NOTAS DE CAMPO GRANDE A MARAJÓ

CAMPO GRANDE, 10.02.80

         Estou neste exato momento sentado a uma mesa numa sorveteria, La Bambina, bebendo água mineral. Chove, ouço o apito do trem que, creio, vai a Ponta Porã, a terra dos bandidos. F, sentada a uma outra mesa lê O Movimento. A e L estão num barzinho, o Tip-Dog, aqui ao lado, tomando uma cerveja.
         Faz hoje três dias que chegamos aqui na capital do Mato Grosso do Sul, vindos de carona de Rondonópolis onde nos desligamos, na noite de quinta-feira, do restante da equipe.
         Como é o destino: estávamos de partida para Cuiabá, na quinta, quando conhecemos um rapaz, o Luiz Henrique, que nos deu a dica de um avião da FAB, que sairá amanhã, dia 11, para Porto Velho. A decisão foi imediata: A, F e o cara pegaram a carona de um carro particular e eu e L viemos de caminhão com o Toninho, um paulista de Presidente Prudente, que vinha acompanhando o Bira, outro camioneiro que vinha em outro caminhão. Ambos carregados de arroz.
         Aqui visitamos um pessoal amigo de F, o Tenente Coronel Hélio, um militar resmungão; a dona Lucília, uma mulher altamente fresca e antipática e Helinho, filhinho de papai que no fundo é um cara legal.
         Já rodamos um bocado por Campo Grande. Ontem saímos de carro com o Helinho. Fomos ao restaurante Ponteio onde comemos uma deliciosa ponta de costela. Depois conhecemos o Alípio, um camioneiro violonista, figura típica do Centro-Sul, que A e F já conheciam quando vieram para Campo Grande.
         Estávamos hospedados num pequeno hotel, o Caçula, curtindo uma de casados. Já rodamos no cerrado, na cidade. Agora estamos na espera do avião da FAB. Se não der certo iremos a Corumbá de trem.

11.02.80

         5h10 da madrugada de segunda-feira, 11 de fevereiro de 1980. Cá estou novamente sobrevoando o Mato Grosso, só que desta vez num “Búfalo” rumo a Manaus. O dia nasce para nós (eu, L, A e F) entre bagagens e bugigangas. Estamos sentados no corredor do avião, entre os bancos paralelos, uns em frente dos outros. 22 passageiros, entre crianças, mulheres, civis e militares. Todos calados, esperando. Balanços, solavancos, vácuo, o barulho do motor castigando os ouvidos. Um pouco de frio. L folheia um livrinho: “Anos 70 I – Música Popular”. Pela janelinha, às minhas costas, vejo com dificuldade o dia que se inicia: um azul mesclado de verde e branco numa miscelânea de cores que não nos permite ver com clareza o que é o céu, as nuvens, o solo. Assim vamos indo – não sabemos se para Porto velho ou Manaus. 4 a 6 horas de viagem. Atrás ficou o MS, o Pantanal, Corumbá, Ponta Porã, terra de bandidos. Alípio, o bandido catingueiro, as sucuris gigantes. Até breve. Outras emoções nos aguardam. Breve voltaremos, se deus quiser.
         (...) Sobrevoamos agora o famoso Pantanal Matogrossense, a maior reserva natural do mundo. Lá embaixo os terrenos alagadiços entrecortados de estradas. Um pouco mais acima um imenso tapete de nuvens que se perde entre os primeiros raios de sol desta linda manhã.

12.02.80 – Amazonas

         Amazonas. Cá estamos no Solimões, vindos de Porto velho, rumo a Manaus. Eu, L, A, F, Paulo e Jorge, que conhecemos no avião da FAB e com os quais ficamos o dia de ontem na capital de Rondônia, terra quente sem pai nem mãe. Jorge, cuiabano, estudante de engenharia civil, que mora em Manaus, levou-nos todos com ele à casa de Hélder, um agitado rondoniense que nos recebeu, juntamente com sua família, muito bem. Mas, apesar da recepção, a cidade não nos mostrou nenhum atrativo. Apenas calor e barro. Resultado: viajamos ontem mesmo, de ônibus, para Manaus. Saímos às 20 horas e aqui estamos. São 14h20. Depois de atravessarmos quatro balsas, passando pelos rios Madeira, Igapoaçú, Castanho e Araçá, chegamos enfim ao Solimões. Vamos passr agora no encontro das águas deste com o Negro (...). daqui da barca, que transporta, além do ônibus que viajamos, carros particulares e caminhões carregados de gado, avistamos a cidade industrial e as florestas que ladeiam agora o rio Negro, que é realmente negro.

13.02.80 – Manaus.

