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ABISMO

Romance. São Paulo: Geração Editorial, 2004
222 páginas,
R$ 29,00
Tel: (11) 3872-0984
geracao.imprensa@terra.com.br

Trecho:

9. Descendo o abismo

    Caminhamos durante todo o dia. Para reduzir o trabalho estafante de abrir picadas, procuramos, sempre que possível, seguir pelo leito pedregoso dos pequenos regatos que, com toda certeza, buscavam também a borda do cânion, onde se precipitariam no vazio. Mas nem sempre isso era possível: havia remansos enlameados e longos trechos em que os troncos caídos e o emaranhado de cipós com o mato fechado das margens nos obrigavam a voltar para a terra seca e usar nossos facões. Quando en­contrávamos alguma elevação do terreno ou alguma proeminência rochosa, podíamos vislumbrar paisagens grandiosas que nos despertavam um misto de fas­cínio e medo.

     A sensação inquietante do gigantismo de tudo que havia em torno não tinha desapa­recido. Pelo contrário. Surpreendia-nos que as dimensões das coisas – rochas, árvo­res, folhas e alguns exemplares da fauna – aumentassem gradualmente de tamanho, como se estivéssemos penetrando cada vez mais profundamente num outro mundo, habitado por gigantes. Tentei me convencer de que se tratava de alguma ilusão de ótica, decorrente da pouca disponibilidade de objetos familiares que servissem como escala de referência. Ou que aquela mudança era fruto da nossa imaginação, exacer­bada por tudo que tinha acontecido, e pelos assuntos que falamos.

     Luís acreditava firmemente na hipótese de que estivéssemos com alguma forma de alucinação provocada pela droga, que teria sido colocada na nossa comida, enquanto eu duvidava dessa possibilidade. Mas, fosse a droga ou qualquer outro agente, o fato é que nos víamos penetrando num universo onírico, de leis imprevisíveis e inespera­das. A certa altura da nossa marcha, quando as árvores, que se adensavam numa massa escura e quase impenetrável, ganharam uma dimensão quase que ciclópica, Luís alertou-me para prestar atenção nos animais.

     - Por quê?

     - O tamanho! Veja o tamanho fantástico destas formigas!

     Olhei algumas formigas que seguiam em fila indiana, carregando folhas e gravetos. Eram grandes, mesmo! Mas eu não queria admitir.

     - Não há nada de estranho no tamanho destas formigas! Trata-se de al­guma uma espécie nativa da região, e esse deve ser o tamanho natural delas.

     Eu começava a sentir uma transformação preocupante no estado psicológico do meu companheiro e, temendo a deflagração de um medo paranóico, cujas consequências seriam imprevisíveis, procurei uma forma de acalmá-lo.

     Olhei o chão da floresta, à nossa volta, esquadrinhando-o com o olhar, até que vi um pequeno besouro, semi-oculto em meio às folhas secas. Ele era normal!

     Mostrei-o a Luís.

     - Veja! Não há nada de estranho com o tamanho deste besouro!

     Examinou-o cuidadosamente, e exclamou, visivelmente aliviado.

     - Agradeça a Deus por isto!

      Olhei-o com surpresa, sem entender o que se passava.

     - Você não percebe? O tamanho normal deste animal significa que a droga ainda não fez efeito completamente sobre nós. Ainda não perdemos contato com a realidade!

     Estranhei que falasse assim. Durante todo o dia, eu vinha fazendo um esforço para me ajustar a esse lugar fantástico em que estávamos metidos. Para mim, a realidade passava a ser aquele mundo extraordinário que tínhamos agora diante dos nossos olhos. Sentia-me como se tivessem tirado um véu, para podermos ver novamente uma paisagem e a natureza que sempre estiveram ali, mas que, por força dos nossos condicionamentos e distorções, perdêramos a noção de como apreciar, em sua verda­deira escala e intensidade. Aquela paisagem, que tínhamos diante dos nossos olhos, era a mesma que esquecêramos um dia, em algum lugar, trazendo desde então em nosso sentimento essa nostalgia profunda e, às vezes, intolerável.

     Agora – somente agora – eu começava a perceber que aquela realidade correspondia a uma necessidade íntima de mim. Que me importava, se algum inseto permanecia na sua dimensão mesquinha e insignificante, quando tudo o mais tornava-se grandi­oso? E não seria melhor mesmo que ele acompanhasse o curso normal das coisas e crescesse? Como não seria aquela paisagem habitada por seres realmente gigantescos e poderosos?
    
