abaeté, onde hoje... chama, chama... chama Baixa de Soronha. Tudo isso aí era mato. Tudo isso era mato, era cajueiro muito aqui. A gente catava um chapéu de caju, não precisava ir longe. Aqui mesmo, quem vai pro Abaeté, aqui pertinho, onde hoje tem essas casas que já tem até armazém, padaria e tudo mais, que vai pro Abaeté, logo perto aí, tudo aí era mato. As casinhas só era mesmo aqui no...


P – E aqui em frente, por esta janela, há 65 anos atrás, o que é que se via? Qual era a vista?


R – Bom, daqui pra aí, só era mesmo o correiozinho de casas que tinha...


P – De palha?


R – De palha, tudo de palha, e só... É dum lado e outro: tudo de palha. Não tinha nada pra se ver. E o céu! Eu via a hora que a lua ia recolhendo, a hora que o sol ia recolhendo, e assim por diante. Agora a gente botava o pé na rua, ela ia desde ali quem vai pro Abaeté, lá do Alto da Cacimba. Você conhece, né?


P – Eu moro lá.


R – Dali.. é lá que o sr, mora?


P – É.


R – Dali pra lá era cajueiro, era mato. Pé de caju aí a gente tinha pra escolher.


P – Quer dizer que isso aqui era praticamente o núcleo de Itapuã, quer dizer, era o centro, onde surgiu Itapuã, era esse centro aqui. Esta rua 7 de setembro, a Genebaldo Figueiredo...


R – É...


P – São as primeiras casas...


R – É... São as primeiras casas da Rua de Itapuã, de Itapuã, a Rua Direita, essa 7 de setembro, e aquela outra, Jenipapeiro, viu, que sempre teve aquela Rua do Jenipapeiro, que hoje é... e aquela outra que vai lá pras areia, chama As Areia, é a rua que tinha.


P – A Areias, onde é? É o Abaeté, não?


R – As Areia é essa que tem aqui, onde tem a feira...


P – Sei...


R – ... dia de quinta-feira, a gente chamava Rua das Areia.


P – Tudo indica que tinha uma bica, uma fontezinha ali.


R – A fonte, lá não tinha; a fonte era aqui onde é a Cacimba.


P – Mas eu alcancei uma época que tinha uma bica alí, bem aqui nessa rua da feira, e que as pessoas, alguém me falou que havia uma fonte ali.


R – Não, fonte nunca teve. Agora, no tempo que se botou água, no governo de Antonio Balbino, se botou água encanada, viu, foi que se instalou um chafariz. A gente vai, atravessa aqui a estrada...


P – É...


R – Viu, pra ganhar um lugar onde é a feira. Ali tinha um chafariz. Ali tinha um, aqui mesmo na frente do mercado tinha outro; ali, no Largo, adiante mais, onde é o fundo, hoje, do lado da delegacia, tinha outro chafariz; ali onde é a Sereia [Estátua da Sereia], também, tinha outro. E lá no Porto de Cima, onde hoje é o [restairante] Quiosque de Janaína, acima um pouco, tinha outro chafariz. Mas era chariz de água encanada. Bica nunca teve. Agora, aqui na Cacimba, aqui na antiga Cacimba é que tinha as fonte, sabe, da Cacimba. Eram três fontes. Por isso que tem o nome Cacimba, Cacimba...

 

P – É...


R – Isso aí é tradição.


P – Mas, seu Miguel, daqui a pouco nós vamos fazer um mapeamento dessas fontes aqui, pra gente saber exatamente onde ficavam. Mas estou querendo retornar às roças, ao pessoal que cultivava. Então, esses alimentos que eram cultivados nas roças, eles eram comercializados para fora ou eram vendidos todos aqui mesmo, no bairro?


R – Não, era consumido aqui mesmo.


P – É?


R – Aqui mesmo. Que antigamente, pra gente sair daqui pra ir pra cidade, ou quwm tinha animá, pra ir com carga pra ir vender na cidade, ou, aliás, aí o caso era esse... no mais aqui era farinha, eles faziam pra vender. Forneciam e vendiam, num sabe? E, às vezes, vendiam a retalho e o aipim era consumido aqui mesmo, sabe? Eàs vezes vendiam a retalho, e o aipim era consumido aqui mesmo. Botava nas portas, nas janelas, pra vender, de forma que a vida era essa.