19.02.80

Contornamos agora a Ilha de Marajó. Logo mais chegaremos a Belém. Um bando de gaivotas segue o navio, entrecruzando-se em vôos rápidos e desconcertantes. Vez por outra mergulham no rio em busca de peixes.
Ontem à tardinha fizemos o percurso mais bonito da viagem, quando cruzamos o estreito da Ilha Grande de Gurupá e das diversas ilhotas que se situam um pouco além de Marajó. Ali realmente vi imensas florestas que em quase todo o seu percurso inclinavam-se sobre pequenos casebres dos quais saíam dezenas e dezenas de canoas transportando mulheres e crianças que vindas ao encontro do navio equilibravam-se nas pequenas ondas criadas pelo mesmo. Pessoas jogavam embrulhos com roupas, chinelos, biscoitos, tudo que vinha à frente.
Assim, diante do belo pôr-do-sol do rio Amazonas, instalado numa rede no teto do navio onde estou agora e que é exclusivo da primeira classe fico batendo papo com L. Estivemos prestes a dar um tempo no relacionamento. Bastava uma palavra. Entretanto, ali, naquele momento, senti a importância e o valor que ela tem e cheguei mesmo a chorar. Percebi que ela não merecia que eu a magoasse, como fiz. Mas fizemos as pazes de maneira que o carinho voltou redobrado. Nessa noite curtimos muito um ao outro.
Últimas escalas do navio: Monte Alegre, Almeirin e Breves.

Sexta – 22.02.80

Belém-Marajó. Promovidos para a classe turística viajamos no navio Fortaleza. Conosco mais um amigo: Erasmo, filho de dona Vitória, irmão de Beth, Conceição e Sônia, as conhecidas de A e Cajá de uma das saídas deles para providenciar materiais para a futura (agora passada) praça Raimunda Pedro, de Bonito. São agora 22h40. A Baía de Guajará parece estar mais calma apesar da chuva, do que quando a atravessamos há pouco mais de um ano a bordo do Barão de Goré. Deveremos chegar a Soure por volta da meia noite. Quem diria? Tão breve o retorno ao paraíso! O imenso mar-rio, o pântano, a floresta, as gaivotas – Avante, Che Guevara! Ah, Geraldo, queria tê-lo comigo nessa volta, caro companheiro de aventuras e desventuras. Lá está a sucuri, o jacaré ou a ariranha que o mordeu. Pois é. Mas, por enquanto, apenas a expectativa. Soure, Ararauna, a vasta praia de Mata-Fome dentro de um novo contexto. Novas companhias, nova condição, novos anseios – temos até um violão!
É isso aí. O Fortaleza, poucos passageiros, caras de sono, o frio, a chuva fina. O barulho do motor. Algumas pessoas conversam. Jovens, velhos, crianças. Um som instalado no navio, um barulho ininterrupto, as redes balançam com o vento. Atrás Belém, dois dias de estadia. Amigos: Rufino, Júnior, dona Vitória, Erasmo, Beth, Conceição, minha querida tia Joana. No (palavra ilegível) ao bosque, as voltas pela cidade, a ida ao cinema 1 onde revi Pecado na sacristia, de Miguel Borges, o sambinha de ontem à noite, com violão cavaquinho e timbau e escambaus; farofa de ovo e vinho.
Aguardamos, então. Uma hora mais e chegaremos à ilha dos sonhos e dos prazeres.

Sábado – 23.02.80

Inacreditável! Araruna acabou! O mar derrubou as casas, dona Isabel mudou-se para Belém, não existe mais o armazém (apenas um resto de provisões), o macaco da noite, acabou-se o carimbó, o povoado que fez parte de um momento que me foi como um sonho. Do pessoal que conheci só resta o velho Fernando com o qual bati um longo papo e dona Darcy que ainda não cheguei a ver.
         Ainda não me refiz do choque. Procuro razões – a natureza indócil, selvagem, a devastação das florestas, o desequilíbrio ecológico. Senti, de início, raiva, depois melancolia, cheguei a chorar. Mas o povo daqui não chora, enfrenta a situação. O que é que há? De que adianta chorar? O fato é que o mar, como nunca antes na história deste povoado, devido às fortes chuvas que caíram sobre o estado do Pará, inclusive derrubando pontes, ilhando cidades, alagando estradas, ficou revolto e numa cheia violenta derrubou as casas de Araruna. O povo agora se mudou para Soure, Belém. É o fim?
         Chegamos em Soure ontem por volta de meia noite. Depois de muitos acertos dormimos na mesma pensão em que fiquei com Geraldo e Aquino na vez anterior. Hoje de manhã, logo após o café, viemos de táxi – uma rural caindo aos pedaços – até a ponte que agora está bem melhorada. Novamente senti as emoções de entrar pela mata, pelo pântano, atravessar o igarapé, ganhar a praia e chegar aqui, no paraíso, a tempo de ver o seu fim. Levamos então um samba chorinho sustentado pelo A mano véi durante mais de uma hora seguida.
         Passaremos o resto do dia hoje aqui alojados no ex-armazém de dona Isabel. A maloca já não mais existe. Amanhã seguiremos viagem.
         Obs: F está namorando Erasmo. Chato. A parece estar meio deslocado. Não entendo mais nada.

