A "CIGANA HÚNGARA"

 

Uma outra espécie de medo começou a afligir Alberto. O que ele mais temia, agora, não era que ele se tornasse irreal; mas que isto pudesse acontecer com Judite e seus filhos. Sentia uma culpa antecipada pela possibilidade absurda de fazê-los desaparecer. De olhos fechados, sentado num banco, com a cabeça encostada numa árvore, no jardim, ele conseguia, sem maiores esforços (o que lhe trazia algum alívio), ver, em sua mente, a imagem de Judite: o rosto retangular com traços fortes; os cabelos pretos cacheados, com mechas caídas na testa e sobre os ombros; a testa ampla, os olhos grandes e cinzentos, os lábios nem finos nem grossos, mas surpreendentemente nítidos, como se fossem riscados numa folha de papel com um lápis de desenho; o pescoço fino, mas vigoroso; o colo generoso com seios rijos geralmente cobertos por um tecido leve; os braços femininos mas cujo vigor era evidente (não à toa, ela havia sido campeã de tênis no colégio) também no corpo torneado; as pernas firmes, longilíneas, às quais não faltavam força e agilidade. Acrescente-se a isto o cheiro adocicado de almíscar do seu perfume favorito, que a precedia em todos os seus passos, e a admirável combinação de energia e feminilidade, o seu dinamismo, o senso prático, a lucidez, não sem alguma pitada de autoritarismo que a fazia, às vezes, não somente respeitada, mas temida. Era, de fato, pensou Alberto, uma mulher admirável, uma mulher a quem amava e com a qual, apesar de freqüentes incompreensões dela, relacionadas ao seu jeito, digamos, excessivamente abstrato, pretendia viver o resto de sua vida. Conhecera-a num desses golpes de sorte, há cerca de vinte e um anos, quando, ao entrar numa lanchonete, em Amaralina, a vira sentada a um canto. Ele ficou impressionado com a aparência cigana da mulher, o que o levou perguntar se ela tinha antepassados na Hungria. Talvez pela estranheza da pergunta, talvez pela gostosura do suco de goiaba, que ela tomava, o fato é que ela, muito séria, de repente se naturalizou e, como se falasse com um velho amigo, sorriu e perguntou: mas por que Hungria? Não sei nada desse país! E Alberto, que já recebera um copaço, de 500 ml, de suco de graviola, esclareceu que não falara à toa daquele país, mas que houvera lá, segundo lera num livro, um contingente muito grande de ciganos, posteriormente perseguidos, coitados, pelos exércitos nazistas. Bem..., não queria falar naquelas coisas tão desagradáveis, mas as palavras são assim, a gente começa a dizê-las e elas logo vão ganhando caminhos próprios, fugindo ao nosso controle, você sabe como é, não? Ela riu e disse que não achava nada demais falar sobre nazistas, aliás, era necessário mesmo que os tivéssemos bem vivos na memória, mas a verdade era que o suco de goiaba combinava com outros assuntos mais amenos – e quando ela falava assim eles já haviam saído juntos da lanchonete e caminhavam em direção ao largo das baianas.