P – Havia uma feira, nessa época, aqui no bairro, ou se vendia apenas de porta em porta?


R – Não, nunca teve feira aqui. Nunca teve. Se vendia assim mesmo, nas janelas, nas portas, nas janelas, botava pra vender a banana, o aipim mesmo, a abóbra, se botava na janela pra vender. Agora, feira, feira mesmo, só veio ter feira depois do governo... de quem, meu Deus? De... foi de... Otávio Mangabeira, foi quem botou a primeira feira. Foi lá onde hoje é... ali, onde tinha três pés de amêndoa, tem aquele poste grande de iluminação.
Tem? Na frente do bar não tem aquela praçazinhs, aquele largo? Ali foi a primeira feira. Foi no tempo de Otávio Mangabeira.


P – Bom. E havia também os mantimentos que vinham da cidade, me parece que num saveiro...


R – Bom, antes da estrada de rodagem, os negociantes que tinha aqui iam pro comércio, comprar, trazer mercadoria, agora, tinha um cidadão num saveiro, é quem fazia a condução: pelo mar, sabe? Agora, no tempo do verão. Ia, comprava, e tá, lá ele tomava as caregas lá no cais, e tudo mais, e vinha pro mar. Quando chegava aqui, descarregava, tinha aqueles pessoa já decretado pra descarregar o saveiro e levar a mercadoria pro armazém. Quando dava o inverno, que dava um temporá, o saveiro não podia descer, então, os donos de armazém, cada quá tinha um animá, né? Então eles iam por terra, comprar no comércio. Como eu, o primeiro amigo que tinha aqui, que tinha um armazém, chamava-se Hermenegildo. Ele cansou de vir falar comigo aqui, no inverno, quando eu tava aqui. Era quando eu vinha da Armação. E a festa da Armação era no verão. E no inverno, se ficava aqui, pescando na rede. O meu pai com uma rede, o meu irmão era mestre, então, no inverno aqui a minha vida era trabalhar na rede. Meu pai me dava confiança de eu resolver a parte dele, que aí no inverno era mais isso. Então, quando dava o temporá, o saveiro não podia descer, esse meu amigo chamava-se Hermenegildo, tinha um armazém, o primeiro armazém que tinha ali onde hoje é o Posto Médico, o 7º Centro, não é o 7º Centro?


P – É, eu acho que sim.


R – Então, ali foi o primeiro armazém dele. Então ele vinha aqui falar comigo, então ele dava dois animá. E aí, eu e outro portador, agora, eu ia com a nota, pro comércio, pra fazer as compras todas, carregava no animá, vinha e trazia no animá. Mas quando dava o temporá, o saveiro não podia. Quando o mar amansava, o saveiro ia buscar a mercadoria.
P – Qual a mercadoria que se trazia da cidade para o povoado?


R – Toda mercadoria que se vende: a carne, a farinha, o feijão, o arroz, o açúcar, o café também, o milho, o sá, tudo vinha da cidade, que aqui não tinha nada disso. A cebola, o alho, tudo se comprava na cidade. O fósforo, tudo se comprava lá. Eu cansei de levar a nota, que ele me dava, eu ia comprar lá. O armazém que eu mais comprava, que ele tinha mais freguesia, conhecimento, chamava-se Armazém Amará e Cia. Era ali no Comércio; ficava bem defronte daquele prédio que tem e chama Prédio Magalhães e Cia. Não tem aquele prédio Magalhães e Cia, lá no Comércio?

 

P – Não, não conheço não...


R – Não conhece não?


P – Onde é que fica?


R – Fica ali bem drefronte à Associação Comerciá... Fica ali perto, ali, naquele trecho, ali. Não tem Associação Comerciá?


P – Onde é que o senhor fala? Onde é que fica essa Associação?

R – Lá no Comércio, na cidade...

P – Ah, não estou lembrado bem, não.

