CALABOUÇOS E DESVÃOS

 

Muitos anos se passaram. O filho cresceu, outros problemas, até mais graves, vieram. Mas Alberto tinha essa imensa qualidade de driblar tudo aquilo que poderia fazê-lo infeliz. Aliás, se havia uma determinação nele, era certamente esta: a de que nada nem ninguém tinha o direito de sacrificar-lhe a felicidade. Era, claro, uma felicidade triste, melancólica, repleta de calabouços e desvãos, como um castelo medieval. Mas talvez fosse este mesmo o motivo de prezá-la tanto. Seu espírito anguloso fizera-o, desde cedo, amar tudo o que, de certa forma, negava a si próprio. Não suportaria uma felicidade plena – como um campo iluminado pelo sol, sem mistérios e reentrâncias. Sua felicidade, portanto, semelhava-se mais a um vale coberto de sombras, que se projetavam de imensos rochedos, perdendo-se em socalcos cada vez mais profundos. E sobre tudo aquela neblina, e a chuva fina, que caía dum céu azul-cinza, pincelado por nuvens frágeis carregadas pelo vento incessante. Era nessa passagem que ele estava, tal como um lobo solitário, mesmo depois de tantos anos vivendo ao lado de Judite, que amava o sol e o calor. Daí, talvez, a dificuldade que ela tinha de entendê-lo. Talvez a assustasse um tanto não o possuir plenamente, não o poder penetrar, com seu olhar, por todos os ângulos. Casar com ela foi, talvez, um esforço para manter-se na superfície. Mas agora, tal como no “chamado da selva”, de London, ele se via compelido a descer, mais e mais, aos seus próprios subterrâneos.