            Não se sabe por que, achou que ela apreciava temas mitológicos e encaminhou a conversa para esse lado. Depois falou que a achava uma mulher muito charmosa. Sim, esta é a palavra adequada, observou Alberto, mas a conversa não rendeu muito mais. Ela chegou a lhe dar o número do telefone, disse que morava no Costa Azul. Ele ficou as duas semanas seguintes pensando em ligar, mas, por alguma estranha razão, sentiu um vago receio, você sabe, ele tinha pouco menos de vinte e sete anos e, naquela época, prezava imensamente a sua liberdade, alguma coisa dizia-lhe que aquela mulher poderia enfeitiçá-lo e fingiu esquecer-se dela, até que, alguns meses depois, a encontrou sentada numa pedra no Jardim de Alá, num final de tarde, apreciando o pôr do sol. Alberto ficou impressionado com o reflexo suave da luz amarela nos cabelos dela – iguaizinhos ao de uma nuvem esgarçada, que se estirava, quase imperceptível, por trás de outras que pareciam labaredas de fogo, fortemente contrastadas com o céu que descambava do azul para um cinza misterioso que lhe trazia não sabia que estranha reminiscência da infância. Havia ainda uma menina que brincava com um cãozinho poodle, no gramado; os coqueiros delgados sacudidos pelo vento fresco; os arrecifes longe e ali, bem perto dele, o sorriso de Judite que, visto de um certo ângulo, revelava um traço no rosto e um jeito de sorrir que lhe despertava uma certa beleza adormecida, dessas que nos são muito caras e das quais não queremos nunca  mais nos apartar. Vieram frases soltas, risos e a noite; vieram passos, as lâmpadas dos postes, sombras e uma infinidade de manchas escuras, e o receio de não sabiam o quê, que os levou a se darem as mãos e a correrem, rindo para disfarçar, até a calçada. Ela, num impulso do qual já ia se arrependendo, convidou-o para tomar um café no Chalézinho, que fica em frente ao coqueiral, no que ele se apressou em aceitar, antes que sentisse um aperto no coração – e se esqueceram do tempo, até que ela disse que precisava ir. Alberto ofereceu-se para levá-la em casa, mas não insistiu quando ela disse que preferia ir sozinha, mas que a procurasse no dia seguinte, falou num impulso do qual já ia mais uma vez se arrependendo, quando ele propôs que fossem ao cinema, no dia seguinte, assistir a Os incompreendidos, que estava passando no cine Art I, no Politeama. Foram a um, dois, três, dez filmes, jantaram em restaurantes, discorreram sobre suas reminiscências, reviraram, pouco a pouco, seus baús, remexeram nos seus papéis velhos da memória, contaram casos engraçados, inventariaram perdas, lembraram de cenas desvanecidas que logo recuperaram seus contornos, falaram mal do governo, levantaram bandeiras, lideraram passeatas, sentaram numa pedra, no meio do mar, da qual podiam ver, no horizonte esfumaçado, as baleias que migram anualmente dos gelados mares antárticos, beijaram-se, pela primeira vez, num banco qualquer de uma praça, diante de uma fonte de pedra, atravessaram ruas de mãos dadas, contaram casos para distrair, meteram-se sozinhos no quarto de Alberto, do qual podiam ouvir o diz-que-diz-que macio que brota dos coqueirais, e ali, numa noite fria, tiraram suas roupas e se acariciaram e se beijaram e, longe de qualquer olhar intruso, deixaram-se abandonar a si mesmos, e gozaram intensamente. Alberto lembrou que aquilo foi o que temera, quando, na casa de sucos, tomara o número do telefone dela; por isso mesmo não quisera ligar. Eis ali a cigana com seu sortilégio. E teve vontade de dizer que não queria mais vê-la, mas lá estava, grudada nele, a sensação de aconchego (se a noite pelo menos não estivesse tão fria) que o chamaria, nos dias seguintes, e nos outros, e nos outros, até que ela engravidou, e ele quis, bem dentro dele, fugir, dizer-lhe que assumiria o filho, mas que em sua vida não havia lugar ainda para uma relação, mas lá estava ele, mais uma vez, caminhando pelas ruas das tardes frias com as mãos nos bolsos do casaco, pensando que ainda havia muitas coisas na vida para fazer antes que se comprometesse definitivamente com uma mulher – e no fundo de sua alma passara aquele desejo obscuro de que seria melhor se tudo fosse um engano, que ela fechasse o portão antes de sair definitivamente da sua vida; que o liberasse daquele fardo que antevia, mas nada disso falou quando ela lhe confirmou à noite que estava mesmo grávida e que eles tinham que decidir juntos o que fazer. Já falara com os irmãos, com uma amiga, com um velho amigo de infância, mas que de nada adiantara, pois as reações e os conselhos foram os mais diversos e contraditórios. Um dos seus irmãos a olhara gravemente e lhe advertira que ter mais um filho não seria fácil, que ela não tinha garantias de que ele assumiria a relação, que devia ser racional e pensar friamente; outro a abraçara, com entusiasmo, quando soube da “notícia extraordinária”; uma amiga colocara-se à disposição para acompanhá-la a uma clínica, se assim ela quisesse; outro comprara uma garrafa de vinho para comemorar – e lá estava ela, diante dele, olhando para Alberto. Esperando. Como ele gostaria de mostrar entusiasmo, de abraçá-la, com alegria, mas ele era um homem sincero e, para falar a verdade, não apreciava esses extravasamentos emocionais. Tinha que analisar as coisas friamente, entende? Mas, claro, não havia dúvidas de que aceitaria a criança, jamais pensaria em abortá-la, isto estava fora de cogitação. Mas isto não significava que precisassem ficar juntos.

            Despediram-se friamente. Aquela noite lhe pareceu muito mais fria.
Mas vieram outras. Alberto não se decidira, intimamente, se a queria ou não, se a queria com o filho, se a queria com suas explosões, com suas definições – de indefinições bastavam as dele. Havia-lhe dito que tinha outra mulher em sua vida, mas que não era bem assim, não o entendesse mal, por favor, que apenas não se livrara completamente de um envolvimento anterior. Para começar uma nova vida, com filho, mulher e o que mais era necessário que saldasse a dívida com o seu passado. Mas não falou nada disso, porque odiava lugares comuns e meias verdades, de forma que foram empurrando as coisas com a barriga – a dela já um tanto avantajada. E Alberto foi, pouco a pouco, se acostumando com os novos rumos que a sua vida tomava. Ele que sempre lavantara bem alto a bandeira azul da liberdade, levou ainda um tempo cultivando jeitos bruscos e poucas palavras, para deixar bem claro que não precisava dar satisfações a ninguém, e uma certa superioridade intelectual que, como percebeu mais tarde, traía-lhe apenas uma certa pobreza de espírito. Vieram uma, duas, três mil brigas, até que, ainda morando separados, ele acordou certa manhã de abril com alguém chamando-o no portão, dizendo-lhe que seu filho estava para nascer. Ele ainda morava em Itapuã, com seu fogão velho, com sua geladeira enferrujada, com sua rede no quarto dos fundos e um colchão velho no quarto da frente e uma pequena vitrola, além, é claro, dos livros e de um profundo silêncio quebrado apenas pelo vento nos coqueiros e uma música longínqua nos bares. Vestiu rápido uma camiseta, a calça jeans, sandálias de couro e saiu à toda para o ponto de ônibus. Chegou quarenta minutos depois ao apartamento onde o médico iniciava o trabalho de parto. Tirou umas fotos, viu a criança rompendo as carnes em meio ao sangue – e compreendeu, finalmente, por que a cigana húngara o havia enfeitiçado.