R – Então eu ia, esse armazém chamava-se Aramazém Amará e Cia. É que eu comprava (palavra ininteligível), sabe? Chegava lá, entregava a nota ao caixeiro e tal, tinha um caixeiro que chamava-se Francisco, que era muito meu conhecido, entregava a nota e me despachava. Eu carregava nos animá e ali mesmo ia-me embora. A batida era essa: agora, depois, que teve a estrada de rodagem, depois, veio a Revolução de 1930, nós tava terminando a estrada de rodagem, logo depois da estrada de rodagem apareceu este cidadão por nome Lisboa, compreendeu? E dirigia um caminhão com um dono mesmo do armazém que tinha ali, chamava-se Piu; mas o nome dele era Dionísio, tá? O nome dele não era Piu, não, era apelidado por Piu-Piu. É um dos maiores negociantes daquele tempo. É quem comprou um caminhão e deu a seu Lisboa, compreendeu? Para entregar a mercadoria da cidade. Aí, agora, já desapareceu o saveiro: nego já ia comprar...

P – Em que ano foi isso?


R – Ah! Isso aí agora é que não gravei, porque eu num tava muito bem envolvido. Foi depois da Revolução de 1930 pra cá; agora, a data que eles começaram a fazer a condução é que eu não gravei. Eu vivia mais na pescaria, né? A minha vida mais era... me preocupar mais com a pesca da armação, então num gravo muito essas coisas. Agora, sei bem, foi depois da Revolução de 1930, que nós demos a estrada pronta, foi até no inverno, no mês de outubro, pra setembro, bom, que eu tava trabalhando também na estrada, e foi que a gente começou a fazer essa condução, depois da estrada já pronta. O governador, nessa época, chamava-se Coroné Frederico Costa. Foi quem fez a primeira estrada de Itapuã, e eu trabalhei. Foi no inverno, nessa época do verão eu trabalhava na armação, pescaria de xaréu, e no inverno eu ficava aqui bongando, né? Aí achei uma vaga... o dono, o encarregado da obra da estrada era um grande amigo meu, chamava-se Leodegário e me arranjou trabalho, e eu trabalhei do princípio até o fim. Quando nós estava terminando a estrada, na semana que nós estava terminando a estrada, foi quando explodiu a Revolução de 1930.


P – Sr. Miguel, voltando ao comércio do bairro. O sr. lembra quantas casas comerciais tinha naquela época?


R – Aí agora, meu amigo...


P – Na sua juventude, mais ou menos...

R – Não, não, agora vou dizer a que eu tenho bem ci~encia, a primeira, chamava-se Dionísio Costa. Não, a primeira era do meu pai.
P – Era um armazém...


R – Era um armazém, um armazém e loja.


P – Foi o primeiro armazém de Itapuã?


R – Foi o primeiro. É onde hoje é o Ponto feliz, é aquele prédio ali mesmo. Não tem ali um prédio Ponto Feliz?


P – Sim...


R – Ali que foi feita a casa dele, era a casa dele: meu pai.


P – Qual era o nome do seu pai?


R – Chamava-se Gervásio. Gervásio Antônio da Costa. Então, ele tinha armazém e loja e tinha uma canoa de pesca, num sabe? Que o filho dele, o meu irmão mais velho é que tomava conta, e tinha um barco também, de pescaria.


P – Ele era o delegado também, me parece...


R – É, ele foi delegado, e ele era político. Eu que nunca me meti nisso, nuca gostei. Ele era político e era um grande político de Itapuã, e chegou a ser delegado aqui por quase vinte anos. Entrava governador, saía governador, e ele sempre delegado. Que era um homem muito educado: agora, ele era preto. A raça do africano, mas era um, era um sujeito que tinha uma educação fina. Então, as autoridades, os delegados, os prefeitos, os governador, os que vinha e tá, aí, nomeava ele já passando de um governo para o outro. Logo, ele foi delegado aqui muitos anos.


P – Sei... E quando foi criado o armazém?


R – Foi quando eu me entendi, compreendeu? Quando eu me entendi. Primeiro armazém: aquele; o segundo, este que chamava-se Dionísio, que deu o caminhão pra Lisboa.


P – Ficava onde, esse?