- Não! – disse subitamente Luís, arrancando-me das minhas divagações. – Você não pode pensar assim! O que você pensa que aconteceria conosco se essas formigas, ou aquele lagarto, ou aquele marimbondo ficassem maiores que nós?

     Falei com um sentimento agudo de preocupação:

     - Então você acredita mesmo que esses animais possam realmente crescer assim, sem mais nem menos, diante dos nossos olhos?

     - Mas você estava pensando nisto!

     - Não! Eu estava apenas sonhando! Sempre fui vulnerável a esses acessos imaginati­vos, mas mesmo com toda a minha mente flexível, nunca pensei seriamente que es­ses prodígios pudessem acontecer diante dos meus olhos! E por que diabo você está adivinhando agora os meus pensamentos!?

     Luís suspirou, recostando-se numa pedra.

     - Você não entende. O que realmente importa não é o que acontece diante dos nossos olhos, e sim o que se passa atrás deles.

     Passou-me pela cabeça uma vaga recordação de já ter usado, alguma vez, essas mesmas palavras. Senti que ele estava muito inquieto e questionei-me, mais uma vez, se deveria tê-lo trazido comigo. Eu quebrara a regra número um daquela jor­nada e não estava certo de ter interpretado corretamente os sinais que a realidade objetiva estava me dando. Vinha-me a desagradável sensação de ter tomado nas mi­nhas mãos a responsabilidade pelo que pudesse acontecer. Talvez fosse o medo de vir sozinho que se colocara diante de mim, sugestionando-me a aceitar uma compa­nhia que não me era permitida. Agora estava ali, desperdiçando uma preciosa ener­gia com uma pessoa que não tivera, como eu tive, o preparo necessário para aquela aventura. Ele participava de um objetivo que deveria ser somente meu e agora eu pagava por isto. É claro que haveria, em algum lugar deste mundo, um Graal espe­rando por ele; mas somente ele deveria procurá-lo. A busca é solitária e eu não devia ter aceito a intromissão de quem quer que fosse.

     - Sinto muito, Luís, mas não podemos continuar juntos.

     Ele me olhou fixamente, com espanto.

     - O que você está dizendo?!

     - Eu vou prosseguir sozinho.

     - Você está enfeitiçado! A droga... ela está tomando conta da sua mente! Você não pode deixar que ela o domine! Não pode deixar que os laços sejam cortados!

     Tive pena dele. Ainda não havíamos chegado à beira do abismo e ele já mostrava si­nais de desequilíbrio. Naquele momento, senti claramente que a experiência seria demais para ele. Não poderíamos descer àquele mundo de sombras e mistérios le­vando conosco nossos condicionamentos e limitações. Para prosseguir, eu deveria tomar uma decisão, sob pena de ficarmos ali paralisados.

     Tive, naquele momento, uma sensação estranha e perturbadora, como se tudo à nos­sa volta silenciasse. O vento cessara completa­mente e eu podia sentir as árvores, plantas e cada arbusto como seres inteligentes que deixavam por alguns instantes os seus cui­dados para nos observar. Era como se numa festa ruidosa, a or­questra silen­ciasse, todos parassem de conversar e uma multidão de olhos se dirigissem num só direção. Todos os presentes aguar­davam ali uma decisão. Uma decisão, e tudo volta­ria a ser como antes.

     - Ouça – disse Luís, mais calmo. – Tudo bem. Admito que estou mais agitado do que devia. Mas peço-lhe que considere o que vou lhe dizer. Eu tenho experiência com es­sas coisas. Alucinógenos pode­rosos. Alguém colocou alguma substância muito forte em nossa comida. Eles não querem que encontremos alguma coisa lá em­baixo, en­tende? Se seguirmos agora, sob o efeito dessa droga, dificilmente acharemos o caminho de volta. É ne­cessário que nos segu­remos com força à realidade. Que seguremos com força os laços que eles estão querendo cortar! São esses laços que nos mantém ligados à realidade! Você está me entendendo?

     - Do que é que você está falando? – perguntei, alarmado com o estado psicológico do meu colega. Ele suava muito e parecia fora de si.

     - Magia – disse ele, com os olhos arregalados. – Magia negra! Eu já vi isto antes. Se continuarmos nessas condições, tudo pode acontecer!