Segunda – 25.02.80

A Araruna que conheci – esta que agora parece chegar ao fim – é a terceira construída. Antes houve duas que o mar levou. Todos os três povoados chamaram-se Araruna, sendo que este último foi denominado inicialmente de Brasília por ter sido construído na mesma época da capital do Brasil. Mas o nome Araruna continuou devido ao costume do povo de assim chamá-la.
Agora não há mais para onde transferir o povoado. Algumas pessoas, entretanto, resistem, e ficam, e constroem novos barracos, mesmo sabendo que o mar invade cada dia mais, e que, mais cedo ou mais tarde, a alternativa será a que já foi para muitos: Soure ou Belém.
Obs: As informações me foram dadas pelo pescador João, o mais antigo morador do local.

Decepção: fui à praia de Mata-fome com L e a vi totalmente modificada. Nada de gaivotas, igarapés. Tudo mudado. Muita gente, um barzinho montado, cinco caixas de som, uma barulheira infernal. No mais, muita chuva e um romance muito gostoso, com lances inesquecíveis, chegando ao fim.

De volta ao navio Fortaleza, deixando para trás a Marajó que em outra ocasião tanto me empolgou, vi a noite chegar e a lua, também, timidamente iluminando a baía de Guajará – o cenário para uma longa conversa que culminou com o término do meu namoro com L. Quem terminou foi ela. Uma atitude madura e corajosa, digna de uma MULHER. Eu não queria que fosse ali que terminasse tudo, mas, agora que está feito, vejo que foi a melhor solução. Nada que eu escreva aqui exprimirá o que foi uma convivência constante, dia e noite, durante quase dois meses, nas mais diversas circunstâncias. De tudo isto, guardo um grande carinho e respeito. Infelizmente – ou felizmente, não sei! – só não posso dizer que a (...) hoje é um novo dia e o que eu realmente desejo é que L, minha querida “Caxinguelê”, seja muito, muito feliz. Que ela supere todas as dificuldades que não conseguimos superar juntos.

São por volta das 9 horas de terça-feira, dia 26. Estou na sala da casa de Júnior onde dormi esta noite juntamente com A. Marajó volta de novo à lembrança, só que uma nova imagem e com um melancólico gosto de fim.

Obs: Ainda não falei sobre o festival de calamidades que assola este “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”: chuvas incessantes na Bahia, em Minas, Goiás, Mato Grosso e Pará. Enchentes em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, Marabá, Tucuruí, Jacundá e Itupiranga, no Pará e mais 22 municípios em Goiás e Mato Grosso. A rodovia Belém-Brasília, segundo consta no jornal O Liberal, de Belém de ontem, está intransitável. Ligue-se isso tudo e mais Marajó e Araruna aos desmatamentos e já teremos os indícios das terríveis calamidades que estão por vir. Tristes horizontes.

(...)

E mais: saíram no Jornal Nacional notícias sobre a enchente no Araguaia – tristes notícias: São Félix está totalmente inundada e Barra do Garças parcialmente. É possível até que Torixoréu tenha sido também afetada. Acredito que se realmente São Félix foi assim atingida, Santa Isabel, Fontoura e Tapirapé també devem ter sido.

 

Terça – 26.02.80

Novos papos: L retrocedeu um pouco na atitude que tomou. Não há nada de definitivo. Continuamos íntimos, apesar de não termos certas obrigações que tínhamos antes um com o outro. Ontem, numa reuniãozinha promovida por Erasmo, Beth e Conceição, sendo que esta última nem apareceu por lá, na pracinha próximo ao Ver o Peso, onde curtimos um som no violão e uma “birinaites” acompanhadas de tira-gostos, tivemos, eu e L, uma longa conversa na qual ela variava de uma certa sensação de autonomia (de “ser mais ela”) até certos repentes de agressividade, de mágoa para comigo. Mas no fim das contas continuamos bem. Hoje viajaremos para Fortaleza e de lá para Natal. Deveremos ir somente nós dois, haja vista que F e A provavelmente seguirão para Salvador. 

A está mais enrolado do que nunca. Sem dinheiro, acumula mais dívidas tomando emprestado de um e de outro. Não mudou nada, é o mesmo A enrolado de sempre. Como a viagem já está chegando ao final, a responsabilidade dos compromissos que ele tomou em Salvador começam a preocupá-lo.

Último dia da estadia em Belém. Já comprei as passagens para hoje, às 21 horas. Fui também à casa de Makiko que estava de saída para o interior do Pará. Pouco deu para conversarmos. Agora, neste momento, estou na sala de Dona Joana. Meio dia. À tarde, provavelmente irei ao Bosque. Depois é só aguardar e partir para a última etapa dessa jornada. Natal... a dois.