R – Ficava onde hoje é o... onde é um armazém aí na rua Direita. Ali é que era a casa... onde é hoje o armazém de um que se chama Arnaldo, português. Ali que sempre foi o armazém do Dionísio, que depois vendeu pro Arnaldo. E, terceiro; um lá no Porto de Cima, chamava-se Ogeno Carrascosa. Quarto: um que chamava-se Aflijos, e quinto; lá no Porto de Cima, um chamava-se Querano. O sexto, um chamava, chamava, me esqueci até o nome dele agora. Me esqueci agora da memória. Pois são; é os armazém. Os antigo armazém. Agora, e aqui mesmo na Rua Direita tinha o meu pai, tinha esse Dionísio, e tinha um por nome Firmino, onde hoje é o... hoje tem um, um... já tem formava aquele... aquele clube dos Corva, aquele terreno ali. Aquele pertencia a esse que chamava-se Firmino. Esse tinha armazém ali. São os antigos negociantes e outro, esse meu amigo que chamava-se Hermenegildo. Esses foi um dos primeiros negociantes de Itapuã, que tinha armazém. Depois foi chegando uma porção aí... vou contando aí...


P – E o mercado propriamente dito? Este foi o primeiro? Esse Mercado Municipal que...


R – É, este foi o primeiro. Nunca teve dois.


P – Antes dele só havia a feira livre, né?


R – É, só tinha a feira. Depois da feira foi que fizeram esse mercado aí.


P – O sr. lembra a data em que ele foi construído?


R – Agora, não me lembro a data não, que... aí a coisa...


P – Foi nos anos 50?


R – Foi mais ou menos isso, que isso aí foi projeto do Dr. Otávio Mangabeira. Agora, quem fez aí, acho que foi o... eu não me lembro bem. Foi no governo de Antônio Balbino. Já foi o projeto que Mangabeira deixou, esse mercado daí. Agora, depois desse mercado, quando veio... governou Antonio Balbino, depois veio Juracy [Magalhães], depois de Juracy veio Lomanto [Jr.], então Lomanto botou, abriu a feira, ali mesmo naquele largo. Depois passou pro lado de lá, sabe? Em vez de vir pro lado de cá, passou pro lado de lá da estrada. Começava pela estrada velho, chamava-se feira de Lomanto, era dia de quinta-feira. Essa feira ficou até hoje, e agora eles mudaram praquela rua lá, chamada rua das Areias. Essa foi Lomanto quem botou. Depois, essa daqui foi aumentando depois, botaram aqui na rua do mercado, e aí ficou.


P – Sr. Miguel, agora voltando à sua história pessoal, mesmo, o sr. me disse que aos 16 anos de idade tinha saído de Itapuã pra trabalhar como ajudante de pedreiro. E, mais adiante, o sr. falou sobre o seu trabalho já na pescaria aqui em Itapuã. Como é que se deu essa mudança? O sr. foi, não deu certo, voltou depois?


R – Não, agora foi bom que eu trapassei. Agora é o seguinte: eu quando saí daqui pra trabalhar, na idade de 16 anos, o único trabalho que eu achei foi exatamente de ajudante de pedreiro. Então, com esse trabalho de ajudante de pedreiro eu ajuntei um dinheiro e comprei essa barraca. Foi exatamente conforme já expliquei, essa barraca era dum tio meu e de uma tia min ha. Esse tio morava com a minha tia, a tia Regina, minha madrinha. Era filho do Coroné Frederico Costa, que foi governador da Bahia. É quem tomava conta desse terreno, ele é quem tomava conta, esse filho dele é quem tomava conta desse terreno que hoje pertence à família dos Visco. Então, esta casa, ele morreu, José Frederico Costa morreu, marido dela, e um cidadão chamado seu Onoro que ele abriu a feira, fez a casa e abriu o armazém, também morreu, e a casa ficou, a biboca ficou abandonada. De forma que tinha aqui três portas: duas de frente e uma aqui de lado. Por tudo ficar assim abandonado, eu então falei, um dia que eu vim em Itapuã, daqui eu falei com ela. Fui lá, ela morava lá em cima, numa casa lá no arto, ficava bem defronte da vila, um chalé grande, não sei se já jogaram no chão. Fica bem defronte à Vila dos Sargentos, lá perto. Você já viu aquela casa?


P – Não.


R – É lá que ela morava... É lá que o filho do Coroné Frederico morava: o dono da terra. Aí eu fui lá. Um dia de domingo, fui lá, falei com ela. Tomei a bença a ela, que tinha costume, todo domingo toma a bença, e falei com ela pra comprar essa casa. Aí nós ajustamos, ficou a casa por 100 mirréis. A casa tava em ruínas. Tava precisando de cobrir, era de palha, as paredes era de sopapo, algumas coisas aqui.

FIM DA PRIMEIRA ETAPA