     Levantei a mochila. Olhei em volta: as rochas já não pareciam tão grandes, a paisagem parecia mesmo ter encolhido. O meu mundo, fabuloso e mítico, recuara, de­saparecendo, mais uma vez, por de­trás das brumas de um tempo que teimava em escapar-me pelos dedos. Senti o ímpeto de afastar-me o mais rápido possível daquele homem que insistia em manter-se agarrado a uma razão que já não fazia sentido. Mas antes de reiniciar a caminhada, decidi ouvir, mais uma vez (a última) o que ele tinha a dizer.

     - O que você sugere?

     Ele hesitou.

     - Nós temos que ir – suspirou. – Mas não agora... Não estamos preparados. Devemos retornar, o mais rápido possível, antes que seja tarde demais.

     Por alguns instantes, pensei que aquela era a minha última chance de voltar, são e salvo, à minha casa, ao meu mundo, à minha vida real. Não teria sido aquele homem colocado no meu caminho como um aviso? Sim, durante toda a minha vida senti como se uma presença invisível e poderosa me protegesse. Quem sabe não seria ela quem me falava ali, através daquele homem – o último obstáculo entre mim e o abismo? Era a última oportunidade para dar-me conta do risco enorme que estava correndo e retornar defini­tivamente ao mundo da normalidade. Sairíamos dali o mais rápido possível (não seria tarde demais?), subiríamos a trilha e tomaríamos o caminho de volta para a vida real. Mas – oh Deus! – qual era a minha vida real? Alguma coisa na paisagem imensa que eu divisara momentos antes, quando ousei encarar o horizonte que se esfumaçava na distância, demonstrou inequivocamente que a realidade mais profunda e verdadeira do meu ser encontrava-se naquele mundo, onde tudo tinha um significado, cabendo a mim o permanente encargo de encontrá-lo, a cada instante, a cada acidente de percurso. Eu via com nitidez que cada folha e cada reflexo de luz tinha uma relação íntima com tudo que já existiu ou irá ainda existir. Algo de extra­ordinário e maravilhoso me aguardava no final daquela jornada. Não era mais pos­sível adiar a minha descida. Retornar agora, seria retornar para sempre. E mesmo que algum dia voltasse para descer o abismo, seria apenas mais um passeio, como tantos outros que já fizera na vida. Eu não podia arriscar! Se Luís temera tanto romper os laços com a superfície, o que eu mais temia agora era romper os laços com minha busca. E que diria Helena, se eu voltasse de mãos vazias? Ou se desistis­se, antes mesmo de empreender a parte mais essencial da jornada: a descida às profundezas que me esperavam? Não havia mais o que pensar. A decisão es­tava tomada.

     Coloquei a mochila nas costas. Estendi a mão para Luís. Um pé-de-vento soprou, carregando folhas num redemoinho.

     - Adeus. Nos veremos um dia, por aí.

     - Não vá! – disse ele, num último apelo.

     A minha mão ficou parada, inútil, suspensa no ar. Não havia mais qualquer chance de entendimento. Ele estava desolado, ansioso para voltar. Pensei, naquele momento, se o que ele receava, de fato, era que eu me perdesse no abismo, ou que ele mesmo tivesse de enfrentar mais uma noite sozinho na mata. Achei estranhamente divertido vê-lo naquele estado de quase pânico, e me orgulhei de mim, da minha serena aceitação da missão para a qual estava predestinado. Foi um sentimento que passou como uma aragem – e mais uma vez senti o coração pesar. O que será do meu amigo? O que será de mim? Estaríamos já contaminados por uma estranha espécie de loucura? Desci a trilha, apoiando-me nas pedras, mergulhando lentamente nas profundezas do cânion. Não olhei para trás, mas pude ouvir por algum tempo as palavras do Luís, que dizia: “Louco! Não diga que não lhe avisei! Eles estão se apossando da sua mente! Volte! Ainda é tempo! Ainda é tempo...”

     Acelerei o passo, saltando sobre as rochas e descendo mais e mais o abismo, enquanto via desaparecer os últimos sinais do meu ex-companheiro de viagem. Suas palavras, entretanto, continuavam ressoando em minha mente como como uma desesperada tentativa de deter os meus passos.

     Eu tinha que continuar, mas – e se eu estivesse errado? Em vez do escudo e da espa­da, eu só tinha nas mãos uma grande e opressiva interrogação. Lembrei-me de um sonho que tive dias antes. Eu saía da casa dos meus pais – o lar da minha infância – rumo a uma cidade distante onde alguém muito importante esperava por mim, quan­do via surgir uma matilha de cães selvagens que corriam, raivosos e sedentos de sangue, em minha direção. Eu tentava evitá-los, mas eles vinham de todas as dire­ções, obrigando-me a recuar.

     Mas eu já tinha vindo tão longe! Como poderia recuar justamente agora, quando con­seguira superar o medo de dar os primeiros passos? E não havia cães selvagens à minha frente. Eles, os demônios do medo, eram frutos apenas da minha imaginação, e como tal é que deveri­am ser tratados. Até ali, todos os meus medos e re­ceios não pas­savam de ilusões, fantasmas alimentados pela indecisão, vagas supers­tições e dois ou três malucos que cruzaram o meu caminho, dizendo disparates, como "comida atrai", "ela é uma feiticeira" ou "eles estão se apossando da sua mente". Era ridículo que eu, um bem informado cidadão do século vinte, desse ouvidos àque­las tolices.

     Eu não podia deixar que o medo se tornasse um obstáculo no meu caminho. Era fun­damental meter na cabeça que agora eu só tinha uma opção: seguir em frente. Eu iria acender a minha fogueira na noite mais escura do fundo daquele abismo e, tran­qüilamente, descobrir que ali  também era o meu lar. É importante saber que, em qualquer lugar do universo em que estejamos, estaremos sempre aqui. Eu jamais me poderia perder de mim mesmo, e isto era o que importava.

*  *  *  *

     Nas matas, no curso constante e perene dos rios, nas fendas pro­fundas dos penhas­cos sobre as quais saltava, agora, com o coração vibrando de alegria, eu me dava conta, pela primeira vez, que não estava só. Percebi que carregava em mim uma quantidade infinita de homens e mulheres. Quantos deles não andaram também pelos caminhos do mundo, nas circunstâncias mais difíceis e atrozes? Quan­tos não morre­ram nas estradas desertas, longe das vistas dos seus semelhantes? Mas eles conti­nuavam andando ali, no meu peito, legiões de seres que – como eu – serão sempre um só.

     Como seria triste e melancólico morrer ali, longe de todos, sendo tragado para sem­pre pelo vazio. Eu continuaria andando, só, no coração dos homens, mas de que adi­antaria isto? Tentaria, como muitos, antes e depois de mim, agarrar-me como um náufrago em qualquer coisa sólida e estável, na superfície, inutilmente, mas de nada adianta­ria – e uma boca voraz e insaciável se abriria descortinando, diante dos meus olhos, a morte. Assim aconteceu aos náufragos que sucumbiram às vagas e aos tubarões; aos que apodreceram nos campos de concen­tração; aos inocentes cujos sorrisos foram varridos pela brutalidade; aos que morreram de fome e frio nas cidades e nos desertos; aos doen­tes terminais aos quais só resta dizer: adeus!, mas eu posso pensar e lutar e decidir e agir e vencer! Eu posso ven­cer, mas... e os outros?

     Como é triste partir deixando para trás tudo  que amamos. Diante da interminável legião de homens, mulheres, crianças e velhos desamparados, eu era simplesmente feliz por tê-los em mim, ainda que sua dor me tocasse o coração. Pelo menos, ali, eu podia abraçá-los e dizer: não tema, irmão, que a morte é uma ilusão, como a noite sobre a qual raia um novo dia. Ouça os galos da aurora a anunciar que além das trevas há sempre uma nova luz.

     Acorda do teu sono! Toma a tua espada e vem comigo pelo vale das sombras! Toma o teu escudo e a tua tocha! Vamos resgatar aquele que anda em círculos achando que o caminho não leva a lugar algum! Não deixe teu pensamento dividir-se, pois a verdade é uma só e é sobre ela que deves fincar as bases do teu castelo!

     É preciso – pensei – é preciso ter um objetivo em vista e seguir em direção a ele, sem hesitação.

*  *  *  *

    Quando o sol poente pintava de alaranjado e rosa o enorme paredão rochoso do outro lado do abismo, e nele projetava a silhueta dos maciços de pinheiros e Podocarpus  por onde eu transitava, encontrei uma pequena grota, escavada na rocha por um límpido regato, que se desdobrava em socalcos repletos de vegetação, como degraus de um fantástico jardim. Armei a barraca próximo a um riacho que seguia seu rumo sinuo­so sobre as pedras úmidas cobertas de musgos e líquens, despen­cando em cas­catas e aprofundando-se em meio à vegetação, até desaparecer, adiante, num mur­múrio. Pássaros cantavam à minha volta e o vento soprava suavemente trazendo-me o cheiro doce das flores e dos frutos. Um beija-flor passou à minha frente, polini­zan­do as flores, e desapareceu nos campos, por detrás das rochas.

     Construí minha fogueira com pedras, folhas, gravetos e galhos se­cos, acendi-a e dei­xei-me ficar, observando as chamas e sentindo-a como um fogo de renovação. Labaredas luminosas faziam dançar as sombras do barranco de pedra ao lado da barraca.

     A noite chegou fresca e serena, apesar da umidade. Morcegos celebra­vam o entardecer com seu vôo irregular. O incidente que arrancou Luís da minha companhia, horas antes, curiosamente não ocupou minha mente, a não ser por breves momentos e sem deixar dúvidas ou questionamentos. Firmei meu pensamento na certeza de que cada um é responsável por seu destino. Amigos que há muito tempo eu não via visitaram-me os sonhos, trazendo um sentimento profundo de ale­gria e fraternidade. Mulheres amorosas envolveram-me em brumas míti­cas, levando-me a um mundo encantado, em que fadas e duendes compartilhavam conosco um mistério suave e doce, sem riscos e sobressaltos.

     Mais uma vez o deus Pã não apareceu. Provavelmente tinha coisas mais impor­tantes para fazer do que importunar viajantes inofensivos. Cheguei a pensar que a estranha  visão daquela noite não passara de uma sugestão: algum tipo de contaminação psí­quica, causada pelos delírios e recordações do meu companheiro. Entendia melhor, agora, as recomendações do professor Ricardo, no sentido de que eu empreendesse sozinho a minha jornada. Deci­di, daquele momento em diante, cumprir rigorosa­mente as instru­ções. Olhei o envelope fechado. No momento certo, tudo se esclarece­ria.

*  *  *  *

     A partir daquele ponto, o caminho tornou-se cada vez mais íngreme e perigoso. Mui­tas vezes precisei utilizar a corda, projetando-me sobre as escarpas, pendurando-me sobre a face nua das rochas, que ga­nhavam agora uma dimensão colossal. Mais uma vez, senti como se a paisagem crescesse diante dos meus olhos, como se estivesse realmente adentrando um mundo povoado por gigantes. Sorri, entretanto, censuran­do intimamente este pensamento perturbador. Não deveria, de forma alguma, deixar-me influenciar por fantasias delirantes. Sabia que agora eu só poderia contar com os meus próprios recursos e que eles depen­diam de uma atenção e lucidez absolutas. Mas isto não me impedia de maravilhar-me com a grandiosidade  do amplo cenário e das falésias a pique, em que me movia com a pequenez de um inseto e  que, com su­as faces negras de basalto, mergulhavam como impressi­onantes monolitos na selva luxuriante, lá embaixo. O verde das copas, que eu discernia do alto como um tapete felpudo e ondulado, ganhava um tom escuro nas áreas encobertas pela sombra enorme dos penhascos.

     A visão da floresta virgem e enigmática, a centenas de metros abaixo de onde eu es­tava, no fundo do abismo, pesou sobre o meu coração. A simples idéia da presença de animais sel­vagens naquela solidão me deixava aterrorizado. A contra­gosto, veio-me à mente a imagem de grandes serpentes boiando nas águas escuras dos rios, de felinos esfomeados em tocaia sobre as árvores, de insetos desconhecidos e vene­nosos ocultos no ôco dos troncos caídos ou no solo fofo e úmido coberto de espessas camadas de folhas apodrecidas.

     O que mais existiria ali?, pensei, agachado sobre uma plataforma de pedra, na face do penhasco, onde decidi passar a noite. Como um ponto na paisagem eu meditava sobre o quanto eu era insignifi­cante naquela solidão. Para onde quer que eu voltasse os olhos via prodígios, mas nada ali parecia tomar conhecimento da minha existên­cia. Se por um descuido eu me precipitasse lá embaixo, nada se alteraria, tudo pros­seguiria como sempre foi.

     A descida tornara-se penosa. Meus músculos doíam, meus dedos ardiam, as mãos e os braços estavam cansados do esforço de me pendurar na corda, nas freqüentes si­tuações em que isto era necessário. E eu ainda estava no meio do caminho que, con­forme previa o mapa do professor, se estenderia numa diagonal descendente ao longo de muitas curvas do penhasco, que me proporcionariam outras visões e talvez outras surpresas.

     Utilizei mais uma vez os medicamentos que trouxera, massageando os pés e mãos, aplicando um bálsamo refrescante e deitando-me depois para relaxar. Com as pernas para o alto e os calcanhares sobre uma pedra, deixei o sangue  fluir para o cérebro enquanto os ruídos da tarde absor­viam-me os sentidos numa suave dormên­cia. Com a noite chegava, das profundezas da flo­resta, lá embaixo, uma estranha profusão de sons: cantos variados de aves, um alarido ensurdecedor de macacos e um ruído profundamente grave e melancólico. Pareceu-me o rugido de uma fera – um grito pungente e solitário. Ele ecoava sobre os rochedos e chegava-me aos ouvidos como uma advertência.

     Adormeci, engolfado pela escuridão. Sonhei que escalava uma montanha alta e es­carpada. Ela se erguia numa floresta densa, habitada por uma tribo de índios, primi­tiva e desconhecida. Eles referiam-se à montanha com uma veneração mista de pasmo e terror. Após enfrentar e vencer uma série de perigos, eu vislumbrava do alto uma grande cachoeira, que caía de outra montanha, ainda mais alta, cujo cume desaparecia além das nuvens. A água cristalina despencava sobre sete degraus de pedra, e cada degrau era uma nota musical, com­pondo uma melodia de inexprimível beleza. Eu apreciava, extasiado, aquela maravilha, quando senti a presença de uma mulher. Ela estava do meu lado esquerdo, um pouco atrás de mim, observando a água que caía. Disse-me então as seguintes palavras:

Este é o mundo perdido
da deusa  esquecida do abismo.
Ela, que foi sem ter sido,
retornará, no mistério da conjunção celestial

    
     Voltei-me para olhá-la, mas só pude  ver os arbustos agitados pelo vento.

     Acordei profundamente impressionado com o encanto daquelas imagens, e com as so­lenes e enigmáticas palavras da mulher. Sobre a plataforma eu podia ver a luz do sol iluminando a face do rochedo, e as árvores, lá embaixo. Um casal de urubus-reis tra­çavam círculos no céu azul claro, en­quanto suas sombras deslizavam nas pedras. Sentia-me renovado e confiante.

     Após o desjejum (ameixas secas, sanduiches, biscoitos e chá), preparava-me para iniciar a última fase da descida, até o fundo do cânion, quando tive uma experiência singular. Ao fe­char os olhos, para um momento de concentração, vi formarem-se na minha mente as imagens de um mundo primitivo, no qual sáurios gigantescos ocu­pavam a Terra, vagando pelas planuras, florestas e pântanos. Vi pte­rodáctilos voando em círculos sobre os penhascos, num tempo vasto e incomensurável. De repente, um dos mons­tros alados voou em linha reta, e, atravessando as eras que nos separavam, pousou na plataforma, diante de mim. Tomado por um acesso de terror, saltei para trás de encontro ao rochedo às minhas costas enquanto abria os olhos e lutava para afastar do meu espírito a visão estarrecedora daquele mundo sem humanidade, aquela auro­ra dos tempos em que as forças mais elementares reinavam soberanas, e feras lan­çavam urros para o vazio e para a eternidade. Vi então, à minha frente, uma ave marinha, uma procelária dessas que sobrevoam e pousam nos mastros das traineiras de pesca, estranhamente desgarrada a muitos quilômetros do mar. Ela me olhou por alguns instantes, como se não compreen­desse o meu assombro e admiração. Bateu as asas alvas e voou para leste, até tor­nar-se um ponto branco e luminoso que desapa­receu contornando os penhascos.

*  *  *  *

     Lancei-me a caminho com redobrado vigor. O mapa indicava com precisão as passagens estreitas através das quais deveria descer. Passo a passo, eu descobria os pontos seguros para amarrar a corda e as gargantas sobre as quais teria que saltar. A cada passo que eu dava, mais se tornava claro o quanto aquilo tudo estava longe de ser uma brincadeira. Os riscos eram constrange­doramente reais e um passo em falso poderia ter sérias consequências. Existia ainda o risco de colocar as mãos em cascavéis, que não raramente ficavam enrodi­lhadas sobre as pedras, ao sol. Ao meio dia vi duas delas que armaram o bote em minha dire­ção, até que as afastasse do caminho com pedradas.

     Ali, sozinho naquelas lonjuras, o meu espírito oscilava entre um estado de alegria radi­ante e um pesar profundo, aliado a um medo quase paralisante. O abismo parecia es­tender-se interminavel­mente, mas à medida que descia, eu percebia que os ruídos da mata, lá embaixo, tornavam-se mais próximos e destacados. Via agora o cume do pe­nhasco como a ponta de um rochedo monstruoso que se projetava muito acima do ponto onde me encontrava sobre uma nesga de céu azul e intensamente brilhante. Dali do alto podia ver o pequeno desfiladeiro que, segundo o mapa, deveria atravessar no sentido norte, até chegar a uma área ampla e aberta onde encontraria um rio que precisarei cruzar, para chegar a um extenso túnel formado por bambus. Na outra margem, próximo à face oeste do rochedo, encontraria uma clareira na qual devia procurar a copa de oro, que estaria junto a uma grande pedra em forma de cão.

     Antes mesmo de chegar ao fundo do cânion, percebi o tamanho espantoso das árvo­res, uma floresta tropical densa e exuberante, com exemplares que seguramente ul­trapassavam os quarenta metros de altura. Eu nunca vira nada igual e, naturalmente, sentia-me extremamente vulne­rável naquela paisagem vasta e primitiva. Procurei ver o tamanho dos animais e respirei aliviado quando pude observar que os pássaros e insetos que chegavam até o lugar em que me encontrava, vindos da floresta, eram todos aparentemente normais. Percebi que estava, mais uma vez, influenciado pelos delírios de Luís. Mas ele já não fazia parte daquele mundo. E o que estaria eu espe­rando ver? Formi­gas gigantes devastando as matas? Aranhas monstruosas lançando suas teias, como redes, sobre homenzinhos indefesos? Que loucura! Não, eu não de­via tornar-me presa de terrores inconscientes.

     O que eu testemunhava ali era facilmente explicável por qualquer estu­dante de bio­logia. Tratava-se apenas de uma região extremamente fértil. Os nutrientes, trazidos pe­las chuvas que irrigam o planalto, depo­sitaram-se durante milhares de anos nesta garganta, favorecendo o desenvolvimento daqueles espécimens vegetais tão avantajados. Tudo era lucidamente simples, muito mais simples do que especulava a minha vã imaginação. A ciência mostrava-se ali, mais uma vez, como um holofote que iluminava as trevas da superstição e dos medos irracionais. Não é por acaso que de­ram o nome de iluminis­mo à corrente de pensamento que,  num feliz momento da humanidade, trouxe a luz da razão ao abismo da ignorância e do medo.

     Quando eu, na manhã do dia seguinte, pusesse os pés no solo plano do novo mundo que iria enfrentar, precisaria da companhia espiritual de homens como Darwin, Humboldt ou Spruce – homens que se lançaram na busca do conhecimento científico do mundo na­tural, penetrando no coração das selvas americanas com as lanternas do discerni­mento e da lucidez que revelaram, de cada objeto e espécimen observado, sua verda­deira forma e razão de ser. Uma formiga é uma formiga, e só. Claro, podemos classi­ficá-las em espécies e subespécies ou estudá-las do ponto de vista do formigueiro como sendo ele a entidade viva, e não as formigas individuais,  mas nem por isso elas deixa­rão de ser apenas formigas. Existem leis que regem cada componente da natureza, leis que determinam seu tamanho, seu comportamento e sua função na comunidade das espécies. Assim, as coisas ficam mais fáceis e reconhecíveis, como de fato o são. Basta portanto ao explorador que tome os devidos cuidados e mantenha-se de posse dos faróis da razão e tudo se esclarecerá.

     Embora a minha missão ali fosse um tanto diferente de uma expedição científica, eu também sabia, como Darwin ou Humboldt, o que devia fazer e podia constatar que estava me saindo bem. Até aquele momento, pelo menos. 

     Acampei ao entardecer na derradeira etapa da descida. “Amanhã cedo aden­trarei o novo mundo que me espera”, pensei. “Amanhã iniciarei o último capítulo da minha jornada”.